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BOCAS DO GALINHEIRO In memoriam, Jorge Silva Melo e William Hurt

18-03-2022

De uma assentada, dois nomes maiores do cinema e da cultura, que muito admirava, desapareceram, do mundo dos vivos, porque a sua obra ficará. Para sempre. Jorge Silva Melo (JSM), morreu no passado dia 14, aos 73 anos, William Hurt, de 71, morreu a 13.
Nascido em Lisboa a 7 de Agosto de 1948, JSM foi homem de muitos instrumentos e, ao contrário do que se diz, todos tocou bem. Actor, cineasta, crítico, escritor, encenador, tradutor, dramaturgo, professor e mais, mas acima de tudo um grande empreendedor, ligado indelevelmente a dois projectos maiores do teatro português: o Teatro da Cornucópia que fundou em 1973 com Luís Miguel Cintra e, mais recentemente os Artistas Unidos, onde foi figura omnipresente até à sua morte e a poucos dias de estrear mais uma peça, a última, que encenou, Vida de Artistas, de Noel Coward.
Tudo começou pela escrita, no suplemento juvenil do Diário de Lisboa, onde assinava crítica de cinema, que dividia com Lauro António (a que teremos que voltar uma crónica destas), passando pelo Tempo e o Modo, pela mão de outro nome maior do cinema português, João Bénard da Costa, que foi seu professor no Liceu Camões que frequentou depois de abandonar os Maristas. Cruza-se com o teatro no Grupo de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, já com Luís Miguel Cintra, como actor, desiderato maior, digo eu, tendo em conta o seu percurso, na Cornucópia e nos Artistas Unidos, mas também nas suas deambulações por esta Europa fora, em 1980 e 1981, na então República Federal Alemã e em Itália, onde, como bolseiro trabalhou com Peter Stein e Michael König na Schaubühne, nomeadamente como assistente de encenação de Oresteia e Woyseck, e no Piccolo Teatro de Milano como assistente de Giorgio Strechler, e mais tarde, em França, onde virá a trabalhar com Jean Jourdheuil e Jean-Françõis Peyret, experiências capitais para o seu percurso em Portugal, onde o seu nome está ligado, como actor e encenador a peças fundamentais como O Misantropo, de Molière, Terror e Miséria no III Reich, de Bertolt Brecht ou E Não se Pode Exterminá-lo?, a partir textos de Karl Valentin, na Cornucópia, de onde sai em 1979, que mais tarde deu lugar a uma série de 5 episódios com realização Solveig Nordlund e Jorge Silva Melo.
Os Artistas Unidos começaram em 1995 com uma peça de JSM, António, Um Rapaz de Lisboa, passando depois pelos vários palcos que teve, desde as antigas instalações do jornal “A Capital”, no Bairro Alto ao Teatro da Politécnica, onde se viu de Shakespeare a Goldoni, de Brecht a Dimítris Dimitriades.
Com uma bolsa da Fundação Gulbenkian, em 1969 foi estudar cinema na London Film School, em Londres, iniciando-se como assistente de realização de António-Pedro de Vasconcelos, Paulo Rocha e de Alberto Seixas Santos. Como realizador, depois da adaptação de E Não se Pode Exterminá-lo?, com Solveig Nordlund, dirige, entre outros, Passagem ou a Meio Caminho (1980), a partir da vida e obra de Georg Büchner, Ninguém Duas Vezes (1983), Agosto (1988), com argumento seu, tal como António Um Rapaz de Lisboa (2000),para além de vários documentários sobre artistas plásticos e actores. Como no poema de Brecht, “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.”
Nascido em Washington a 20 de Março de 1950, William Hurt, depois de se iniciar no teatro, teve uma ascensão meteórica no cinema na década de 1980, tendo protoganizado vários filmes nomeados para os Oscar, Os Amigos de Alex (1983), O Beijo da Mulher Aranha (1985), Filhos de Um Deus Menor (1986), Edição Especial (1987) e O Turista Acidental (1988), tendo sido ele próprio nomeado como melhor actor, por três destes filmes tendo arrebatado o Oscar em O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, com Sónia Braga e Raul Julia. Após curtas passagens pela televisão, Viagens Alucinantes (1980), de Ken Russell é primeira longa-metragem que protagoniza, sendo que é com Noites Escaldantes (1981), de Lawrence Kasdan, ao lado de Kathleen Turner, que a sua carreira recebe um impulso imparável para a tal década inesquecível. Com um estilo de representação contida e uma voz inconfundível, era impossível não sermos atraídos pelos seus personagens, ele que tantos interpretou em filmes tão diferentes como os já referidos, ou como Alice (1990), de Woody Allen, Uma História de Violência (2005), de David Cronenberg, em que viria a ser nomeado para melhor secundário, A.I. Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg, Robin Wood (2010), de Ridley Scott e muitos outros, alguns do universo Marvel. Outro imprescindível que partiu.
Até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa
 
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