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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXV

Bocas do Galinheiro De volta a Odessa

19-04-2022

No passado dia 24 de Fevereiro chocámos de frente contra uma invasão brutal e uma guerra cobarde. A Rússia de Putin (que enquanto agente do KGB se entretinha a envenenar adversários do regime, tique que ainda não perdeu, em vez de frequentar aulas de História, criou uma alternativa), invadiu a Ucrânia para, segundo a criatura, agora novel historiador, desnazificar o território que sempre foi russo desde tempos imemoriais, não tendo personalidade nem História próprias. Neste delírio, de reerguer a antiga URSS, depois da Geórgia, da Abecássia, da Ossétia do Sul, para não falar da Chechénia e do seu cão de fila Kadyrov, dos separatistas russos de Lugansk e Donetsk (a guerra, a bem dizer dura desde 2014) e da invasão da Crimeia, arriscou avançar pelo resto da Ucrânia. Mas, em vez de beijos e abraços dos saudosistas do Império dos czares e/ou da União Soviética, foi recebido a ferro e fogo, já com milhares de baixas entre a sua tropa. Não, a culpa da invasão não é dos Estados Unidos, nem da NATO nem da União Europeia. É de Putin e dos cleptocratas que o rodeiam e que ele ajudou a empanturrar, sem também ter enchido o bornal.
Por esse mundo fora, como por cá, há gente que defende a tese de que a NATO cercou a Rússia, dizem. Mas os países do antigo Pacto de Varsóvia preferiram juntar-se ao ocidente e afastar-se da Rússia porquê? Exactamente por esta razão: o receio de que fossem alvo do apetite insaciável de Putin e se vissem na situação em que a Ucrânia está. Ora estes defensores das amplas liberdades (da URSS?), da democracia (a que começa com a ditadura do proletariado para chegar ao comunismo?) e, já agora, da Constituição, colocam-se ao lado do oligarca mor de um regime corrupto, sanguinário e que não olha a meios para sobreviver sob o pretexto mitológico de restabelecer uma Rússia imperial e que, sabe-se, irá até onde o deixarem.
Pelos vistos o objectivo final é agora conquistar o território que vai de Donetsk à Crimeia e fechar o acesso da Ucrânia ao mar. A seguir está a cidade de Odessa, mais propriamente a sua escadaria (com a sequência do massacre dos civis pelos cossacos a ser recriada em contextos diferentes em vários filmes), que protagonizou um dos filmes seminais da História do cinema, “O Couraçado Potemkine”, 1925, de Sergei M. Eisenstein, com o qual o regime pretendeu assinalar o jubileu da insurreição de 1905, numa altura em que o cinema soviético, a partir da Revolução de Outubro de 1917, era um dos movimentos cinematográficos mais inovadores. Acontece que vários cineastas da então União Soviética eram ucranianos, uma vez que o seu país era uma das repúblicas da URSS. Um dos mais importantes, é sem dúvida Alexander Dovzhenko. Depois de se impor com “Zvenigora”, 1927 e “Arsenal”, de 1929, a sua importância é consolidada com outro filme de referência desta cinematografia, “A Terra” de 1930, que constituem a “Trilogia da Ucrânia” e, sem perder de vista a doutrina soviética, o director abordou de uma forma modernista os usos e tradições ucranianos, o que nem sempre agradou aos censores do regime.
Mas, na actualidade o cinema ucraniano também se tem vindo a impor pela mão de um grupo consistente de realizadores, nomeadamente no filme documentário, de que podemos referir o jovem cineasta Nikon Romanchenko, que com “Indisponível”, de 2018, uma curta metragem que aborda o tema da guerra, pela odisseia de uma mãe, operária numa fábrica de doces, na busca do filho que julgava morto em combate numa das frentes abertas pelas invasões russas, ou “Esquecido” dirigido por Daria Onyschenko, outra jovem realizadora ucraniana, enquadrado por uma história de amor entre uma professora e um jovem que desafia os ocupantes, na altura da ocupação, por separatistas pró-russos, da cidade de Lugansk.
História de resistência é a do realizador Oleh Sentsov, que se opôs à invasão da Crimeia e foi preso e enviado para Moscovo onde foi condenado por terrorismo, num julgamento à velha/nova moda da União Soviética, tendo sido libertado sete anos depois e de uma greve de fome de quase dois meses. Voltou à Ucrânia onde continuou a filmar. No actual momento do conflito, o cineasta Valentyn Vasyanovych autor de “Vidblysk”, de 2021, sobre o rapto de um médico ucraniano pelas forças russas no leste do país, foi para a rua com a sua câmara e filma o conflito e respectivos efeitos. Um regresso ao Kino Glaz (cinema olho) de que é exemplo o feito por Dziga Vertov, ou seja, captar a vida como ela é, neste caso a guerra.
Outras filmografias poderiam aqui ser lembradas, como a da realizadora Larisa Shepitko, desaparecida em 1979, num acidente, cujo primeiro filme “Asas”, de 1966, que conta a história de Nadezhna Petrovna, uma ex-piloto de caças na II Guerra Mundial, e da sua dificuldade em se adaptar à vida civil, foi duramente criticado pelo regime por ter revelado a face humana de uma heroína soviética.
Sem esperança de que o fim desta guerra aconteça a curto prazo, até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

 
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