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Bocas do galinheiro Bertrand Tavernier 26-04-2021

No rico panorama do cinema francês há um realizador que me marcou, não só pela sua qualidade como realizador, mas também como cinéfilo, crítico e historiador. A sua magnífica obra “50 ans de cinéma américain”, escrita com Jean-Pierre Coursodon, tem-me acompanhado nos últimos anos, bem como o documentário “Uma viagem pelo cinema francês com Bertrand Tavernier”, de 2016, a sua última obra, na qual, ao longo de mais de três horas, nos os leva numa viagem pelo cinema do seu país, dos filmes que marcaram o seu crescimento, que o marcaram enquanto crítico e que de algum modo influenciaram a sua carreira como realizador, uma visita guiada por filmes e cineastas de que também temos boas recordações.
Bertand Tavernier morreu no passado dia 25 de Março.
Já aqui escrevemos que o cinema tardou a acordar para o jazz e que foi Bertrand Tavernier com “À Volta da Meia-Noite” (Round Midnight, 1986) que nos deu o verdadeiro filme sobre jazz. Uma obra que significou o salto, dos filmes com Jazz para os filmes sobre Jazz. O título, só por si, um tema de Thelonious Monk, emana jazz por todos os poros. Para mim, este é o meu filme de Tavernier. Ainda me lembro de no já longínquo ano de 1987 ter saído de Castelo Branco com o Luís Pio e o Joaquim Cabeças, além de dois amigos, dois grandes, mas muito grandes amadores de Jazz, para irmos assistir, juntamente com o José Duarte, a uma sessão especial desta fita no Quarteto.
Inspirado no livro de Francis Paudras “La Dance des Infidèles”, sobre a vivência do autor com o pianista Bud Powell, o seu “Deus”, Tavernier, ele próprio um apaixonado pelo Jazz, constrói uma história toda ela sobre Jazz, com música Jazz, cuja lista é brilhante, numa banda sonora de Herbie Hancock que, tal como os restantes músicos, Billy Higgins na bateria, Ron Carter no contrabaixo, John Mclaughlin na guitarra e Wayne Shorter no saxofone, entre outros tocam em directo no filme. Um regalo para a vista e para os ouvidos.
A personagem principal, Dale Turner, uma simbiose de Bud Powell e Lester Young, duas lendas da música negra, é interpretada pelo grande saxofonista Dexter Gordon que se revela aqui, principalmente pelo grande à vontade que exibiu e pela forma magistral como domina o filme, um excelente actor, ao ponto de ser nomeado para o Oscar. É obra!
Tavernier tentou, e conseguiu, dar-nos um retrato fiel do que foi a vivência dos músicos norte americanos na Europa do pós-guerra, principalmente em França, onde eram recebidos como eram, músicos, muitos deles de alta craveira, sem as barreiras segregacionistas que enfrentavam no seu país natal. Aliás, as incursões do realizador no mundo da música não se quedaram por aqui pois no âmbito do documentário, género que lhe era também muito querido, rodou, entre outros, “Mississippi blues” (1983), sobre as tradições musicais do Sul dos Estados Unidos.
Nascido a 25 de Abril de 1941, Tavernier inicia-se no cinema pela mão de Jean Pierre Melville, desempenhando funções de publicitário, bem como com Godard, em “O Desprezo”, de 1963, vindo a assinar a sua primeira longa metragem “O Relojoeiro” em 1974, com Philippe Noiret, sobre um relojoeiro que descobre que o filho é um assassino, adaptação de um policial de Georges Simenon, seguindo-se uma longa lista de que se destacam “A Morte em Directo”, de 1980, com Romy Schneider, Harvey Keitel e Harry Dean Stanton, uma feroz crítica aos reality shows, hoje mais em voga do que então em que um indivíduo, Keitel, tem uma cãmara implantada e filma o dia a dia de uma mulher que está a morrer, Romy Schneider, para o programa “Death Watch”, algures numa televisão perto de si, ou “Um domingo no campo” (1984), prémio de melhor realizador no Festival de Cannes.
Nos seus últimos filmes as suas preocupações sociais vieram mais ao de cima, o que é notório em “Ça commence aujourd’hui” (1999), em que a crise e o desemprego e a inevitável miséria e decadência social aparecem, no caso concreto na sequência do encerramento minas de carvão numa comunidade do interior, cujo director do jardim de infância tenta minorar os problemas que assolam os pais das crianças, ou o mais recente “Palácio das Necessidades”, de 2013, “Quai d´Orsay”, no original, onde e situa o Ministério dos Negócios Estrangeiros de França, uma comédia cáustica sobre os bastidores e respectivos jogos, no mundo da diplomacia.
Um herdeiro da Nouvelle Vague que nos deixou e que marcou, nas suas várias facetas, o cinema francês.
Até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

 
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