O escritor José Luís Peixoto, com obras traduzidas em mais de 30 línguas, recebeu, no passado dia 2 de março, o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2026. A distinção, atribuída pela Universidade de Évora (UÉ), foi entregue numa cerimónia que encheu a Sala dos Docentes.
Na sua intervenção, José Luís Peixoto começou por recordar que “um dia perguntei à minha avó se já tinha ido à Capela dos Ossos. Estávamos sentados num banco do Jardim Público de Évora enquanto esperávamos pelo meu pai. Nunca tinha ouvido falar dessa capela de nome insólito. Lembro-me de como a minha avó ficou impressionada com essa visita e ainda hoje sinto orgulho por, naquela altura, ter mostrado aquele lugar à minha avó, que já tinha 80 anos.”
O escritor português lembrou que "as palavras refletem os que estão e os que estiveram. A literatura é uma forma de honrar o passado. Filhos e escritores são continuadores. É uma honra fazer parte desta história e desta herança. Tenho muito orgulho de, a partir de agora, ter o nome de Vergílio Ferreira junto ao meu nas notas biográficas”.
Recorde-se que o júri da edição deste ano, presidido por Antonio Sáez Delgado, decidiu, por unanimidade, atribuir a distinção a José Luís Peixoto, natural da vila de Galveias, no concelho de Ponte de Sor, distrito de Portalegre.
"Com o Prémio Vergílio Ferreira 2026 entregue a José Luís Peixoto homenageamos alguém que elevou o nome de Portugal e do Alentejo a tantos lugares do mundo, num ato de extrema generosidade”, disse o presidente do júri. “A literatura não salva a vida, mas pode dar-lhe um sentido. Assistimos, mudos, a uma banalização total da cultura e a uma infantilização da sociedade; a universidade deve ser uma voz de resistência. Hoje defendo a cultura material, reivindico o livro e a palavra que tanto constroem a nossa memória”, acrescentou.
Citada na informação partilhada com o Ensino Magazine, Carla Castro, docente do Departamento de Linguística e Literaturas da Universidade de Évora, que apresentou o autor, refere-se a José Luís Peixoto como “atual guardião do Prémio Vergílio Ferreira. José Luís Peixoto é o homem que saiu do Alentejo, mas, num ato de resistência literária, nunca deixou que o Alentejo saísse de si”.
No entender de Carla Castro, o escritor “não escreve apenas sobre o Alentejo; escreve sobre a memória, os silêncios, a identidade — e estas são as pátrias comuns entre todos nós. Cesta distinção, reconhece-se não uma obra individual, mas um percurso literário consistente, que levou a nossa língua mar adentro, entregando-a a leitores que não a sabem, mas que a sentem”.
A sessão, apresentada por Luís Matias, da rádio Diana FM, contou também com a intervenção de Ana Telles, vice-reitora da instituição (em representação da reitora, Hermínia Vasconcelos Vilar - na foto a entregar o prémio). "Todos os homenageados deste prémio e toda a criação artística que se faz nesta cidade de Évora e neste território mostram que a riqueza cultural é imensa perante uma região que é considerada a mais pobre do país”, disse Ana Telles.
A cerimónia teve ainda a leitura de textos do autor por Eduardo Freitas e Lara Raimundo, estudantes do Departamento de Artes Cénicas da Escola de Artes, sob coordenação de Marcos dos Santos, bem como momentos musicais protagonizados por José Carlos Rico, pelo duo Diogo Martins (clarinete) e Carlota Tiago (marimba), alunos do Departamento de Música da Escola de Artes, e pelo grupo de cantares alentejanos “Era Uma Vez… o Cante!”, de Vendas Novas.
Instituído pela UÉ em 1997, para homenagear o escritor que lhe dá o nome, o prémio destina-se a galardoar anualmente o conjunto da obra literária de um autor de língua portuguesa relevante no âmbito da narrativa e/ou ensaio.
Segundo a academia, o júri justificou a atribuição da distinção ao escritor “pela força criativa da sua ficção, que parte da experiência vital no Alentejo e chega ao mundo inteiro, com uma escrita rica em densidade emocional que aborda temas como identidade, memória, ruralidade e diáspora”.
“Exemplos paradigmáticos da sua identidade de escritor são a sua primeira obra ‘Morreste-me’, publicada há um quarto de século, que marca o início do seu percurso, ‘Galveias’ (2014), que se desenrola na sua terra natal, e, mais recentemente, ‘Almoço de Domingo’ (2021) e ‘A Montanha’, que chegou às livrarias em outubro de 2025”, realçou.
Considerando José Luís Peixoto como “uma das vozes contemporâneas mais marcantes da literatura em língua portuguesa”, a UÉ lembrou que o autor foi distinguido com o Prémio Literário José Saramago, em 2001, pela obra “Nenhum Olhar”.
Seguiu-se, em 2007, o Prémio Cálamo Otra Mirada, reservado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha, pelo “Cemitério de Pianos”, salientou, frisando que, em 2012, o “Livro” recebeu o prémio Libro d’Europa, atribuído em Itália ao melhor romance europeu nesse ano.
Quanto ao livro “Galveias”, disse, “foi duplamente premiado”, uma vez que “recebeu no Brasil o Prémio Oceanos para a melhor obra literária em língua portuguesa e no Japão, em 2019, o Prémio da Melhor Tradução de 2018”.
Nesta edição do prémio, o júri, além de Antonio Sáez Delgado, integrou também os docentes universitários Cristina Robalo Cordeiro, Giorgio de Marchis e Carla Isabel Ferreira de Castro e o crítico literário Frederico Pedreira.
O Prémio Vergílio Ferreira foi atribuído, pela primeira vez, a Maria Velho da Costa, seguindo-se Maria Judite de Carvalho, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Agustina Bessa-Luís, Manuel Gusmão, Fernando Guimarães, Vasco Graça Moura, Mário Cláudio e Mário de Carvalho.
Luísa Dacosta, Maria Alzira Seixo, José Gil, Hélia Correia, Ofélia Paiva Monteiro, Lídia Jorge, João de Melo, Teolinda Gersão, Gonçalo M. Tavares, Nélida Piñon, Carlos Reis, Ana Luísa Amaral, Helena Carvalhão Buescu, Ondjaki, Maria Irene Ramalho e Djaimilia Pereira de Almeida foram os restantes premiados.