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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Opinião Por uma escola de valores

Com o início de mais um ano escolar recomeçam as rotinas académicas, os desafios da aprendizagem, os roteiros da camaradagem, a construção de percursos de vida.
Porém, as escolas e as comunidades em que estas estão inseridas são instituições complexas que comportam grandes sonhos, mas também muitos desencantos.
Ao rigor e exigência que se pretende imprimir nos diferentes ciclos de formação e ao estimulante ambiente escolar que os docentes aí imprimem, juntam-se, algumas vezes, infelizes práticas, que os currículos ocultos motivam, e que as famílias, infelizmente, não ajudam a atenuar.
E, nestas matérias, não vale a pena utilizar o agastado e hipócrita argumento de crítica ao papel e desempenho social das novas gerações, sobretudo quando as tentam comparar com as gerações que as precederam. Por maioria de razões, mais vale interrogar o resultado educativo da acção da nossa geração que conduziu ao desencanto de muitos jovens que só queriam ter o mesmo direito à partilha de um pedaço da felicidade que nos coube.
O mal não são os outros, somos nós. Partilhámos o sonho e a utopia, desejámos construir um homem novo, uma sociedade mais justa e igualitária, até fizemos (dizemos) uma revolução. E, pelo caminho, fomos semeando, entre as nossas contradições e desilusões, a semente da anomia, da não participação na construção do caminho comum, do desinteresse social por uma comunidade que, afinal, não revelou interesse e, por vezes, nem lhes interessa.
Conhecemos o perigo das generalizações precipitadas. Mas vale a pena o esforço de reflexão e de diálogo que nos interrogue sobre o nosso papel de educadores e sobre a relação e o conhecimento que temos das gerações que estamos a formar. Sobre os valores que lhes transmitimos, mesmo quando negamos a transmissão desses valores. Sobre as condutas que observamos, com olhar distanciado. Sobre a barreira de afectividade que a ciência e o ensino dessa ciência construíram entre uns e os outros.
Se reconhecermos que nas escolas, professores e alunos se encontram numa parceria de mútuas aprendizagens, então temos também que admitir que é dentro das dessas instituições que se devem centrar os nossos esforços e as nossas vontades de construirmos o tal homem novo, não na modelagem do que somos, ou do que desejaríamos ter sido, mas antes à imagem e semelhança daqueles que estão em condições de o poder vir a ser.
É um esforço de renovação, mas também um imperativo da razão que nos recoloca o problema do desenvolvimento pessoal e profissional dos docentes, preocupações que devem conduzir ao encorajamento de uma busca constante de inovação, quer nos curricula, quer nos métodos de ensino, quer no conhecimento e reforço dos processos de aprendizagem.
Numa sociedade que tende a universalizar-se, num mercado assumidamente global, seria indesculpável se as nossas escolas ficassem prisioneiras de ritos e ritmos que mais lembram tempos de indiferença, do que as novas eras de mentes abertas que procuram permanentemente a inovação e a renovação pedagógica.

João Ruivo
ruivo@rvj.pt

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico