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BOCAS DO GALINHEIRO Saramago por Botelho

23-10-2020

À hora de fecho da presente edição, ainda não passou no Cine Teatro “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, adaptação de João Botelho do romance homónimo de José Saramago publicado em 1984 (Foi exibido na passada segunda-feira, 19 de Outubro). É já um lugar dizer que a adaptação de grandes obras da literatura, não só portuguesas, é marcante na filmografia do realizador. Com efeito, desde “Tempos Difíceis”, de 1988, situando num subúrbio industrial português, Poço do Mundo, o enredo da novela “Hard Times” de Charles Dickens, que Botelho vem seguindo este caminho. Nomes maiores das letras portuguesas passaram pela lente deste que é um nome incontornável do cinema português. Mas já lá vamos. 

Nascido a 11 de Maio de 1949 em Lamego, João Botelho ingressou em 1974 na Escola de Cinema do Conservatório Nacional, tendo-se iniciado na realização em 1976 com a média metragem “Um Projecto de Educação Popular”, em co-autoria com Jorge Alves da Silva, dupla que dirige outra MM, “O Alto do Cobre” e uma curta “Alexandre e Rosa”, em 1978. Em 1981 realiza a sua primeira longa-metragem, “Conversa Acabada”, uma visão da amizade e da troca de correspondência entre Fernando pessoa e Mário de Sá-Carneiro, um filme que se destaca pelas opções estéticas e gráficas que se irão repetir nas suas obras seguintes, mesmo as mais recentes, apoiadas muitas vezes em décors pintados à mão. Mas é com “Um Adeus Português” (1986), o primeiro filme de ficção a abordar o tema da guerra colonial, que Botelho se afirma.

A sua relação com grandes autores portugueses começa com a adaptação da peça “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett em “Quem És Tu?”, de 2001, sobre o imaginário maior da nossa História, o sebastianismo, e tudo o que representou para o futuro de Portugal, que Botelho tem confrontado nas suas fitas.

“A Corte do Norte” (2009), apesar de não ser uma ideia original do realizador, José Álvaro Morais, entretanto falecido, não pode realizar o filme, é uma quase fiel adaptação do romance de Agustina Bessa-Luís, autora que já vira “Vale Abraão” e “Fanny Owen” na tela pela mão de Manoel de Oliveira, por quem João Botelho sempre nutriu uma grande admiração, e que evoca em “O Cinema de Manoel de Oliveira e Eu” em 2016. Agarrou este prpojecto a pedido de António da Cunha Telles, sem deixar de lhe imprimir um toque pessoal, mas seguindo o rumo da escritora que retrata várias épocas e gerações da Madeira, pela vida de cinco mulheres, curiosamente todas interpretadas por Ana Moreira.

Fernando Pessoa, que já inspirara “Conversa Acabada”, seguiu-se na passagem para cinema de uma obra do escritor, ou melhor, de Bernardo Soares, “Livro do Desassossego”, que desde a sua primeira publicação tem conhecido diversas transcrições, e que pelo seu carácter fragmentário significaria logo que a passagem para a tela seria empreitada impossível. João Botelho dá-lhe a volta em “Filme do Desassossego” (2010), um filme que admite todas as combinações/interpretações. Em 2014 estreou “Os Mais – Cenas da Vida Romântica”, adaptação da obra de Eça de Queiroz.

Mais uma vez o realizador consegue transpor o espírito do romance para a tela, num estilo muito literário, se calhar demasiado, mas estamos não estamos a falar de um livro qualquer, é intemporal, de que resulta mais um reencontro conseguido com a nossa literatura.

Depois foi à aventura com “Peregrinação” (2017), de Fernão Mendes Pinto, para agora nos trazer este “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, onde Saramago “fez regressar o heterónimo de Pessoa, Ricardo Reis, a Portugal, ao fim de 16 anos de exílio no Brasil. 1936 é o ano de todos os perigos, do fascismo de Mussolini, do Nazismo de Hitler, da terrível guerra civil espanhola e do Estado Novo em Portugal, de Salazar.

Fernando Pessoa, o criador, encontra Ricardo Reis, a criatura. Duas mulheres, Lídia e Marcenda são as paixões carnais e impossíveis de Ricardo Reis”, pode ler-se na sinopse do filme. Nas conversas entre os dois, a poesia, claro, está sempre presente, com interpretações do brasileiro Chico Diaz (Ricardo Reis), de Luís Lima Barreto (Fernando Pessoa) e de Catarina Wallenstein, que é Lídia, criada do Hotel Bragança, onde Ricardo Reis se hospeda quando chega a Lisboa e Victoria Guerra, Marcenda, uma jovem hospedada no mesmo hotel. Uma reconstrução da época, até pelo preto e branco do filme. Quando sair este texto já vi o filme, mas agora só posso transcrever algumas notas de imprensa.

Em jeito de conclusão, lembrar que José Saramago já passou ao cinema com “A jangada de Pedra” (La balsa de piedra, 2002), de George Sluizer,  “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, 2008),  de Fernando Meirelles, e “O Homem Duplicado” (Enemy, 2013) de Denis Villeneuve, os dois últimos com percurso assinalável. A ver o que nos diz João Botelho.

Até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

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