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João Pereira Coutinho, politólogo «Só se derrota o populismo respondendo às preocupações das pessoas»

09-09-2022

Antecipou a crise política que provocou as eleições que deram a maioria absoluta ao executivo de António Costa e agora defende que o primeiro-ministro manifesta «desinteresse e cansaço» pela governação. O politólogo e professor universitário João Pereira Coutinho afirma ainda que o combate ao populismo «não passa por ilegalizar partidos, insultá-los ou achar que eles são a raiz de todos os males.»

Afirma que «Portugal é um vício e a política portuguesa é um vício ainda maior.». Para um “opinion maker”, sobre o que é mais desafiante escrever: a sociedade ou a vida política?

Sempre gostei muito de ópera, razão pela qual, sempre que posso, dou um salto a Itália. Mas como não posso estar sempre lá, Portugal é a segunda melhor escolha para quem gosta de política de faca e alguidar. E é por isso que é um vício acompanhar a política portuguesa, os seus personagens e os seus melodramas. Por isso, a relação que tenho com o país é, ao mesmo tempo, lírica e romanesca. A sociedade civil portuguesa é fraca e, quando muito, funciona apenas como figurante. Os atores principais são aqueles que se penduram no Estado ou que dele dependem.

Critica que se fale muito do 25 de abril, mas aponta que são vários os sinais que ainda não saímos de 24. Pode partilhar algum exemplo?

O maior sinal de que não saímos do dia 24 de abril de 1974 é o facto de ainda não termos absorvido plenamente o conceito de pluralismo político. A ideia de que numa sociedade livre e democrática existem várias conceções do bem, várias conceções de vida, todas elas com a mesma legitimidade e em que nenhuma delas tenta canibalizar as restantes. Em Portugal isto ainda não foi bem absorvido, e parte-se do pressuposto que o espetro político começa na extrema-esquerda e acaba ao centro.

Este é um país que, em termos políticos, termina ao centro?

Sim. Basta ver o escândalo e o burburinho que se criou com o aparecimento de um partido liberal. Aquilo que é regular em qualquer pais ocidental, desde o século XIX, aqui em Portugal é visto como uma bizarria e uma ameaça.

Um dos artigos que consta do livro que acaba de editar e que dá pelo nome de «Diário da República» chama-se «Agora ou nunca», datado de 7 de outubro de 2021. Nele, antecipa a crise política do último outono e que conduziu ao chumbo do Orçamento e à dissolução do Parlamento. O que o levaram a traçar esse cenário, que acabaria por se concretizar?

Existe um erro, em grande parte do comentário político, que é o facto de muitos comentadores partirem do pressuposto que os partidos políticos querem o bem comum.

E não querem?

Bem, não é que eles não queiram o bem comum, mas em primeiro lugar os partidos querem o poder. E para ter o poder, têm de pensar primeiro neles próprios. E na perspetiva dos três partidos de esquerda - PS, PCP e Bloco - era mais vantajoso eleições a curto prazo do que a longo prazo. Por exemplo, o PS entendia que esta era a única forma de chegar à maioria absoluta e não mais tarde, com a degradação geral das condições de vida. Por incrível que pareça, PCP e Bloco, apesar de terem sido bem punidos, entendiam que eleições agora e não daqui a dois anos podiam ser menos penalizadoras para os seus interesses. Perante estes argumentos, pareceu-me óbvio que ia haver uma crise política.

Tem ficado surpreendido por este desgaste acelerado de um governo de maioria absoluta em pouco mais de cinco meses?

Para mim é um absoluto mistério ver um governo, com tão pouco tempo de existência, detentor de uma maioria absoluta, com possibilidade de ter acesso a fundos europeus, em quantidade apreciável, com este grau de degenerescência. Não há nenhuma explicação racional que eu seja capaz de encontrar que não passe pelo desinteresse e cansaço absolutos do primeiro-ministro e pela vontade dele de se libertar dos sarilhos do país o mais depressa possível.

Costa seguirá o caminho de Durão Barroso e aceitará um cargo europeu, apesar do Presidente da República já ter ameaçado que convocará eleições antecipadas?

É cada vez mais gritante que António Costa, se soubesse antecipadamente que ia ter uma maioria absoluta, provavelmente preferia ter tido uma derrota em janeiro de 2022. O primeiro-ministro já só pensa num cargo europeu, mesmo que isso implique a realização de eleições antecipadas.

Com esse cenário, e encurtando-se o ciclo político, a travessia no deserto de Luís Montenegro na liderança do PSD pode ser bem mais breve do que se esperava?
Acho que sim. Luís Montenegro tem a claríssima noção de que pode haver eleições mais cedo do que aquilo que se pensa. As eleições europeias, dentro de dois anos, serão o primeiro grande termómetro. Ou seja, o ciclo político que se acelerou, em final de 2021, pode voltar a acelerar-se, perfeitamente, num prazo relativamente curto. Luís Montenegro, ao distanciar-se da estratégia do anterior líder do PSD, demonstra mais inteligência e clarividência de modo a começar a preparar uma alternativa.

O PCP e o Bloco de Esquerda vão continuar a definhar?

O processo de definhamento de ambos os partidos é irreversível, em grande medida devido à perda do eleitorado jovem e urbano para a Iniciativa Liberal. O que não significa que não possa surgir uma eventual cisão no próprio Partido Socialista que leve a sua ala esquerda – liderada por Pedro Nuno Santos – a reorganizar esta esquerda mais radical. Contudo, é inegável que os comunistas e os bloquistas estarão em apuros nos próximos anos.

Por seu turno, a Iniciativa LIberal e o CHEGA continuarão a capitalizar eleitores?
Acho difícil que o CHEGA o consiga. É um partido que se alimenta, essencialmente, do ressentimento, da insegurança e do empobrecimento. Isto significa que o eleitorado do CHEGA tem de ser ouvido e as suas preocupações têm de ser enfrentadas, mas sinceramente não me parece que este partido tenha um potencial de crescimento que vá muito além dos 10 por cento. O caso da Iniciativa Liberal é diferente. Acredito que pode crescer, nomeadamente captando eleitores no Bloco de Esquerda e inclusive no PSD, se Luís Montenegro não conseguir recapitalizar o partido em todo o espaço do centro-direita.

Se o atual governo de António Costa terminar esta legislatura, nos últimos 30 anos, o PS terá governado 22 anos e o PSD/CDS 7 anos. A pergunta que lhe faço é a seguinte: Portugal é um país tendencialmente de esquerda ou os eleitores são mais sensíveis às políticas dos governos de esquerda?

O eleitorado é de esquerda porque a sociedade portuguesa, empobrecida, envelhecida e enfraquecida, é mais sensível a políticas assistencialistas de esquerda. Em suma, depois de uma crise financeira, uma pandemia e os efeitos de uma guerra, que ainda decorre, diria que são argumentos que dão um enorme potencial ao eleitorado de esquerda, nomeadamente as classes etárias mais velhas. Já o eleitorado jovem quando vota, fá-lo com os pés. Explico: emigrando e desistindo.

Ainda faz hoje sentido ser de direita ou de esquerda, ou as diferenças têm sido, com o passar dos anos, esbatidas pela luta ao centro do espetro político?

A grande diferença entre a esquerda e a direita começa por ser filosófica. Enquanto que a esquerda tem uma visão muito otimista da natureza humana, a direita tem uma perspetiva mais pessimista, pelo menos mais cética.  Estas duas posturas têm consequências políticas muito distintas. Quem tem uma grande opinião sobre a natureza humana, normalmente não tem problemas em atribuir ao poder político mais poder, vivendo confortavelmente com o apoio do Estado. Enquanto quem tem uma visão mais cética ou pessimista, tenderá a possuir uma perspetiva do poder político pintada da maior desconfiança, procurando um Estado menor, limitado e sem a capacidade de interferir continuamente na vida em sociedade.

Os políticos têm horror à demissão e a pedir desculpas e são especialistas em abrir inquéritos que terminam em nada. Em traços gerais, é este o “modus operandi” da vida política nacional?

Acho que sim. Mesmo fazendo a ressalva que existiram comissões de inquérito importantes, como Camarate ou o BES. Mas parece-me evidente que neste país, perante qualquer problema, há a tentação para se abrir um inquérito e constituir um grupo de trabalho ou de estudo. Quando existe um sarilho em Portugal estou sempre à espera que alguém anuncie algo do género.

A propalada crise nas elites políticas deve-se à dificuldade de recrutamento?

Com toda a certeza. E isso deve-se à “cacificação” dos partidos políticos em Portugal. O que falta em Portugal é uma grande reforma do sistema político, incluindo o sistema partidário e eleitoral. A primeira mudança a operar devia passar por uma maior abertura dos partidos políticos à sociedade. Internamente, deviam criar mecanismos de competição interna, nomeadamente através da realização de primárias para a escolha dos seus líderes, etc.

Para além do sistema político, que outras reformas é que o país carece?

O diagnóstico das reformas está mapeado, falta é vontade política para as aplicar. Mas se pudesse, elegeria as seguintes reformas: a justiça, a fiscalidade e a saúde.

Sobre o populismo afirma que «é uma febre que indicia que algo não vai bem». Chega mesmo a referir que se Portugal não estivesse no projeto europeu, já teria seguido por um caminho autoritário. Como reforçar os anticorpos do sistema democrático contra as derivas antidemocráticas?

A única forma de derrotar o populismo é levando a sério as ansiedades e as preocupações das pessoas que votam em partidos que expressam e manifestam essa corrente. Desde finais do século XIX, em particular nos Estados Unidos, o populismo sempre funcionou como uma espécie de barómetro daquilo que os cidadãos anónimos pensam e desejam. Perante isto, republicanos e democratas sempre souberam interpretar esses sinais, respondendo a eles de forma articulada, racional e com pés e cabeça. A partir da década de 90, também nos Estados Unidos, deixou de se prestar atenção a esses sinais, e algum tempo depois a consequência foi a eleição de Donald Trump. Em suma, desarmar o populismo não passa por ilegalizar partidos, insultá-los ou achar que eles são a raiz de todos os males. Passa antes por dar respostas às preocupações e ansiedades do eleitorado.

E qual é o papel que deve a imprensa ter neste antagónico jogo entre as forças populistas e democráticas?

Alguma imprensa é muito responsável pelo crescimento do populismo. Há a ideia maniqueísta de que existe o povo e as elites e esta visão é explorada pelos movimentos populistas. A força da imprensa deveria ser a de vigiar ambos os extremos de forma igualmente séria. O que se passa hoje é que parte da imprensa gosta de se colocar na torre a olhar com igual desprezo para as massas. Isso significa a crescente irrelevância da imprensa e, ao mesmo tempo, o seu papel de fornecer combustível para a insatisfação popular.

Por falar em imprensa, escreveu no «Expresso» e no «O Independente», um jornal polémico, mas que marcou uma época. Na atualidade, fazia falta um jornal com a irreverência e o arrojo de «O Independente»?

Fazia muita falta um jornal como «O Independente». Infelizmente, não vejo no horizonte nenhum jornal que possa suprir o espaço que «O Independente» deixou. A imprensa está a passar por uma crise muito profunda, essencialmente associada à mudança de hábitos dos leitores. Os leitores continuam a existir, só que não existe mais o tradicional leitor do jornal impresso. O que acontece é que a imprensa, na sua versão digital, ainda não encontrou uma fórmula de negócio que lhe permita crescer e prosperar. Por isso, perante a atual reorganização do espaço mediático, não vale a pena continuar a apostar no modelo de negócio que existia há 30 ou 40 anos. É garantido que vai desiludir-se.

Num artigo datado de 8 de dezembro de 2016 escreveu o seguinte: «Portugal é o berço da riqueza dos outros. Formamos bem e exportarmos o nosso investimento.» Continuamos a desperdiçar os recursos que formamos?

Historicamente sempre foi assim. Era esta a solução encontrada pelos portugueses para fugirem à situação de miséria. Este é o nosso fado ao longo de vários seculos. Não há nada de novo aqui. O que se esperava, chegados a 2022, é que esse mecanismo secular de enfrentar a pobreza tivesse sido seriamente atenuado. Infelizmente, não foi. Defendo e apoio que os portugueses que desejem sair do país em busca dos seus sonhos profissionais o façam. Nada contra. A questão central é que a saída maciça de portugueses formados cá e que procuram oportunidades lá fora é sintomática de uma disfunção, visto que estamos a desperdiçar o investimento que o Estado, com o dinheiro de todos nós, fez neles.

É professor na Universidade Católica Portuguesa e recentemente queixou-se, publicamente, por não perceber a caligrafia de alguns dos seus alunos quando está a corrigir os exames. Esse é um sinal dos tempos que aponta para a degradação do ensino?

Não alinho na conversa que os alunos estão cada vez piores e «no meu tempo é que era bom». Tenho alunos excecionais todos os anos. O que se passa é que a digitalização maciça da sociedade tem agravado a tendência de ser cada vez mais difícil perceber o que os alunos escrevem nos exames, e os próprios também têm dificuldades em perceber a sua própria escrita. A este propósito, gostaria de sublinhar que escrever à mão ajuda a pensar melhor, convida a um abrandamento e, porventura, permite uma maior reflexão.

É colunista há 17 anos do jornal «Folha de São Paulo». Por ser um grande conhecedor da realidade brasileira, tem algum favorito para as eleições de 2 de outubro: Bolsonaro ou Lula?
Um dia perguntaram ao secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger quem é que ele queria que ganhasse na guerra Irão-Iraque, ao que ele respondeu: é uma pena que não possam perder os dois. Se estivesse no Brasil, provavelmente votaria numa terceira opção. O Brasil é um país com um grande potencial e só lamento que a disputa pelo poder recaia em duas figuras políticas deploráveis.

 

A CARA DA NOTÍCIA

5 anos de crónicas em «O Independente»

João Pereira Coutinho nasceu no Porto, a 1 de junho de 1976. É colunista do «Correio da Manhã» e da «Sábado», para além de colaborar igualmente com o mais importante jornal brasileiro «Folha de São Paulo».  Anteriormente, escreveu nos semanários «Expresso», entre 2004 e 2008, e em «O Independente», entre 1998 e 2003.  Formou-se em História, na variante de História de Arte, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorou-se em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, onde também é professor. Publicou o ensaio «Conservadorismo», em 2014, e dois livros de crónicas, «Vamos ao que interessa», em 2015, e acaba agora de lançar «Diário da República - Geringonças, pandemias, invasões», todos com a chancela da Dom Quixote.

Nuno Dias da Silva
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