Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pelo nosso website. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.

Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Opinião Os GAFA e as pragas de gafanhotos

As empresas norte-americanas Google, Apple, Facebook e Amazon são as multinacionais mais poderosas do planeta. O crescimento dos seus negócios é diretamente proporcional à capacidade de orientar com maestria os lucros gerados de molde a não pagar impostos nos territórios onde ganham dinheiro. Assentam arraiais fiscais em países com exigências “amigáveis”, ou em paraísos fiscais. O seu imenso poder económico-financeiro é ainda reforçado pela aquisição de empresas jovens com soluções originais e lucrativas, que acabam dissolvidas na dinâmica interna dos gigantes tecnológicos.
O acrónimo GAFA - Google, Apple, Facebook e Amazon - popularizou-se nos media quando os governos dos 27 países da União Europeia e dos Estados Unidos manifestaram a intenção de legislar no sentido de repor alguma justiça tributária no faroeste digital.  É evidente que a concretização dessa intenção não será de adoção automática, ou fácil. Os “lobbies” políticos e os melhores escritórios de advogados estão preparados para lutas titânicas com o objetivo de anular, ou minorar, os “prejuízos” de clientes poderosos, habituados a vencer outros combates difíceis como, por exemplo, a “guerra da atenção”.
Herbert Simon, economista norte-americano laureado com o prémio Nobel em 1978, aprofundou o estudo da economia da atenção para sublinhar a importância tanto do relacionamento, como da relevância, fatores essenciais para que uma marca, ou produto se destaquem da concorrência. De facto, a atenção que cada pessoa presta aos múltiplos estímulos com que a publicidade ataca é um bem finito e o primeiro objetivo deste tipo de economia é manter a capacidade máxima de concentração que num dado momento se presta a um dado produto.

Sucede que a atenção é um recurso muito escasso, super disputado seja nas redes sociais, ou noutras formas de publicidade. Os GAFA não só ganharam múltiplas batalhas desta guerra, como deram origem a novos exércitos, verdadeira praga de gafanhotos que enxameiam os media nacionais e internacionais tentando por todos os meios prender a atenção de quem navega na Internet.
As pragas enxameiam a world wide web e geram sofisticadas teias para aprisionar, por exemplo, leitores interessados nas notícias dos media. Um dos processos mais recentes é o seguinte: cada título ou lead informativo possui um “clickbait” para despertar a atenção do leitor. Se o interessado clicar num artigo, vídeo ou podcast pode não aceder imediatamente ao conteúdo. É confrontado com o acesso barrado por uma aplicação que começa por informar “Damos valor à sua privacidade”. Nas linhas subsequentes informa o leitor que caso clique em “concordo” lê a notícias e permite a instalação de “cookies”. A opção proposta assume três modalidades: aceitação automática, concordância com reservas, ou rejeição total. Habituada “a assinar de cruz” muita gente aceita sem pensar nas consequências. Trata-se de um gesto automático, similar àquele que alguns fazem sobre contratos de seguradoras e outros operadores do mercado, cujos tamanhos de letra não são obra do acaso, nem pura coincidência. No caso vertente, a maioria ignora as consequências da sua concordância e nem imagina que os cookies são “bolinhos” feitos com linhas de código preparadas para a devassa do perfil do utilizador.
Com que intenções?
Vender os dados individuais a empresas publicitárias e demais entidades interessadas em conhecer as múltiplas dimensões do perfil de quem “recebe um chouriço e oferece um porco”.

A praga de gafanhotos digitais está programada para reter as nossas preferências: o que vemos, lemos, como pensamos, agimos e reagimos. Entretanto, redes neurais de algoritmos interpretam e agregam dados que enriquecem os perfis individuais de modo a indicar as boas estratégias de contacto que geram lucros e motivam opiniões políticas, culturais e religiosas.É este o real interesse do novo big brother que determina não apenas os tempos da nossa atenção, mas ainda as vantagens diretas e indiretas que dela poderão extrair.

Que saudades do tempo em que na Rua Sésamo o monstro das bolachas devorava cookies a um ritmo que tinha como objetivo divertir crianças e adultos! Na era digital, os títeres cabeludos cederam o lugar a pragas de gafanhotos digitais - por vezes disfarçados de “bots”, ou “web spiders” - que injetam cookies nas nossas máquinas e recolhem os elementos necessários à devassa dos perfis individuais.
José Afonso bem nos avisou: “eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”...

Carlos Correia
Professor Universitário