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Fernando Tordo, cantor ‘A liberdade é um valor que jamais se pode perder’

18-04-2022

A poucos dias de mais um aniversário do 25 de abril, Fernando Tordo afirma que «se a liberdade for o alicerce, a democracia não treme.» Sem papas na língua, como é seu timbre, o cantor e compositor lamenta o desprezo a que são votados os mais velhos em Portugal e defende a criação de um organismo ou ministério exclusivamente dedicado para a resolução dos problemas dos idosos.

Quase 49 anos depois do 25 de abril, faz cada vez mais sentido cantar as músicas que, ainda hoje, simbolizam a revolução?
Permita-me que, para responder à sua questão, faça uma pequena introdução, até para preservar valores fundamentais da minha vida. Tenho 59 anos de profissão e comecei a tocar, em 1964/65, na época do “rock” e “pop”, nuns conjuntos. Em 1969 fiz a minha estreia no Festival da Canção. Por isso, desta data, até 1974, ainda vão alguns anos. Isto para lhe dizer o seguinte: não sou propriamente um cantor de abril. Venho muito de trás. Tenho uma carreira muito longa. O que acontece é que fiz parte de uma geração de cantores e compositores em Portugal que estão, direta ou indiretamente, envolvidos na revolução de abril. Quero recordar que uma das minhas músicas mais conhecidas é o “Cavalo à Solta”, datado de 1971. A “Tourada” é de 1973.

Mas muitas dessas canções que o tornaram famoso têm na sua génese os versos anti-regime de Ary dos Santos…
Sim, mas atribuírem-me o epíteto de cantor «revolucionário» são simplificações. E isso acaba por rotular os cantores, mesmo, como é o meu caso, tendo uma longa carreira artística, já antes do 25 de abril. Mas quero também sublinhar, para que fique bem claro, que o 25 de abril é o acontecimento mais importante, para mim, enquanto cidadão deste país e ser pensante.

O concerto que vai realizar no Teatro Maria Matos, em Lisboa, a 22 de abril, tem como título «Abril – cantigas de antes e depois». O que é que as pessoas podem esperar?
É um concerto em que viajarei pelas minhas memórias e pela minha aprendizagem ao longo de décadas e que terá, naturalmente, o 25 de abril como referência, mas que não esquecerá o que se fez antes e depois desse marco histórico. Cantarei as minhas composições mais conhecidas e também terei algumas surpresas. Até vou cantar em inglês – como cheguei a fazer em determinado período da minha carreira. É preciso não esquecer que boa parte da minha personalidade enquanto cantor e compositor é construída a partir da música que se ouvia naquela altura e que era «importada» de Inglaterra e dos Estados Unidos. As influências passam, claro está, pelos Beatles, e mais para trás, comecei a ouvir música norte-americana com o Bill Haley, uma referência dos anos 50. Muitos discos eram trazidos por amigos meus que se deslocavam com frequência àqueles países. Recordo que Portugal atravessava um longo período de cinzento escuro. Nas escolas o que se aprendia em termos de música era o hino nacional e o hino da Mocidade Portuguesa. Mas no concerto do Maria Matos também vou interpretar alguma das chamada canção de intervenção, como é o caso de «O soneto do trabalho», isto para explicar às pessoas que num curto intervalo de tempo foi possível criar uma música vincadamente política e pouco tempo depois acabámos por compor «A estrela da tarde».

No ano em que estamos, 2022, a canção ainda é ou pode ser uma arma?
Essa é uma frase bonita e poética, que creio pertence ao José Mário Branco. A cantiga tem sempre um lirismo associado, mesmo tratando-se de uma cantiga chamada de intervenção. Acho que dentro de cada estilo uma cantiga pode ser de intervenção. Por exemplo, dentro de uma balada pode estar uma música com uma mensagem importantíssima e que fale, objetivamente, do que está em causa e, ao mesmo tempo, dentro de uma composição com alta pressão rítmica pode não estar absolutamente nada. Mas a cantiga só é uma arma se for divulgada, se for conhecida. Infelizmente, os órgãos de comunicação social, em particular a Rádio, têm ignorado sobremaneira a música portuguesa. Passaram a estar em jogo outros interesses, nomeadamente os que se relacionam com as editoras discográficas. A esmagadora maioria das rádios é completamente controlada pelo poderio das editoras. E não é de agora. Um artista em Portugal tem de ser muito persistente e autoconfiante para continuar a produzir música com alguma elevação e dignidade. Produz-se música em Portugal que as pessoas, pura e simplesmente, desconhecem. O estrago que o conluio entre a maior parte das estações de rádio e as editoras discográficas fazem à cultura musical portuguesa é simplesmente criminoso. Às vezes, ao sintonizar rádios portuguesas, parece que estamos a ouvir uma estação de Londres ou de Nova Iorque. Infelizmente, até canções francesas deixámos de ouvir – um país com tantas tradições musicais e pátria de grandes compositores e poetas.

O atual contexto de guerra que atravessamos estimula a composição de cantigas de intervenção?
Sem dúvida. Este conflito demonstra que a paz, apesar de ser uma palavra muito bela e simples, está longe de estar adquirida para todo o sempre. Mas, insisto, uma canção só será uma arma se for muito bem pensada. Caso contrário, é completamente inútil.

Critica a fraca divulgação da música portuguesa na Rádio. E qual é o papel da Televisão?
Neste domínio, está provado que as televisões não têm qualquer hipótese perante a Rádio que é, sem sombra de dúvida, o grande veículo de transmissão e de conhecimento da música. Ninguém vai ver televisão para ouvir uma grande orquestra. Para isso, compra-se um disco ou ouve-se na Rádio.

Ainda hoje se fala da parceria eterna que fez com Ary dos Santos, um génio que partiu demasiado cedo, aos 48 anos. Se hoje fosse vivo, com 86 anos, o que diria o poeta deste seu país?
Se o José Carlos Ary dos Santos fosse vivo – e outras pessoas, como a Natália Correia – estou certo que haveria certas coisas em Portugal que eram diferentes. Para melhor, não tenha dúvidas. A cultura não teria seguido o descaminho por onde foi. São vultos da dimensão de Ary dos Santos que, quando desaparecem, deixam um vazio que é muito difícil de preencher. Cerca de 90 por cento do que o Ary dos Santos criou para canção fez comigo. Por norma, especialmente nos grandes êxitos, eu fazia a música primeiro e posteriormente ele fazia as letras e os poemas. Era uma forma muito invulgar de trabalhar, mas que funcionava. Foram 14 anos muito intensos, sentados à mesa na sua casa da Rua da Saudade, em Lisboa. Alguns dos episódios que estão por detrás das canções costumo partilhar com o público nos concertos a que se deu o nome «Ary dos Santos – As histórias das canções». E pela experiência que tenho, estes episódios são muito atraentes para o público, porque este quer saber como é que a canção respira e como é que ela foi estruturada. É um exercício de memória que procuro fazer, mas que também me dá muito prazer por recordar momentos tão importantes.

Foi no mês passado que se cumpriu o marco de termos mais dias de regime democrático do que de ditadura. Que valores da revolução é que se mantêm e que outros desapareceram ou estão em risco?
O fator geracional é importante para avaliar isso. Salta à vista, a falta de delicadeza, de educação e de respeito, bem como a incultura levada aos extremos e a persistência na ignorância. O próprio telemóvel, que é o principal instrumento de comunicação do nosso tempo, usa-se mais para fazer umas “selfies” e tal, quando, no fundo, pode e deve ser muito mais do que isso. Contudo, quero acreditar que estes valores não se perderam em definitivo e que as gerações vindouras serão muito mais interessadas no saber. Mas há um valor fundamental e inalienável que jamais se pode perder: a liberdade. E esse combate deve ser feito por todos: novos, velhos, usados e menos gastos. A liberdade não pode ser o deixa andar e o deixa arder. O valor da liberdade é a grande responsabilidade dos cidadãos, perante nós e perante os outros. E este valor está em causa todos os dias. O resto é acessório e o palavreado político em que estamos enrolados. Ontem liguei a televisão e assisti a uma cena no nosso Parlamento, que é um bastião da democracia, completamente parva. Estamos em 2022 e ainda vamos ali…

Suponho que se esteja a referir à intervenção do deputado André Ventura sobre os ciganos, que posteriormente foi advertido pelo presidente da Assembleia da República…
Não quero saber quem disse. Só quero dizer, alto e em bom som, que práticas daquelas foram permitidas pelo nosso desleixo, pela nossa incúria e pela nossa falta de atenção aos valores. Estas pessoas não aparecem por acaso. O que aconteceu no Parlamento foi um atropelo à liberdade, mais do que à própria democracia.

Inquieta-o a ascensão dos populismos e que um partido, conotado com a extrema-direita, tenha eleito 12 deputados para a sua bancada parlamentar?
A democracia será mais forte se o valor da liberdade estiver fortalecido. Se a liberdade for o alicerce, a democracia não treme. Não é obrigatório que haja 800 partidos num país para haver o respeito pela liberdade. A elevada representação alcançada por esse partido no Parlamento é fruto de diversas razões, que se prendem com a nossa cultura e o nosso conhecimento e, sobretudo, com a nossa ignorância e desfaçatez. A raiva e o espírito de vingança que esse partido promove é contrário ao culto da liberdade.

É uma pessoa assumidamente com convicções de esquerda. Em 2014 emigrou para o Brasil. Na altura, fez questão de sublinhar que o fazia desencantado com o primeiro-ministro de então, Passos Coelho e não com o seu país. O que é que o atormenta nesse campo político, oposto ao seu?
O nosso país não pode admitir uma vaga neoliberalista. Não funciona por cá. O plano de Passos Coelho – pessoa que tenho oportunidade de conhecer pessoalmente – era baseado unicamente em números e em cortar despesa. A partir dos 60 anos deixamos de existir. E isto é especialmente irritante para mim, que venho de outro tempo e de outra geração. Passei por outras «guerras» pelas quais ele, Passos Coelho, não viveu e não passou. Ele que indique um país no mundo que viva em neoliberalismo? Ele enrolou-se nessa cartilha e deixou o país no estado em que se viu. Não pode vir dizer o contrário. Se algum dia ousar voltar para primeiro-ministro obriga-me à chatice de ter de fazer as malas outra vez. É um desrespeito, em especial, para minha geração. Ele que não me apareça à frente! Politicamente falando, claro está.

Há um desprezo pelos cabelos brancos em Portugal?
Completamente. Fazia todo o sentido ter um organismo específico ou até mesmo um ministério para os idosos ou para a terceira idade, com políticas adequadas que dessem resposta às necessidades das faixas etárias mais avançadas, seja a solidão, os problemas de saúde mental, etc. Vivi quase quatro anos no Brasil – uma nação mais atrasada do que a nossa – e o respeito, generalizado, pelos idosos não tem comparação com o que se pratica em Portugal. A cultura histórica do nosso país exigiria que tivéssemos uma relação de muito mais respeito para com os idosos. Nós não podemos maltratar aqueles que nos puseram neste mundo e que na sua vida ativa construíram e estruturaram uma sociedade em que os mais jovens estão integrados. As pessoas não podem, por decreto, deixar de existir a partir dos 65 anos. Uma das nódoas negras da sociedade portuguesa é a forma como são tratados os mais velhos.

A pandemia, apesar de abafada pela guerra na Ucrânia, continua a circular. É público que esteve em estado delicado durante várias semanas na cama de um hospital com Covid-19. Como é que foram estes últimos dois anos para o Fernando Tordo, enquanto artista e pessoa?
A minha profissão de cantor exige estar muito tempo em casa, a compor canções. Nesse sentido, fui um privilegiado durante os dois anos de pandemia. Acontece que em janeiro de 2021 apanhei o vírus e tive necessidade de ficar internado durante 28 dias. Não me apercebi, mas os médicos confidenciaram-me que estive num estado muito difícil. Às tantas, quando os médicos se aprestavam para me entubar perante o agravamento do meu estado de saúde, expliquei que tal iria danificar seriamente as minhas cordas vocais e eles fizeram de tudo para evitar isso. Felizmente, foi possível, usando no meu rosto uma máscara, igualmente muito violenta e desconfortável fisicamente.

Apesar do estado delicado em que se encontrava, o tempo internado deu-lhe oportunidade para pensar nalgum projeto?
Fazia os possíveis para não dormir, voluntariamente, devido à máscara que me tinham colocado. E como descansava pouco, o único processo que encontrei para passar o tempo foi ir escrevendo no telemóvel, que esteve sempre ao meu lado. E o resultado foi uma coisa a que dei o nome de «A suite das mulheres de azul», em que contei a minha experiência nos vários locais do hospital por onde passei. Quando regressei a casa, compus as músicas e agora estou a trabalhar as orquestrações. É uma obra musical com temas cantados e temas orquestrados e que, no fundo, é uma sentida homenagem aos profissionais de saúde. Assisti a coisas indescritíveis e aquelas pessoas só não caem para o lado de exaustão devido a um milagre qualquer. Como observador, ver aqueles profissionais sem um sinal de impaciência e de irritação a trabalharem sob uma pressão e responsabilidade imensas – desde a senhora da limpeza à senhora doutora – é algo que nunca esquecerei.

Teve alguma sequela da Covid-19?
Ainda estou em recuperação. Segundo os médicos, não há prazo estabelecido para uma recuperação plena. A doença afetou seriamente os meus pulmões, mas sinto-me, hoje em dia, melhor a cantar do que nunca. Mas quando ando um pouco mais depressa, já fico ofegante. Entretanto, passei a fazer ginástica e pilates, atividades que não fazia.

Tem dois netos, ainda de tenra idade. O sistema educativo corresponde às necessidades das novas gerações?
Não estou por dentro do sistema de ensino, mas os sinais que vou ouvindo são contraditórios. Se por um lado, as condições para estudar melhoraram, também surgem dificuldades para organizar o ensino, nomeadamente ao nível dos professores e a sua colocação. Há docentes colocados a centenas de quilómetros de casa e, é evidente, que essas condicionantes têm impacto no próprio ensino. O professor não pode chegar estoirado a casa ou à escola. Para além disso, o ensino e os alunos sofreram com a pandemia, mas o ensino à distância foi uma boa alternativa. Ainda assim, entendo que a pandemia lesou os jovens pelo tempo que estiveram em casa. Ainda não falei com os meus netos, que têm 13 e 9 anos, mas acredito que esta marca profunda – de semanas em casa, longe do colega e dos amigos – lhes vai ficar para toda a vida. E era muito bom que os responsáveis pelo ensino tivessem a preocupação de tudo fazer para recuperar estas crianças, tanto ao nível comportamental, como ao nível da aprendizagem. Pensar que isto já passou, e que se deve seguir em frente, sem tomar medidas, não pode acontecer. O sistema de ensino tem de estar preparado para tratar este isolamento de dois anos das crianças e dos jovens com funcionalidade e inteligência.

Um dos seus filhos, João Tordo, é um reconhecido escritor. Gostava que os seus netos seguissem a sua carreira?
Não. A vida de músico em Portugal é demasiado difícil para se desejar isso a um filho ou a um neto. O meu filho Filipe é um grande pianista clássico e infelizmente não tem trabalho no seu país. Os meus netos serão o quiserem ser, mas não lhes negarei qualquer aconselhamento que me peçam.

Na sua conta de Instagram partilha com os que o seguem trabalhos seus como pintor. O que representa para si a pintura?
Pintar é essencialmente um “hobby” que eu levo muito a sério. E pinto, sem qualquer compromisso, por respeito e admiração à pintura e aos pintores. Basta-me ter uma superfície branca e ataco, de imediato, com os pincéis, socorrendo-me do melhor da minha imaginação.

 

Cara da Notícia

Vencedor por duas vezes do Festival da Canção

Fernando Tordo nasceu em Lisboa, a 29 de março de 1948. Compôs algumas das canções mais emblemáticas do cancioneiro nacional, sendo considerado uma figura tutelar da música portuguesa pela extensão e originalidade da sua obra. É um dos pioneiros da música de intervenção em Portugal e, mais tarde, da música ligeira. Os primeiros passos no mundo da música levaram-no a participar no grupo “pop” Deltons, com apenas 18 anos. Destaca-se a sua colaboração com o compositor de poemas José Carlos Ary dos Santos, entre elas “Tourada” “Estrela da Tarde”, “Lisboa, Menina e Moça”, “Cavalo à Solta”, “Balada para os Nossos Filhos”, “O Amigo que Eu Canto”, “Meu Corpo” ou “Novo Fado Alegre”. Enquanto intérprete venceu por duas vezes o Festival RTP da Canção — em 1973 com “Tourada” e em 1977 com “Portugal no Coração”, integrado no grupo “Os Amigos”.

Nuno Dias da Silva
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