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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Entrevista Novos doutoramentos do IPG alinhados com a região

26-02-2026

O Instituto Politécnico da Guarda (IPG) acaba de ver aprovados dois doutoramentos. Um na área das Ciências Biomédicas e outro, em consórcio, na área das Ciência do Desporto. Joaquim Brigas, presidente do IPG, sublinha o trabalho efetuado na área da investigação através das suas seis unidades de Investigação & Desenvolvimento (I&D), quatro das quais com avaliação de Muito Bom, atribuída pela Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT, e a presença do IPG na universidade europeia UNITA. De caminho, mostra-se crítico com medidas que aumentam as assimetrias entre o litoral e o interior, como o aumento de 5% no número de vagas em todas as universidades e politécnicos nacionais. Na sua opinião, as vagas deviam era ser reduzidas em 5% de forma universal.

O Politécnico da Guarda terminou o último ano civil e iniciou este, com boas notícias, como a criação do Doutoramento em Ciências Biomédicas. Isto é um dado histórico para o Instituto Politécnico?
Sim, é de facto um dado histórico. Foi o culminar de um trabalho árduo desenvolvido ao longo de anos, de aposta na investigação, de contratação de recursos altamente qualificados, que permitiu constituir de raiz na Guarda um grupo consistente de investigadores próprios numa unidade de I&D que foi classificada pela FCT com “Muito Bom”. Este trabalho materializou-se com este doutoramento. Foi uma excelente notícia para fechar o ano de 2025.
Além do doutoramento, tivemos outras boas notícias no fecho de 2025, como a aprovação pela FCT de mais cinco unidades de investigação e desenvolvimento noutras áreas. Isto significa que uma instituição pequena como a nossa, que trabalhou em várias frentes, desde o desporto à educação, ao turismo, à sociedade e território, à eletromecatrónica e à saúde, teve o reconhecimento por parte das entidades responsáveis das suas unidades de investigação e desenvolvimento.
Quatro delas tiveram a classificação “muito bom”, sendo que a que dá suporte ao doutoramento em Ciências Biomédicas é um centro próprio. Espero agora que as outras que tiveram “Bom” sigam o mesmo caminho, para ganharem massa crítica e produção científica de qualidade, por forma a que também sejam reconhecidas com “Muito Bom”.

A investigação foi um dos vetores em que apostou muito. Isso dá instrumentos ao Politécnico para poder avançar com doutoramentos e para poder ser Universidade Politécnica...
O objetivo principal do desenvolvimento destas unidades de investigação foi reafirmar o contributo do Politécnico para a valorização do território em que está inserido. Provar que o IPG tem capacidade de investigação e de transferência do conhecimento para oferecer o grau de doutoramento em áreas muito concretas, relacionadas com a matriz politécnica, no sentido de reforçar a ligação com o território e a sociedade. A boa notícia, quando terminou o ano 2025 e entrámos em 2026, foi a aprovação de um outro doutoramento, em Ciências do Desporto, fruto do consórcio que temos com outros politécnicos. Um doutoramento cuja sede do centro de investigação está na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, do Politécnico de Santarém.
Terminámos bem o ano de 2025, com seis unidades de investigação e um doutoramento aprovado. Começámos o ano de 2026 com a aprovação de um novo doutoramento. Em termos de investigação, esta foi a afirmação do IPG e da sua capacidade de investigação. Como em todas as instituições, a preocupação desta investigação estar alinhada também com a nossa oferta formativa, por forma a garantir que a formação ministrada tira proveito da I&D desenvolvida no Politécnico.

Esses doutoramentos quando é que podem entrar em funcionamento?
No próximo ano letivo. Esta é uma aposta forte do IPG em áreas muito específicas onde competimos a nível nacional com outras instituições, algumas maiores que nós e outras com a designação de universidade. Já o tínhamos feito anteriormente a propósito do laboratório colaborativo para a logística, para o qual conseguimos a sua aprovação. Um laboratório muito importante para o desenvolvimento deste território, considerando que a Guarda pretende criar um Porto Seco, que já está aprovado, pelo que não fazia sentido que a instituição sediada no território não estivesse preparada. Andámos à frente no tempo, fizemos o trabalho por antecipação, por forma a termos as formações para a capacitação dos futuros recursos para o Porto Seco da Guarda quando este começar a funcionar.

Estamos a falar de CTESP e licenciaturas?
Sim, de ambas as formações.

Ao nível da oferta formativa, falou-me há pouco que, desde que entrou para a presidência, que apresentou pelo menos mais nove ofertas formativas novas...
Entre 2009 até 2019 não houve novas ofertas formativas no Politécnico. Desde que começámos o nosso trabalho, em 2019, entraram em funcionamento pelo menos mais oito novos ciclos de estudo. Este ano apresentámos a proposta para mais de uma dezena de novos ciclos de estudo, em áreas que as escolas consideraram de interesse. Neste processo, atendemos, por um lado, às necessidades e à vontade dos estudantes em prosseguirem estudos em determinadas áreas, e, por outro, às necessidades do mercado. Estamos a falar sobretudo de mestrados. Para os doutoramentos propostos, a estratégia não foi diferente.

E a nível dos doutoramentos, uma vez que houve mais unidades de investigação com muito bom, podem vir a ser criados novos doutoramentos em consórcio ou individualmente?
Se houver a necessidade de capacitação de recursos em áreas específicas direcionadas para as necessidades do mercado, naturalmente que o faremos, tendo o foco sempre nas necessidades do mercado e no interesse dos ex-alunos. O IPG tem um grupo de antigos alunos que irá concorrer em força para estes dois doutoramentos. No fundo, o Politécnico começa a garantir aos alunos que entrarem para uma licenciatura prosseguam aqui os estudos até ao doutoramento.

Uma das questões que mais tem sido falada e que o CCISP tem criticado está relacionada com o aumento generalizado das vagas. Inicialmente era 10%, agora é 5%. Eu sei que defende uma coisa totalmente ao contrário, que era a diminuição de 5%em todas as instituições...
Havendo uma oferta formativa largamente superior à procura, o lógico seria ajustar, aproximar a oferta, baixando-a em relação à procura, para que o território pudesse ficar mais equilibrado. Este aumento, que acabou por ser fixado em mais 5%, irá fazer com que a concentração metropolitana aumente. E isto é prejudicial para o país e, particularmente, para os territórios das áreas de baixa densidade, sobretudo nas regiões transfronteiriças, como é o nosso caso.

E como é que os politécnicos ou as instituições do ensino superior no interior do país podem combater isso?
Fazendo pressão, fazendo sentir que fazemos parte de Portugal e que estes territórios não podem ser esquecidos, uma vez que também são território nacional. Depois, as autarquias e outros atores no terreno – mas, sobretudo, as autarquias – devem tomar posição, como têm tomado algumas assembleias municipais onde estão representadas diferentes forças políticas, no sentido de ser dada uma maior atenção ao interior, às áreas de baixa densidade. Isto acontece porque têm a consciência de que as instituições de ensino superior (IES) são âncoras de desenvolvimento do território em áreas geográficas altamente envelhecidas. As IES são a forma de trazer gente jovem para o interior, de os capacitar e de ajudar ao desenvolvimento e ao fornecimento de mão-de-obra qualificada para associações, autarquias, instituições e empresas que aqui se queiram fixar. Há um aspeto importante a salientar, que é o facto de o Ministério da Economia e Coesão Territorial ter criado condições para que as indústrias que se instalarem no interior tenham uma majoração dos apoios a fundo perdido que pode chegar até a 50% do investimento, enquanto no litoral o máximo a que o apoio a fundo perdido pode chegar é 30%. É preciso que, a nível do ensino superior, haja medidas de apoio à IES do interior que tenham a mesma lógica de discriminação positiva que tem esta medida do Ministério da Economia e Coesão Territorial.

Politicamente o discurso vai no sentido e a prática vai no sentido...
O Governo, já escrevi isso e assumi-o publicamente, tem defendido em Bruxelas a necessidade de coesão territorial. O problema é que, quando se chega a Portugal, as coisas correm em sentido contrário e a tendência para uma metropolização do território português é cada vez maior.

Outra medida que também pode prejudicar as instituições do interior tem a ver com a ação social e o modo como as bolsas dos estudantes vão ser valorizadas. Isso é algo crítico?
Eu penso que sim. Criando condições com base em critérios pouco claros e de definição difícil, que é o real custo de vida, criam-se e acentuam-se situações de desigualdade. O estudante, ao ir para o ensino superior, seja no interior, seja no litoral – a menos que se considere que há instituições de primeira e instituições de segunda – deve ter o mesmo apoio social, feito com dinheiros públicos. Fazer o contrário, é partir do princípio que só vêm estudar para as regiões do interior os estudantes mais fracos e que não conseguem entrar em Lisboa: ou seja, é partir do princípio que todos os estudantes podem ir estudar para o litoral. Sendo assim, há que pensar o território de outra forma e criar condições para que possamos todos viver no litoral. Nesse caso, tomem essa decisão e assumam-na pública e politicamente, dizendo o que é que pretendem fazer com o interior. Aquilo que está a acontecer acentua, pois isto é recorrente, já vem de vários governos, o desequilíbrio territorial, ano após ano. As medidas que estão a ser tomadas não são minimamente no sentido de corrigir as assimetrias. Pelo contrário! É isto que é grave e preocupante. Daí que as assembleias municipais de alguns territórios do interior tenham tomado posição, se tenham manifestado, conscientes do prejuízo que resulta para os seus territórios.
Há a necessidade de adoção por parte dos governos de medidas que levem a um equilíbrio maior do território, que progressivamente diminuam a concentração metropolitana. O país como um todo teria muito a ganhar com isso. Inclusive essas mesmas áreas metropolitanas.

O Politécnico da Guarda faz parte de uma universidade europeia, que é a UNITA. Qual é o balanço que faz desta presença na instituição?
Tem sido bastante positiva e desafiante. Obriga-nos a repensar o nosso modelo e a adequarmo-nos no sentido de acompanharmos uma evolução europeia do ensino superior. Permite a uniformização de algumas formações, o desenvolvimento de formações conjuntas de diversas formas: em colaboração, cooperação e associação. Ajuda a fomentar a investigação porque há grupos de trabalho para as diversas áreas, obriga-nos a trabalhar de uma forma mais intensa a investigação, a transferência do conhecimento, o empreendedorismo e a ciência em si. Sendo uma rede europeia, que conta com um número de recursos substancialmente superior, faz com que trabalhemos a um outro ritmo.
O desenvolvimento de unidades formativas em que os estudantes podem desenhar os seus próprios planos de estudos e os seus currículos, pode ser acelerado. Depois, não podemos esquecer a mobilidade dos estudantes e dos docentes. Este contacto permanente de docentes em grupos de trabalho com colegas de outras universidades– de Itália, de França, países de leste ou Espanha – ajuda ao desenvolvimento da nossa instituição. Nós ganhamos muito com isso. Dá mais trabalho, mas vale a pena. É preciso um grande empenho, mas o benefício é elevado e começa a verificar-se com ciclos de estudo conjuntos e com o trabalho de investigação que vem sendo produzido em grupos diversos. Praticamente toda a comunidade que está envolvida neste processo: professores, técnicos, até funcionários, estão envolvidos neste processo da universidade europeia.
O futuro da UNITA vai ser discutido, no Politécnico da Guarda, em março, num encontro das universidades que fazem parte do consórcio. Vamos debater como esta poderá desenvolver-se, se em associação, confederação ou federação. Estamos a pensar o futuro e fazemos parte do grupo que discute o futuro do ensino superior na Europa. Isto, por si só, é uma enorme vantagem.
Em Portugal ainda se discute se os politécnicos, como é o caso do nosso, devem passar ou não a “universidade politécnica”, embora tudo pareça estar encaminhado nesse sentido. No nosso caso estamos, desde 2023, a trabalhar numa universidade europeia, a pensar o futuro em termos europeus e a participar de forma ativa nessas decisões da construção. Veja-se o paradoxo: em Portugal ainda se questiona se os politécnicos, como o nosso, devem ou não ser universidades politécnicas, quando nós já estamos na direção de uma universidade europeia.

O RJIES está para ser mudado já há algum tempo, acredita que desta vez, de facto, vai ser feita a revisão?
Depende da Assembleia da República.

Qual é que é a sua posição acerca do documento que está em discussão?
Se olharmos para a história recente destas instituições de ensino superior, vemos que os resultados conseguidos demonstram a sua enorme capacidade. Outros parceiros, e até alguns responsáveis políticos, duvidariam que instituições de pequena dimensão e afastadas de grandes centros iriam conseguir aprovar unidades de Investigação & Desenvolvimento e doutoramentos. Está mais que provado, e o Politécnico da Guarda é um bom exemplo disso, que há capacidade instalada para fazer evoluir a ciência e a investigação em Portugal, contribuindo de forma efetiva para o desenvolvimento dos territórios em que estamos instalados. Ao demonstrar-se isso, penso que passou a haver a nível nacional o reconhecimento da capacidade instalada no subsistema politécnico. A não ser que haja algum preconceito...

Para fecharmos a nossa conversa, a nível do PRR, o projeto, o modelo de residência dos estudantes, já está no terreno?
Sim, já está no terreno. Como é sabido, a residência do Politécnico da Guarda foi aprovada tardiamente. Foram necessárias várias reclamações, porque a verba que estava prevista inicialmente era manifestamente insuficiente para a construção, ao ponto de ter ficado um concurso deserto. Foi assinado o auto de consignação, há uns meses, e a residência está em construção. De relembrar que, quando assinámos esse auto, já havia instituições de ensino politécnico, para além de universidades, que já tinham inaugurado as suas residências, tais como o Politécnico de Beja.

Outra das obras é Escola Superior de Saúde...
Sim, mas será com outras verbas. Temos o pré-projecto concluído e está em desenvolvimento o projeto final. A construção da nova escola é fundamental para o desenvolvimento da área da saúde no Politécnico da Guarda, de forma a dar resposta às suas licenciaturas, mestrados, doutoramento e aos laboratórios que são também partilhados com outras áreas de investigação. É o caso da Escola Superior de Educação, Comunicação e Desporto, particularmente as áreas do desporto, envelhecimento ativo e saudável, mas também na biotecnologia, design, etc. Esta é uma necessidade que vai ser resolvida com grande atraso.

IPG
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