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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Opinião A escola e os tempos de uma pandemia que nos confina

Após várias hesitações, avanços e recuos, o Governo decidiu encerrar as escolas, do pré-escolar ao ensino secundário (com o ensino superior a ter também que se adaptar), pelo menos durante 15 dias. Mas mais do que isso, ao contrário do que sucedeu no último ano letivo, neste período de interrupção não haverá ensino a distância. Esta interrupção será compensada nas interrupções letivas que tradicionalmente ocorrem no carnaval e Páscoa. Poderá também obrigar a estender o calendário escolar no verão.
Esta opção de não recorrer ao ensino a distância não deixa de trazer ao debate diferentes perspetivas defensoras desse método, tal como ocorreu no último ano letivo; e partidárias de uma interrupção sem aulas, tal como foi decidido. Ambas têm argumentos válidos. Contudo, a decisão adotada parece-me prudente. É importante que não se percam os avanços conquistados no último ano letivo, com a utilização de novas plataformas digitais. Conseguiu-se com a pandemia, aquilo que nunca se tinha alcançado no que respeita ao ensino a distância e ao uso das novas tecnologias pela escola. Muitos professores e alunos continuaram a utilizar ferramentas como o “classroom”, como complemento ao ensino presencial.
No último ano letivo percorreu-se um caminho numa lógica de “achamentos”. Isto é, nem os alunos nem os professores estavam preparados para ensinar ou aprender a distância. O percurso, mesmo que com indicações das escolas e da tutela, fez-se por intuição. Pelo eu acho que é assim. Numas vezes correu bem. Noutras não. O próprio ensino secundário teve que regressar ao ensino presencial para terminar o ano escolar, com os olhos nos exames nacionais…
O ensino a distância é uma opção que deve, cada vez mais, ser trabalhada. Mas isso obriga a formação específica de quem ensina e também de quem aprende. Facto que até ao momento pouco aconteceu. O ensino a distância exige disciplina de ambas as partes e regras que devem ser cumpridas. Não se trata apenas de dar aulas síncronas e assíncronas, de enviar trabalhos de casa para os alunos (muitas vezes de uma forma desproporcional, que me leva a duvidar que todos eles venham a ser corrigidos em tempo útil). Nem, da parte dos alunos, ele pode ser visto como o estar simplesmente ON, com a câmara em OFF, sem que se saiba se estão ou não presentes; ou pelo simples enviar de fotografias dos trabalhos de casa aos professores. Falo sobretudo nos níveis de ensino básico e secundário, que no superior o ensino a distância estará mais enraizado entre alunos e docentes.
Depois surge a outra dimensão: os equipamentos, a igualdade de acesso, etc. E aqui importa abordar a questão dos alunos e dos docentes. São poucas as famílias que têm um computador por elemento de agregado familiar. E há famílias que nem um computador terão. Com o país em teletrabalho, tudo fica mais complicado, como aconteceu no último ano letivo, mesmo com o empréstimo de computadores com acesso à internet aos alunos. Esta questão será, porventura, aquela que mais facilmente se resolverá, até porque muitas escolas já, no último ano letivo, receberam esses equipamentos para esse fim e os emprestaram.
Se os números da pandemia não baixarem para níveis que permitam o regresso à escola, acredito que o ensino a distância terá que voltar a ser opção. Infelizmente voltará a funcionar numa lógica de boa vontade, de achamento, porque a maioria dos professores tem e acredita na sua missão de ensinar dando o melhor de si; os alunos procurarão aprender dentro daquilo que é a nova realidade e a sua faixa etária, e muitos pais viverão com a angústia de perceber se tudo está a correr bem.
Importa, por isso, que o Plano de Ação para a Transição Digital (aprovado em Conselho de Ministros, em 2020), que integra o Programa de Digitalização para as Escolas avance rapidamente. Este Programa garante a disponibilização de equipamento individual a alunos e professores; a conectividade móvel gratuita para alunos e professores; o acesso a recursos educativos digitais de qualidade; mas, acima de tudo aposta num plano de capacitação digital de 100% dos docentes das escolas públicas portuguesas. Um plano que envolverá a participação dos professores em formação acreditada em competências digitais; e em formação complementar e outras iniciativas, de acordo com o plano estratégico de cada escola. Os primeiros passos já foram dados com a realização da fase de diagnóstico, que consiste num inquérito aos docentes. Que os outros avancem depressa, ainda que para este tempo de pandemia já não venham a tempo.

João Carrega
carrega@rvj.pt