Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pelo nosso website. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.

Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXV

Camané, fadista ‘Como não tinha professores, aprendi a ouvir os outros’

24-01-2022

Camané é um nome maior da chamada «canção nacional». O fadista defende que, em nome da sua «forma de estar e da sua verdade», o «fado não pode perder a essência» e garante ainda fazer «eternamente sentido» dizer-se «silêncio, que se vai cantar o fado!». O lançamento do seu disco “Horas Vazias” foi a oportunidade para conversar sobre mais de 25 anos de carreira.

Editou no final de outubro o seu último álbum “Horas Vazias”. É o regresso a solo aos originais, seis anos depois, com fados tradicionais e contributos de poetas e autores, entre os quais Pedro Abrunhosa, Jorge Palma e Sérgio Godinho, mas com uma ausência de vulto, José Mário Branco, entretanto falecido, substituído por Pedro Moreira, um músico da área do jazz. O que significa para si este novo disco?
Apesar da ausência do José Mário Branco, este disco representa uma continuidade do seu trabalho. Ele está sempre presente, em cada faixa. Estes mais de 20 anos em que trabalhámos juntos foram uma grande lição de vida e contribuíram para moldar a minha forma de estar no fado. Como tal, todos os ingredientes que referiu tiveram uma enorme influência no disco “Horas Vazias”. Como não podia deixar de ser, o Pedro Moreira conferiu o seu cunho pessoal a este trabalho, mas foi fiel à estética e à linguagem do fado, conservando o ambiente musical que caracteriza a minha forma de estar no fado.

O processo criativo e as gravações aconteceram em plena pandemia. Como é que este contexto, com confinamentos duros, condicionou o trabalho?
Recebia os temas em casa e comecei a trabalhar e a aproveitar os que achava que podia transportar para o registo musical que é o fado. Mandaram-me outros temas, mas que acabei por não incluir no disco, por não terem muito a ver com a minha forma de estar na música, que é o fado. Acima de tudo, houve muito tempo. Para ouvir, para ponderar e para escolher. O confinamento teve coisas terríveis, mas permitiu-me ter tempo e disponibilidade para estar completamente focado neste trabalho.
O panorama artístico sofreu e sofre com a pandemia, nomeadamente com o cancelamento de concertos e festivais. Sei que não foi dos artistas mais penalizados com cancelamentos, mas como viveu estes dois últimos anos? O que é que tanto tempo de reclusão lhe permitiu fazer de diferente?
Este tempo de reclusão forçada permitiu ter tempo para ouvir mais música e também fui pai, há dois anos e meio, o que me possibilitou desfrutar ainda mais com o meu filho. Mas, em particular, houve muito tempo para estar focado na música e no modo como o produto final podia sair da melhor forma possível. Apesar das restrições ainda fiz bastantes concertos, nomeadamente com o Mário Laginha, previstos para 2020 e que foram reagendados para 2021 e para o início de 2022. Amanhã mesmo vou a Madrid com o Laginha fazer um concerto que foi adiado. No próximo dia 15 de fevereiro farei o concerto oficial de apresentação do disco, no Teatro Trindade, em Lisboa. A partir daí tenho a agenda muito preenchida, com diversas atuações, inclusive deslocações ao estrangeiro: França, Argentina e Polónia, por exemplo. Devo confessar que, em comparação com muitos colegas, não me posso queixar, se olharmos para o número de concertos que fiz nestes dois últimos anos.

Vendem-se cada vez menos discos, fruto da concorrência das plataformas digitais, como é o caso do Spotify. Encara esta realidade como uma ameaça ou também pode ser uma oportunidade para chegar a outros públicos, mais jovens?
Numa primeira análise, e talvez por ser um bocado antiquado, confesso ser um bocado assustador. Mas, por outro lado, sei que muitos milhares de pessoas ouvem, através do Spotify, mensalmente, a minha música, o que me deixa contente. Eu gosto de comprar discos em suporte físico, sou um colecionador, mas também oiço música em suporte digital. Apesar disso, faço discos a pensar no conceito de vendê-los em suporte físico e, ao contrário de colegas meus, não procuro fazer um lançamento de determinado tema em exclusivo nas plataformas digitais. Não é a minha forma de estar, mas até admito que, mais tarde ou mais cedo, venha a acontecer.


O fado transporta uma carga emotiva e interpretativa que faz com que esta canção tenho muitos fãs, mesmo em países que não percebem uma palavra de português. A música, e em especial o fado, consegue derrubar a barreira da língua?
Qualquer música vence a barreira da língua. Tem a ver com a alma que se transporta na melodia. E não é só com o fado. Mas o fado, tal como o blues, o tango, o rock ou o flamenco, tem um ritmo, um tempo e uma forma de cantar únicas, que são facilmente identificáveis. Quando eu era miúdo ouvia o Sinatra, o Brel, o Aznavour e os Beatles e não percebia uma palavra do que eles cantavam. Ficava emocionado e até arrepiado. É este o poder das artes e da música.

Recorda-se de algum concerto que o tenha tocado mais pela reação às suas músicas?
Fiz um concerto, há três ou quatro anos, em Taiwan, que me marcou. Ninguém me conhecia por aquelas bandas e fizeram uma promoção prévia ao espetáculo como se eu fosse uma estrela. A sala estava cheia e correu muito bem. Depois do concerto, estive hora e meia a dar autógrafos e a tirar fotografias. Não havia um único português na sala e a reação do público foi fantástica. No outro dia, em Istambul, também não havia compatriotas nossos no teatro e foi igualmente excelente. Dei-lhe apenas dois exemplos, mas a regra é ser assim em praticamente todo o lado. Já agora, atuei também em Macau, no Venetian Theatre, juntamente com os Dead Combo, mas nesse espetáculo havia tradução para mandarim e inglês. Mas mesmo assim senti que o público esteve sempre atento às minhas músicas.

É, na atualidade, o maior intérprete do fado tradicional, conservador e fiel às raízes. Como é que perspetiva o fado reinventado ou de fusão? Admite que o fado pode assumir uma certa plasticidade ou perde a sua essência?
Eu sou fiel ao fado. Tem a ver com uma verdade que é a minha. Tudo o que aprendi com o fado tem a ver com o fado tradicional, quando era miúdo. Mas estou sempre disponível para outras abordagens, como fiz e transportei para o meu registo e a minha estética, as músicas que não são fado, como aconteceu com os temas do Pedro Abrunhosa – feito para ser cantado pelo Carlos do Carmo, mas que, entretanto, faleceu – do Sérgio Godinho, do Jorge Palma, etc. Acho que estes autores também ficaram realizados e contentes por verem uma música sua transportada para outro registo.

Ou seja, o fado está aberto a outras abordagens?
O fundamental é que o fado não perca a sua essência. Defendo que a evolução que exista no fado se processe de dentro para fora. A minha forma de estar e a minha verdade são estas. E creio que só assim é possível manter a ligação às pessoas.

Diz que «só sou cantor, porque sou fadista». A sua família é de fadistas, a começar pelos seus irmãos mais novos, Hélder Moutinho e Pedro Moutinho. Qual é a característica mais determinante para ser bem sucedido nesta carreira: talento ou trabalho?
As escolhas que se fazem ao longo da vida também são determinantes. E as escolhas são feitas ao longo de uma “maratona” e não de uma corrida ao sprint. Mas o fundamental é perceber e interiorizar que o fado é uma coisa para a vida. Faço aquilo que acredito e nunca foi para ter sucesso ou ser famoso.

Acha que se nasce fadista?
Acho que há uma característica vincada na forma de interpretar e cantar que, ou se tem ou não se tem. E o fado é completamente distinto dos outros estilos musicais, pelo seu lado poético e algo teatral que apresenta. Por isso, acho que sim, nasce-se fadista, como se nasce outro tipo de cantor.

Já temos um Museu do Fado, em Lisboa. Veria com bons olhos a criação de uma escola ou uma academia do fado para recrutamento de novos talentos ou o verdadeiro viveiro de fadistas continua a ser as casas de fado?
No meu tempo as casas de fado foram autênticas escolas. Em casa, comecei a cantar fado antes mesmo dos meus pais. Eles começaram a cantar por causa de mim. Aos sete anos ouvia fados tradicionais e comecei a cantar os fados interpretados pelos adultos. Ao fim de semana deslocava-me a casas de fados com os meus pais e frequentava diversas coletividades, com fado ininterrupto entre as três da tarde e a meia noite. Uma das casas que frequentávamos era o “Forte de D. Rodrigo”, em Cascais. Por lá encontrei a Amália, a Maria Teresa Noronha, o Vicente da Câmara, o Manuel de Almeida, entre muitos outros. Mais tarde, já com 17/18 anos, fui cantar para as casas de fado e então comecei a perceber que os principais cantores já tinham a preocupação de fazer trabalhos discográficos concetuais e muito cuidados. Foi este caminho e esta aprendizagem que me levou até ao que sou hoje.


Mas apesar de ter bebido a essência do fado ao longo dos anos que passou nas casas da especialidade, admite que, hoje em dia, faria sentido criar uma academia só para novos talentos, tanto intérpretes como guitarristas?
Admito que sim. No Museu do Fado já se fazem algumas coisas bastante interessantes nessa vertente. Hoje em dia, há aulas de guitarra portuguesa para miúdos. Seria fundamental era que eles conhecessem e descobrissem, com maior profundidade, os fados tradicionais e também o caminho e a história do fado em Portugal. No outro dia desloquei-me a uma escola do centro de Lisboa onde estavam a fazer um musical de fados sobre a Amália. Cruzei-me com um miúdo com 13 ou 14 anos a tocar guitarra portuguesa e que tinha um talento e uma expressão incrível. Gostaria de lembrar que hoje os tempos são outros, mas quando eu era bem miúdo havia um preconceito enorme em ouvir crianças a cantar fado. Ópera e violino podia ser, mas o fado não era bem visto, a vários níveis.

Carlos do Carmo deixou-nos no início do ano passado. Salvaguardando as devidas diferenças, considera-se o seu herdeiro e sente o peso da responsabilidade quando as pessoas olham para si dessa forma?
Sim, sinto essa responsabilidade, mas para além disso, prefiro recordar o quanto aprendi com ele ao longo de todos estes anos. Como não tinha professores, aprendia a ouvir os outros, os grandes nomes do fado. E Carlos do Carmo foi um dos meus mestres. Ele foi uma pessoa extremamente generosa comigo, desde miúdo. Uma vez, com 10/11 anos fui ao “O Faia”, uma casa de fados, e o guitarrista que lá estava pediu-me para cantar, ao que eu respondi que só o fazia na presença do Carlos do Carmo. Ele não apreciava muito crianças a cantar, mas a verdade é que se deslocou até lá para me ouvir. Não me esqueço que foi ele que me apresentou o José Mário Branco e fizemos vários concertos juntos, um deles com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, perante 18 mil pessoas, no Padrão dos Descobrimentos, em Belém, e também participámos em discos um do outro. Saíamos várias vezes à noite e o fado era, quase sempre, assunto de conversa.

«Silêncio, que se vai cantar o fado!», é uma frase que ainda faz sentido?
Faz eternamente sentido, mas em tudo na vida. Não apenas no fado. Começou a utilizar-se essa expressão porque as casas de fado são por norma sítios agitados e barulhentos, onde se conversa, bebe copos e janta. Por isso, quando se cantava, tinha de haver silêncio. E só se consegue ser fado quando se ouve, porque este estilo musical vive muito do texto, da palavra e inclusive do silêncio. Tem um lado muito erudito. É como o teatro ou a música clássica.

 

 

CARA DA NOTÍCIA

O despontar na Grande Noite do Fado

Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos, para o comum dos portugueses, simplesmente Camané, nasceu em Oeiras, a 20 de dezembro de 1966. Despertou para a música um pouco por acaso, quando durante a recuperação de uma maleita infantil se embrenhou na coleção de discos dos pais. Deixou-se fascinar pelos grandes intérpretes do Fado. Com apenas 11 anos participa pela primeira vez na Grande Noite do Fado, numa época em que não havia competição em separado para os mais novos. Dois anos depois, na edição de 1979, alcança a vitória e é convidado a gravar um álbum produzido por António Chainho. Antes de editar o seu primeiro disco, “Noite de Fados”, em 1995, ainda se aventura no teatro, a convite de Filipe La Feria, em “Grande Noite” e “Maldita Cocaína”. 13 discos depois, lança no final de 2021, “Horas Vazias”, o primeiro sem o produtor, compositor e amigo, José Mário Branco. À margem do fado, em 2004, integra o projeto “Humanos”, em que foram recuperadas canções inéditas de António Variações, nomeadamente imortalizando o êxito “Maria Albertina”.

Nuno Dias da Silva
Direitos Reservados
 
Voltar