Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pelo nosso website. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.

Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Opinião A história continua a ser escrita

Assinalamos, nesta edição, 27 anos de vida. Uma história que testemunhámos, registámos e que acompanhou a evolução da educação, do ensino superior, da investigação e da internacionalização das instituições.
Estas quase três décadas têm sido um período fértil em alterações, com o crescimento das existentes, novas ou refundadas universidades e a afirmação do subsistema politécnico - do bacharelato, passou a ministrar licenciaturas bietápicas, licenciaturas, mestrados e, agora, doutoramentos; o aparecimento do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES), agora em revisão; a implementação de Bolonha – mudou o paradigma da formação, com as licenciaturas a passarem a ter três anos de duração, com métricas assentes em créditos, ficando por cumprir a possibilidade da escolha de percursos (disciplinas) por parte dos alunos; a maturação do programa Erasmus - permitiu que milhares e estudantes, mas também docentes e técnicos façam mobilidade noutras instituições de ensino superior da Europa; ou a criação das universidades europeias, robustos consórcios de IES que criam campus com centenas de milhares de estudantes, docentes e funcionários, garantindo mobilidade, criação de cursos de dupla titulação, projetos de investigação, captação de fundos comunitários, etc.
Quando em fevereiro de 1998 lançámos o número zero da nossa publicação, Portugal preparava-se para a Expo 98 - a exposição universal a que nos associámos -, o número de candidatos ao ensino superior era maior do que as vagas disponíveis. A reforma de Veiga Simão, ministro que no Estado Novo, lutou contra todo um Conselho de Ministros e convenceu Marcelo Caetano a mudar o paradigma da educação e da formação superior em Portugal, resultou na criação de uma rede de instituições de ensino superior, que já no período democrático se veio a revelar única e robusta. Uma rede que foi crescendo e que garante o acesso democrático ao saber a todos os cidadãos, estejam eles no interior ou no litoral, sejam pobres ou abonados, tenham ou não necessidades educativas especiais.
Nestes 27 anos, o Ensino Magazine testemunhou toda uma dinâmica política e no terreno. Neste período nem sempre a rede teve o carinho necessário por parte da tutela (a questão do subfinanciamento por parte do Estado continua a criar dificuldades às IES - as verbas que recebem não são suficientes para os vencimentos). Em diferentes períodos houve a tentação de a reduzir, com argumentos económicos, ideológicos e corporativos. Também políticos, necessariamente. E não foi só durante a presença da Troika, no período de resgate económico, que isso aconteceu.
A presença das universidades e politécnicos, do ensino privado e cooperativo, em todo o país, constitui o principal trunfo de Portugal para a qualificação das suas gentes e para nos tornarmos competitivos. A rede, já o afirmei por inúmeras vezes, é o principal instrumento de coesão territorial e social do país e, em circunstância alguma, deve ser colocada em causa - reduzir significa perder. No passado, noutras áreas como a segurança (encerramento de postos da GNR, PSP ou quartéis militares) ou a comunicação (fecho dos postos dos CTT) acentuou a quebra demográfica no interior do país. Não fossem as IES e Portugal estava ainda mais inclinado, sem equidade.
Olhamos para história e registámos uma pandemia. Sim, uma pandemia como aquelas que só aparecem nos filmes. Também aqui a rede de ensino superior foi decisiva, na investigação, na elaboração de análises, no acolhimento, nas suas residências, de quem estava doente. A escola – do básico ao superior – teve que ir para o ensino a distância. Criaram-se novas dinâmicas. Muitas ficaram. Outras não, mas deveriam ter ficado. O Ensino Magazine reinventou-se nesse período. Reforçámos o nosso canal televisivo, com entrevistas em direto. Promovemos, através de profissionais, sessões de exercício físico em casa, com planos de treino divulgados em vídeo. Demos alento e mantivemos o rigor informativo.
Veio o Plano de Recuperação e Resiliência e o país até 2026 procura aproveitar os fundos, a várias velocidades. Registámos, a este propósito, as dificuldades de entendimento entre o poder político local e as cúpulas das universidades ou politécnicos. Estão em curso projetos ambiciosos, outros de mera cosmética, mas temo que a falta de visão e de conjugação de esforços nos tenham levado a não aproveitar melhor esta oportunidade. E agora o dinheiro não utilizado regressa à Europa que dele precisa para fortalecer o sistema de segurança dos estados membros – a guerra na Ucrânia e a chegada de Donald Trump à Casa Branca colocaram a nu as nossas debilidades.
27 anos depois mantemo-nos firmes no objetivo de informar, de ligar as academias entre si e com a sociedade, de ser uma voz ativa na defesa do acesso democrático ao saber, de termos um papel importante no registo da história, não só através das páginas da nossa publicação e do nosso portal, mas também pela edição literária publicada que reúne pensamentos e estratégias de diferentes personalidades.
Que venham mais 27 e que o país saiba preservar e fomentar a rede de ensino superior existente. Aos nossos leitores, parceiros e colaboradores, o meu bem-haja. Continuaremos juntos.

João Carrega
carrega@rvj.pt