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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Opinião Turbulências digitais em tempos de confinamento

A necessidade de encerrar os estabelecimentos de ensino obrigou alunos, pais e educadores a alterações de hábitos e modos de vida: foi necessário reacomodar o núcleo familiar de molde a permitir aos jovens estudar em casa e aos membros do agregado desenvolver o seu trabalho profissional a distância, mantendo a organização da vida dentro de uma normalidade aceitável.
Os media realizaram reportagens onde deram a conhecer rostos, problemas, casos de solução difícil. O país recordou as promessas do “Plano para a Digitalização das Escolas” anunciado em 2020 com pompa e circunstância mas com visibilidade escassa. Houve, é certo, algumas “ilhas” em que experiências bem sucedidas demonstraram a exequibilidade da integração de sistemas digitais nos espaços familiares e escolares, mas as boas experiências realizadas nunca criaram os istmos necessários para se interligar e reforçar conhecimentos, experiências feitas, avaliadas e partilhadas.
Recriou-se uma vez mais, a telescola, o velho sistema televisivo que há muitas décadas foi novidade, ora intitulado “#estudo em casa”. Recorre a emissões televisivas da rede pública, mantém horários e aulas que funcionam como se fossem presenciais. É uma solução do passado que funciona, pese embora a ausência de sistemas interativos que valorizem a relação direta entre docente e discente. Todavia, as debilidades económicas e os problemas sociais e humanos do tecido social português aconselharam a adoção do #estudo em casa pelo que a TV foi o recurso possível para manter alunos e professores num sistema de aulas síncronas.
O crescimento rápido da segunda fase da pandemia obrigou à adoção de soluções de emergência e as famílias com recursos económicos optaram pela aquisição e utilização de sistemas digitais. Prometeram-se máquinas, programas e largura de banda suficiente para manter em funcionamento a “escola digital”, mas a promessa oficial aguarda concretização.
A Internet de última geração, que permite conexões essenciais ao funcionamento do sistema, também tem agregada a promessa de ligações gratuitas com um sistema de conexões robustas. Convém neste contexto recordar que em experiências anteriores sempre que se disponibilizaram larguras medíocres de banda, estas dificultam, ou inviabilizam o trabalho individual e coletivo. Na segunda década do século XXI já ninguém aceita a metáfora de que a largura de banda da Net é como uma tarte cujas fatias são cortadas em função do número de utentes que dela se servem.
O plano para a digitalização das escolas não se limita à montagem e distribuição de um conjunto de dispositivos informáticos robustos. O essencial do projeto reside no conjunto de saberes estruturados em modo interativo a que todos podem aceder, discutir, comentar. O acesso universal e gratuito aos conteúdos é suportado por servidores organizados “em nuvem”. É essencial que conceitos, exercícios, áreas de dúvidas e troca de experiências “habitem” os servidores do ministério e das escolas. Dessa forma se reforçam as sessões de formação para docentes organizadas em função das respetivas áreas de especialidade. Quando nem tudo decorre como previsto, eis criadas as condições para que os novos velhos do Restelo se ergam para antever outros cabos das tormentas impeditivos da presença dos sistemas digitais de ensino nas escolas. Os adamastores do nosso descontentamento que na noite de breu da ignorância se erguem a voar mais não são que guardadores de medos e interesses inconfessáveis.
Vencer miragens e caminhar para lá da Boa Esperança é o sinal inequívoco que os melhores professores já demonstraram ao frequentar cursos de formação acreditada. Na área do desenvolvimento de conteúdos cada docente pode adquirir e consolidar conhecimentos e competências da sua especialidade com o objetivo de estruturar um robusto contentor pessoal de saberes para adaptar e atualizar em função dos grupos etários com quem vai interagir.
A integração de processos e procedimentos digitais no sistema escolar reforça uma certeza: a escola presencial é o melhor lugar para aprender, conviver e crescer nas dimensões escolares, sociais e humanas. A presencialidade, a convivialidade entre alunos e professores são as suas maiores virtudes e se estas forem reforçadas pela integração supletiva de sistemas digitais, os conhecimentos e as competências das jovens gerações de portugueses vão contribuir para o crescimento individual e coletivo de Portugal.

Carlos Correia
Professor Universitário