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BOCAS DO GALINHEIRO Óscares 2021: on the road again 24-05-2021

No ano passado comentámos aqui a cerimónia dos Óscares e a vitória desse fantástico outsider, “Os Parasitas”, filme coreano realizado por Bong Joon-ho, que arrebatou não só a nova denominação de Melhor Filme Internacional (até então melhor filme em língua estrangeira), bem como o Óscar de Melhor Filme, a que se somam os prémios para o Melhor Realizador e de Melhor Argumento Original, para Bong Joon-ho e Han Jin Wan, relegando para segundo plano o super favorito “1917”, de Sam Mendes.
Este ano, por força da pandemia instalada, a glamorosa cerimónia resumiu-se a uma espécie de café-concerto, no Dolby Theater, com alguns dos nomeados instalados com as devidas medidas de protecção, enquanto os restantes se espalharam pelos vários cantos do mundo, esperando que a sorte lhes tocasse para as intervenções de agradecimento. Noutro ano de viragem, esta vez claramente assumida a faceta antidiscriminatória e de diversidade, há muito exigida à academia, tivemos uma lista abrangente de nomeados, o que não era usual por aquelas bandas.
Assim, não estranha, desse ponto de vista, a consagração de uma mulher, Chloé Zhao, a primeira chinesa e a segunda mulher a arrebatar o prémio de Melhor Realização (a anterior vencedora foi Kathryn Bigelow por “Estado de Guerra” em 2008), o mesmo tempo que a fita que dirigiu “Nomadland – Sobreviver na América”, foi sem muita surpresa considerado o Melhor Filme. Um road movie na esteia de uma tradição norte americana de explorar a chamada “América profunda”, aqui a transformação forçada de uma mulher que após a morte do marido e o encerramento da empresa onde trabalha se vê obrigada a entrar no círculo dos novos nómadas em terras de Tio Sam, grupos de desempregados que se transportam em autocaravanas num circuito de procura de empregos precários por todo o país, fazendo disso uma forma de vida que alguns já não conseguem abandonar, havendo até um guru que tutoreia quem chega de novo e “abraça” esta diferente forma de vida (Bob Wells), na linha de outros famosos filmes do género, que vão de “As Vinha da Ira”, de John Ford, a “Easy Rider”, de Dennis Hopper, passando por “Thelma e Louise”, de Ridley Scott, entre dezenas de outros. Não estranhou, pois, que uma actriz com a dimensão de Frances McDormand tenha sido a eleita para levar para casa a estatueta de Melhor Actriz, pela sua excepcional interpretação daquela mulher, Fern, bem acompanhada por um naipe destes verdadeiros nómadas, que vão passando pelo filme, incluindo Bob Wells.
Das restantes fitas nomeadas, destacaria aqui as que já vi, desde logo “Mank”, de David Fincher, que acompanha Herman Mankiewicz, aquando da elaboração do argumento de “Citizen Kaine” a aclamadíssima obra de Orson Wells, de que se especula ter sido o único autor, mas isso é outra história. Com 10 nomeações, para melhor filme, melhor realização e actor principal, Gary Oldman e actriz secundária, Amanda Seyfried, levou duas estatuetas em categorias “menores”. A meu ver merecia mais. Diversidade obliges. Já “Os 7 de Chicago”, que conta a história do julgamento de activistas anti-guerra do Vietname, de Aaron Sorkin, que se tem evidenciado mais como argumentista, com seis nomeações saiu de mãos a abanar, apesar da direcção segura de Sorkin e de um potente argumento. Quanto a “Uma Miúda com Potencial”, de Emerald Fennell, com cinco nomeações, onde se incluíam para melhor filme, melhor actriz, Carey Mulligan, e melhor argumento original, arrebatou esta última, da autoria da realizadora.
Quanto às restantes categorias, houve uma certa normalidade na atribuição do Óscar de Melhor Actor a Anthony Hopkins pela sua interpretação em “O Pai”, de Florian Zeller, baseado na peça teatral do mesmo, conta-nos a evolução e os efeitos da demência que no próprio que na família. Nesta categoria o favorito era o já falecido Chadwick Boseman (28 de Agosto de 2020), pela sua interpretação de um ambicioso e atormentado trompetista em “Ma Rainey: A Mãe do Blues”, de George C. Wolfe. Ainda não vi o filme de Zeller, mas a actuação de Boseman é soberba. Nos secundários imperou, como era previsível, a diversidade e Yuh-Jung Youn em “Minari” de Lee Isaac Chung, sobre a saga de uma família de imigrantes coreanos para singrar no Arkansas nos anos 80 do século passado, e Daniel Kaluuya em “Judas e o Messias Negro”, de Shaka King, que aborda o assassinato pela polícia do líder dos Panteras Negras, Fred Hampton, em 1969. Curiosamente também Lakeith Stanfield, no papel de Bill O’Neal, o informador que “vendeu” Hampton ao FBI, foi nomeado para o mesmo galardão neste filme! Por seu lado ambos filmes estavam também na corrida para o Óscar, a que se juntava, “O Som do Metal”, de Darius Marder, sobre um baterista de metal que começa a perder a audição e a dificuldade em aceitar esta nova realidade, Riz Ahmed, também nomeado para melhor actor. O filme levou a estatueta para Melhor Som. Por seu lado “Mais uma Rodada”, de Thomas Vinterberg (Dinamarca) ficou com o Óscar de Melhor Filme Internacional, categoria em que Portugal, pela enésima vez não conseguiu qualquer nomeação. Esteve perto, com “Listen”, de Ana Rocha de Sousa, só que a língua maioritária no filme é o inglês e não o português. Foi pena. Destaque ainda para “Soul – Uma Aventura com Alma”, Melhor Filme de Animação e Melhor Banda Sonora Original.
E assim foram os Óscares em ano de pandemia, com muitos filmes a estrearem nas plataformas de streaming, o que, não foi bom para as salas, que, entretanto, voltaram a abrir portas.

Até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

 
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