A distinção no Prémio Mário Soares foi o mote para uma conversa com a jornalista da Beira Interior que aponta caminhos para que a profissão que escolheu resista às ameaças.
Venceu a primeira edição do Prémio Mário Soares com a investigação «Arquivos de media: memória sem garantia de preservação». Qual o motivo para ter escolhido este tema?
Primeiro, foi uma honra receber, a título pessoal, um prémio que leva o nome de uma das maiores referências da democracia portuguesa. Depois, a investigação premiada ter sido publicada num órgão de comunicação não generalista – o Gerador – é outro sinal que me enche de satisfação. Este trabalho parte da dica pessoal de um colega de profissão, o jornalista Miguel Carvalho, que me alertou para o facto de a questão dos arquivos dos órgãos de comunicação social estar a ser descurada. Propus o tema à equipa do Gerador e todos concordámos que era algo que tinha muito interesse. A partir daí procurou-se chegar à fala com o maior número de órgãos de comunicação possíveis que nos quisessem abrir as portas e falar sobre os temas, para além de esmiuçar a legislação e a regulação existente. Numa primeira análise, pensou-se seguir o caminho de analisar os arquivos de títulos históricos como «O Século», o «Diário de Notícias» e o «Primeiro de Janeiro», mas constatámos que o foco devia ser outro, bem mais prioritário, incidindo sobre a questão da legislação e a falta de práticas arquivísticas.
Para que se perceba o seu estudo não incidiu apenas sobre os jornais, mas também sobre a televisão e a rádio, onde chegou a algumas conclusões preocupantes. Quer partilhar connosco?
A lei do depósito legal remonta aos anos 80 e está focada, sobretudo, na preservação dos jornais em papel. Tudo o que é produzido ao nível das rádios, das televisões e também do digital fica ao critério de cada órgão de comunicação no que ao arquivamento diz respeito. Para além de ser problemático por não existir uma prática uniformizada, o processo fica à mercê dos recursos que cada título tem ou não tem. Normalmente nos grandes órgãos há recursos para armazenamento, questão diferente é se estão ou não sensibilizados para este tema. Mas se olharmos, por exemplo, para as rádios locais a situação é completamente diferente. A única coisa que a lei diz é que as emissões têm de ser preservadas integralmente durante 30 dias para efeitos de direito de resposta. Certas rádios com quem eu falei, estão sensibilizadas para este facto e revelaram-me que gravam as emissões contínuas em DVD. É uma iniciativa louvável, mas no futuro ao nível da pesquisa torna-se um esforço praticamente inútil.
E qual o tratamento dado à informação digital que é cada vez mais abundante?
Há também uma falta de critério e de método em termos do arquivamento dos conteúdos. Mesmo nos grandes órgãos de comunicação social, o arquivo digital é o “backoffice” do seu site. Se acontece alguma coisa – como já aconteceu – desaparece tudo. No longo prazo, a autenticidade dos conteúdos também fica em risco visto que num qualquer “backoffice” de uma página de internet é possível alterar uma data e até o conteúdo da notícia. A interpretação da realidade numa perspetiva histórica pode ser profundamente alterada, o que é grave.
Defende que precisamos de mecanismos para preservar conteúdos. Caso contrário, a memória coletiva pode estar ameaçada?
Sim, sem dúvida. A menos que se atualize a lei e se definam e apliquem procedimentos que uniformizem as práticas arquivísticas. Isto para além de proporcionar financiamento público destinado a organizações de media, especialmente órgãos locais, académicos, etc. Considero que o único órgão que tem práticas de arquivamento boas, não sendo perfeitas, é a RTP, dado que é uma estação pública e obedece a critérios muito específicos. Mas lá por ser pública, não significa que não devemos regular, neste domínio, meios privados. Eu defendo que isso aconteça, sob pena de se perder informação muito relevante. Toda a informação é serviço público.
Os arquivos do «Diário de Notícias» e de «A Bola» também foram considerados de interesse nacional…
Sim, foi há pouco tempo, mas tratou-se de um processo longo, mas que é de crucial importância. No caso do título se extinguir, como aconteceu com «O Século» e o «Primeiro de Janeiro», os arquivos para além de ficarem abandonados, correm o risco de ser desmembrados. Se é assim em títulos históricos, alguns já extintos, temos de ficar preocupados no caso de as edições no futuro não ficarem abrangidas por uma regra comum. Ainda para mais quando à nossa volta há tantas tentativas de reescrever a História e instrumentalização das narrativas.
A democracia está cercada por vários inimigos. O jornalismo, também em apuros, é um dos últimos redutos de resistência?
Sim, o jornalismo e muito particularmente os jornalistas. Há muitos órgãos de comunicação que estão à mercê dos interesses comerciais e empresariais e são os profissionais a afirmarem-se como protagonistas de resistência a este estado de coisas, lutando para uma informação rigorosa e fidedigna. Temos o caso atual da revista «Visão» em que 12 jornalistas estão a lutar todos os dias para preservarem este título. O setor precisa de novas estruturas de financiamento público independentes, sem ligação aos governos, em particular para os órgãos que não sejam ou não pertençam a multinacionais. Da mesma forma que acontece com o apoio às artes em Portugal e não creio que o produto artístico criado seja politicamente influenciado. Acho que seria uma via para o jornalismo resistir.
A crise do jornalismo deve-se a falhas no modelo de negócio ou a proliferação do online explica tudo?
São vários fatores conjugados. Mas o princípio da crise acontece nos primeiros anos do século XXI, com a massificação da internet. Alguns dos grandes órgãos migraram para o digital, mas a transição não foi bem feita. A disponibilização de todos os conteúdos de forma gratuita foi um erro. Posteriormente, procurou-se retroceder, mas já era demasiado tarde. Criou-se o hábito de obter a informação gratuitamente. Ainda se procurou regressar à prática de angariação de receitas por via da publicidade ou patrocínio de suplementos, mas essa lógica falhou e hoje lamento ver jornais locais insistirem em seguir um modelo que está condenado ao fracasso.
Que conselhos gostaria de transmitir aos estudantes de jornalismo que ambicionam seguir esta carreira?
No meu caso, houve dois fatores que determinaram o rumo da minha carreira e o impacto dos meus trabalhos: sobretudo, no início, é preciso ser proativo, propor e apresentar trabalhos, mesmo que nada de receba ou a recompensa seja mínima. O «não» está sempre garantido, mas por vezes há boas surpresas. O segundo conselho é que façam uma boa rede de contactos entre jornalistas, mais novos e outros mais seniores, gerando-se uma interajuda que acaba por ser muito útil, a nível profissional, legal e deontológico.
É formadora da Associação Literacia para os Media e Jornalismo. Falta uma política sólida e consistente em termos de projetos educativos para fazer chegar essa informação aos mais jovens?
Já existe um plano nacional de literacia mediática, mas a sua aplicação ainda é bastante limitada. Devia-se investir muito mais na literacia mediática, desde tenra idade. Uma investigação recente feita por estudantes de jornalismo mostrou que certas escolas acolhem “influencers” que transmitem mensagens misóginas, músicas que sexualizam as mulheres, etc. E isto tem de ser trabalhado através da formação em literacia mediática. Para os alunos, mas incluindo os próprios professores que precisam de se atualizar. As redes sociais são muito mais do que entretenimento e estão a influenciar as democracias de uma forma sem precedentes. E as faixas etárias seniores não devem ficar de fora, até porque já passam muitas horas por dia nas redes sociais.
Nasceu e vive na Beira Interior. De que forma é que as suas raízes moldaram o seu percurso?
Para começar, tenho uma consciência muito mais apurada sobre o impacto do fator interioridade relativamente aos meus colegas que residem nas áreas metropolitanas. Tenho uma perceção diferente do centralismo em Portugal, por saber que as questões sociais decorrentes da assimetria demográfica estão na base de tudo. No acesso à educação, à saúde e até no simples ato de comprar um jornal tenho de me deslocar cerca de 20 quilómetros até à sede do concelho, na Covilhã. São estes dois «países» que procuro sempre ouvir em todos os trabalhos que faço.
A CARA DA NOTÍCIA
Jornalismo independente e alternativo
Sofia Craveiro nasceu e vive na vila de Unhais da Serra (distrito de Castelo Branco). Enquanto jornalista, tem-se dedicado ao jornalismo independente e às temáticas dos direitos humanos, democracia, desigualdades e diversidade. Foi recentemente distinguida com a primeira edição do prémio «Mário Soares, Liberdade e Democracia», atribuído pelo Presidente da Assembleia da República, pela sua série de artigos sobre «Arquivos de media: memória sem garantia de preservação». Anteriormente, em 2022, venceu a 7.ª edição do Prémio de Jornalismo em Saúde na categoria digital, atribuído pelo Clube de Jornalistas e Apifarma, pela reportagem «Aborto Seguro em Portugal». É jornalista na plataforma independente Gerador, onde os seus trabalhos premiados foram publicados.