O Politécnico de Setúbal (IPS) tem patente, até 30 de abril, a exposição “Proibido por inconveniente – Materiais da censura do Arquivo Ephemera”. A mostra, inaugurada dia 26 de março, pelo historiador José Pacheco Pereira, apresenta um conjunto inédito de materiais dedicado à compreensão histórica e crítica da censura em Portugal durante o Estado Novo.
Na ocasião, Pacheco Pereira sublinhou a importância histórica deste espólio e a sua “clara intenção pedagógica”, não só junto da comunidade estudantil, mas também da população em geral.
O historiador revela que "este núcleo expositivo integra um espólio mais vasto que é provavelmente semelhante, no valor e na dimensão, àquele que existe na Torre do Tombo, sendo em muitos aspetos até mais relevante, porque encontramos aqui os despachos dos livros censurados mais conhecidos. São disso exemplos a 'Aparição', de Vergílio Ferreira, ou as 'Novas Cartas Portuguesas', de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, este último proibido por ofensa aos costumes e à moral do país e bem paradigmático da repressão particular que se exercia sobre as mulheres que ousavam escapar à casa e ao lar”.
Em nota enviada à nossa redação, o IPS explica que a exposição resulta de uma parceria entre o Arquivo Ephemera e as Bibliotecas do IPS e "evidencia como a censura moldou a informação disponibilizada às populações nos tempos da ditadura. O conjunto apresenta sobretudo exemplos da censura oficial exercida sobre jornais e livros, mas dá também a conhecer o controlo exercido noutros meios, como cinema, rádio e música, permitindo um retrato abrangente dos mecanismos que limitaram, durante décadas, a liberdade de expressão".
Pacheco Pereira considera que “a exposição deve ser vista pelo maior número de pessoas. É uma exposição para ler. Através destes documentos, é possível aprender muito sobre aquilo que nós, durante 48 anos, não podíamos saber. E perceber também porque é que a censura é a instituição do Estado Novo que mais perdurou até hoje, moldando mais do que uma geração de portugueses”.
Como primeiro grito de alívio e explosão de alegria, pode ver-se, entre os materiais expostos, o primeiro número de um jornal publicado em liberdade, o “República”, que sai para as bancas na tarde de 25 de abril de 1974 com a referência, em destaque na primeira página, “Este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura”.
Além da dimensão repressiva, para Pacheco Pereira fica também evidente neste núcleo a vertente propagandística da censura, ao promover um país idealizado, sem sombra de corrupção, convenientemente despolitizado e sem participação cívica, e onde reinava o “respeitinho” pelos costumes e moral vigentes. “O que temos aqui mostra a outra realidade do País, aquilo que os portugueses não tiveram, durante décadas, autorização para ver e saber, incluindo muitos casos de corrupção que percorriam o país de norte a sul, contrariando algumas narrativas atuais sobre um país de respeito pelas leis durante a ditadura”.
Na inauguração, Rodrigo Lourenço, vice-presidente para o Ensino e Aprendizagem, lembrou que a exposição não só permite “reforçar a componente cultural, cada vez mais essencial na formação dos nossos estudantes”, mas também “fomenta a discussão sobre as democracias, numa reflexão sobre o caminho que hoje levamos”.
Enquanto anfitrião, o diretor da ESE/IPS, João Pires, salientou por seu turno o simbolismo deste edifício, projetado pelo arquiteto Siza Vieira, enquanto espaço de acolhimento: “Para uma exposição que aborda o antes do 25 de Abril, nada melhor do que um espaço que nasce e cresce a partir do conceito de democracia e que privilegia as liberdades desde a sua génese”.
A mostra, aberta ao público em geral, ficará patente até 30 de abril, podendo ser visitada nos dias úteis, entre as 08h00 e as 22h30, e aos sábados, entre as 08h00 e as 18h00.