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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Opinião As praxes, a pandemia e a carta

No último ano letivo a pandemia afastou as praxes presenciais das universidades e politécnicos. Surgiu, nesse período a chamada praxe a distância em algumas academias. Com o regresso às atividades letivas presenciais, a receção aos novos alunos voltou a merecer honras de praxe. Como diria um professor de economia que tive no meu quinto ano da licenciatura, “é aqui que a fêmea do suíno torce o apêndice caudal”. Quero com isto dizer que quando praticada com o recurso à humilhação e à coação, a praxe deve ser condenada, criticada e denunciada.
Vem este texto a propósito de uma nova carta que o Ministro da Ciência e Ensino Superior escreveu aos estudantes a alertá-los para esta situação. Não é a primeira vez que o faz. Infelizmente. O que significa que as práticas de humilhação ainda estão presentes nas academias.
O apelo de Manuel Heitor, que há dois anos tinha lançado a iniciativa EXARP, cuja denominação não é mais do que a palavra praxe lida ao contrário, era mesmo esse. Desafiar os estudantes e associações académicas a darem a volta à praxe, através de uma postura “ativa na integração saudável e solidária dos estudantes no ensino superior, evitando e contrariando qualquer tipo de iniciativas de praxe ou de natureza humilhante”.
No entender de Manuel Heitor, é importante que a integração dos novos estudantes ocorra de modo a que lhes sejam apresentadas as vantagens da formação superior e o desafio da investigação científica, do conhecimento, da cultura e do desporto. “As experiências de acolhimento deste tipo ao longo dos últimos anos mostram claramente que permitem alargar o conhecimento sobre as instituições, potenciar os momentos de partilha entre estudantes, estimular o sentido de curiosidade e promover uma cultura humanista nos jovens através da sua integração no ensino superior”, escreve Manuel Heitor, na missiva a que também tivemos acesso.
O ministro critica o facto de continuarem a “coexistir eventuais práticas contrárias a esses tipos de acolhimento, nunca sendo demais apelar ao repúdio de todas as manifestações de poder, humilhação e subserviência a que se assistem nas praxes académicas”. Práticas que “conflituam claramente com a missão do ensino superior e o propósito daqueles que o frequentam”.
O modo como os novos alunos são integrados nas instituições de ensino superior condicionará o seu percurso. Nesse sentido, as associações de estudantes e os dirigentes estudantis têm uma grande responsabilidade. O testemunho que lhes vão passar e o modo como os acolhem será determinante. Afinal estamos a falar do início de um novo ciclo na vida de milhares de jovens, que merece ser vivido com tudo o que de bom têm as academias, a vida de estudante, o companheirismo e a camaradagem, as festas, o estudo. A formação que vão receber não só os vai capacitar para os seus percursos profissionais e académicos, como também para a vida. E é de tudo isto que estamos a falar. Vamos lá dar a volta às praxes.

João Carrega
carrega@rvj.pt