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João Pedro Mendonça, jornalista ‘É no serviço público que continuará a existir a salvaguarda do interesse comum’ 27-09-2021

O editor de desporto da RTP revela as suas aventuras e desventuras na recente cobertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Com raízes familiares na aldeia de Monsanto, recorda o período em que coordenou o centro de emissão regional do canal público em Castelo Branco e os seus esforços para que esta região tivesse o direito de «expressar a sua interioridade».

Esteve na cobertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, ao serviço da RTP, mas estas não foram as primeiras olimpíadas em que participou como jornalista…
Estive em Sydney, Pequim, Londres e no Rio de Janeiro. Falhei apenas Atenas, em 2004, porque nessa altura estava a coordenar o centro de emissão da RTP, em Castelo Branco.

Estar presente nuns Jogos Olímpicos é o ponto mais alto da carreira de um jornalista?
Acima de tudo aprecio a diferença e o desafio. Considero-me um generalista. Os Jogos Olímpicos, onde quer que se realizem, permitem que o jornalista testemunhe realidades diferentes a que o comum do cidadão não tem todos os dias acesso. O jornalismo faz com que as pessoas consigam sonhar, porque surge com a vontade de conhecer as semelhanças nas diferenças de outros povos, outros sítios e outros hábitos. E umas olimpíadas permitem esta descoberta, com reportagens que vão bem para além do desporto. Contudo, o que se passa dentro dos estádios e dos pavilhões é que concita a atenção das pessoas. De quatro em quatro anos os telespetadores despertam para as modalidades como se as amassem loucamente. É gratificante estar como descodificador daquilo que as pessoas não conhecem ou não veem habitualmente e ser, ao mesmo tempo, o mediador entre a realidade do dia a dia dos atletas e a competição. Mas para além de gratificante, é desafiante. Eu gosto de desafios.

O facto de os Jogos terem sido disputados no Japão, um povo com uma cultura milenar, aguçou-lhe o engenho?
Sim, mas é habitual fazer isto nas minhas reportagens. O Japão sempre foi um povo que me deixou muitas interrogações e que ansiava descodificar. Tive muita pena de terem sido tantas as limitações ao meu trabalho, e que não se resumiram à pandemia. Os japoneses, de forma encapotada, tentaram disfarçar o estranho incómodo de terem sido obrigados a acolher as olimpíadas. Procurei que as reportagens que mandei para Lisboa não transmitissem as dificuldades e se focassem na substância.

Para além das restrições provocadas pela pandemia, e pela pouca colaboração demonstrada pelos japoneses, com que outras dificuldades se deparou?
A melhor maneira é dar-lhe um exemplo concreto: a prova de estrada de ciclismo estava agendada para o Monte Fuji, a mais de duas horas de Tóquio. E a organização disponibilizou um minibus de 20 lugares para transportar jornalistas de todo o mundo. Fiz uma reserva de lugar três dias antes – para mim e para o meu operador de imagem – e responderam-me negativamente. Como é que um povo organizado e metódico como são os japoneses não desdobrou os autocarros para acomodar as solicitações dos jornalistas de todo o mundo? Ou seja, é sinal de que não estavam ali para ajudar e facilitar. Mas com o que acabo de dizer não estou a criticar o povo, que teve sempre uma postura exemplar para connosco, mas sim o comité olímpico local. O povo estava receoso, porque o Japão é um país com uma taxa reduzida de vacinação, mas houve sempre a preocupação de tratar bem quem vinha.

Passou por uma odisseia quando esteve fechado no quarto de hotel e só podia sair 15 minutos para ir buscar comida…
Estive seis dias nessa situação, mas tal deveu-se a um erro burocrático das autoridades japonesas. Durante vários dias não respondiam aos nossos mails, nem às nossas alegações. Assumiram o erro ao fim desses seis dias, mas o prejuízo estava feito.

Não lhe restou alternativa que não fosse fazer entrevistas com os atletas através de videoconferência?
Sim. Temos de balancear sempre entre a importância da nossa missão e a realidade com a qual nos confrontamos. Apesar dos condicionalismos, os portugueses não podiam ficar privados de informação, mesmo estando perfeitamente consciente do absurdo da situação em que estava.

Confirma que os jornalistas foram ameaçados de expulsão caso infringissem as regras impostas?
Essa ameaça esteve sempre presente. Cheguei a ler – e não queria acreditar – um documento oficial que incentivava os habitantes locais a partilharem imagens de estrangeiros nas redes sociais sempre que os vissem a infringir as regras sanitárias. Para além disso, tínhamos a obrigação – sob pena de expulsão – de ter o nosso GPS e o “Bluetooth” ligados e mostrá-los às autoridades sempre que tal fosse exigido. Essas eram regras irrenunciáveis para se estar no Japão.

O domínio do inglês não é propriamente o forte dos japoneses. A língua foi um entrave?
Procurei demonstrar numa das peças que fiz que a língua nunca será uma barreira definitiva quando temos vontade de comunicar. Estivemos à mesa com um japonês e uma coreana e durantes duas horas e meia conseguimos falar da nossa vida, partilhando experiências culinárias e falando dos nossos filhos, sem partilharmos uma língua comum. Isso já me aconteceu anteriormente na Rússia e na China, por exemplo. A língua pode ser, numa primeira análise, um obstáculo, mas não é impeditiva para o ato de se dar e de partilhar.

Em 2024 os Jogos regressam à Europa, mais concretamente, a Paris. Espera que seja uma competição normalizada, sem pandemia e também sem obstáculos burocráticos?
Será o regresso a uma realidade europeia, um ambiente que nos é mais comum, de contacto fácil. Há também a particularidade de Paris ser, como se sabe, uma cidade muito portuguesa. Esperemos, também, que os constrangimentos da pandemia já tenham desaparecido por completo. E há ainda o aspeto de as provas se realizarem num fuso horário de apenas mais uma hora relativamente ao nosso. Não será, por isso, preciso ficar acordado de madrugada para ver as competições, como aconteceu em Tóquio. E isso já é uma grande vantagem para o público.

Está no desporto da RTP desde 1995, após nove anos na Rádio Renascença, na equipa liderada por Ribeiro Cristóvão. Mas o ponto de partida acontece na Rádio Clube de Monsanto. São as suas origens familiares que ditam esse começo?
Sim, comecei na Rádio Clube de Monsanto, na altura ainda «pirata» com o meu tio, Joaquim Fonseca. Foi ele que me ensinou tudo o que era preciso aprender e que consegui absorver. E também foi o responsável por me ter incutido o «bichinho» da rádio – que ainda é mais eficaz do que o coronavírus, porque quando entra nunca mais sai (risos). Depois vim para Lisboa e passei por algumas estações de rádio até ao momento do silenciamento dessas rádios «piratas». Quase logo a seguir entro na Rádio Renascença.

Onde fazia relatos e apresentou programas míticos como a «Bola Branca» e a «Frente Desportiva». Como foi pertencer à chamada «super-equipa» desportiva da Renascença?
O Ribeiro Cristóvão liderava uma equipa de jovens radialistas, onde se incluíam, para além de mim, o Pedro Sousa, o Paulo Catarro, o Valdemar Duarte, etc. Queria deixar uma palavra para o Ribeiro Cristóvão porque sempre teve uma capacidade inacreditável de puxar pelos que trabalhavam com ele para que dessem o melhor. Ele liderava pelo exemplo. Como? Exigia coisas inacreditáveis, mas era o primeiro a fazê-las, para demonstrar que eram possíveis. Devo muito do meu lado diferenciador como jornalista a esses anos de rádio com ele.

Como é que se dá o salto da rádio para a televisão?
O Ribeiro Cristóvão encontrava-se na RTP e informou-me que estavam interessados em reforçar a redação de desporto. Como editor que era da «Bola Branca» tinha muita rotina diária de ir atrás de notícias, para além de uma boa carteira de contactos, e eles queriam ter o meu contributo. Fui falar com o Mário Rui de Castro e em 30 segundos ficou tudo acordado. No dia seguinte comecei a colaborar, ainda sem pertencer aos quadros. Nessa altura, também reforçaram a equipa da RTP nomes conhecidos de todos, como é o caso do Pedro Martins, o Nuno Matos, o Carlos Severino, etc. A experiência em televisão permitiu-me que ficasse a saber a força da imagem por cima da voz. Mas, verdade seja dita, nunca deixei de amar a rádio. Aliás, parte do meu trabalho na televisão ainda é muito de narração.

Há vários anos que narra, na companhia do ex-ciclista Marco Chagas, a Volta à França e a Volta a Portugal em bicicleta. Ambiciona, um dia, cobrir, no terreno, o “Tour”?
Não me imagino. Mas quero sublinhar que a RTP tem, todos os anos, uma equipa acreditada no “Tour” caso seja necessário fazer uma reportagem na prova, nomeadamente algum feito alcançado por um ciclista português. O ano passado, no “Giro” de Itália, quando o João Almeida esteve vários dias com a camisola rosa, enviámos a Inês Gonçalves para cobrir os últimos dias da prova que terminou em Milão. Mas é preciso perceber que a RTP não tem capacidade para estar em todo lado onde estão atletas portugueses a competirem. A redação de desporto da RTP em Lisboa tem 10 pessoas. Não conseguimos estar em todo o lado, o tempo todo. Para ter uma ideia, desde o dia 27 de maio folguei três dias. Passou o europeu, depois foram os Jogos Olímpicos, com os horários que imagina…

O jornalismo está numa encruzilhada. A credibilidade está ameaçada apenas pelas redes sociais ou por culpa própria dos profissionais?
O jornalismo sobrevive, sim, e não está a morrer. O que falha é a identificação óbvia dos sítios onde o podemos encontrar. As pessoas não sentiram qualquer incómodo por o jornalismo passar a ser servido de graça nas redes sociais. As pessoas abdicaram de ter um sítio seguro onde encontrar notícias seguras, confiáveis e descontaminadas. Chegámos a um ponto em que a gratuitidade permite que um idiota qualquer que escreve no Facebook tenha a mesma visibilidade que um jornalista. O mesmo é dizer: uma verdade ou uma mentira têm o mesmo canal de contacto.

No atual contexto, o serviço público de informação faz cada vez mais sentido?
O serviço público de informação é cada vez mais relevante, seja na rádio, na televisão ou na agência, porque a única forma de preservar alguma coisa do que é de todos é manter a posse em todos. Acredito que é no serviço público que continuará a existir a salvaguarda do nosso interesse comum.

Durante o primeiro confinamento, em 2020, isolou-se em Monsanto, na Beira Baixa. O documentário que fez resumiu 300 dias de confinamento por obrigação clínica na aldeia mais portuguesa de Portugal. Como surgiu a ideia para este documentário, emitido em horário nobre, na RTP-1, e que foi distinguido com o «Premio Gazeta»?
A minha família é toda de Monsanto e estive confinado por conselho médico, por pertencer a um grupo de risco, sou diabético. Por isso, quando estou na aldeia a minha presença é sempre a captar algo. Comecei a ver que na TV passava muito o ângulo urbano das cidades vazias fruto do confinamento e procurei mostrar uma realidade que observava de perto, a do interior do país. Sem repórter de imagem, usei ferramentas como o telemóvel para a captação de imagem. Fiz a edição e acrescentei-lhe o som do piano, porque também sou músico nas horas vagas. Com autosuficiência e vontade de não enlouquecer o produto final foi o que os portugueses viram e também está disponível na internet.

Júlio Isidro definiu-o como «um criativo sublime da palavra e da imagem, comentador original, repórter curioso de mundos que nos passam sem os vermos, rei da Volta e assinante crónico dos Olímpicos». Como recebe estas palavras de um decano da nossa televisão? Este é o melhor prémio que recebeu?
Esse é, de facto, o prémio. O Júlio Isidro é um comunicador com uma capacidade invulgar. Infelizmente, já fechou a fábrica onde ele foi feito. Uma vez soube que o Júlio estava a dar uma formação e utilizei um dia que tinha de folga para assistir a essa sessão. É um professor fabuloso. E imagine o que é receber elogios deste professor…

Para concluir, fale-me um pouco da sua experiência no centro de emissão regional da RTP, em Castelo Branco. Como é que surgiu essa oportunidade?
O jornalista José Manuel Barata-Feyo, um grande beirão, criou o centro de emissão regional da RTP, em Castelo Branco, e foi aberto um concurso interno para coordenar a delegação. Concorri e ganhei o concurso. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida como jornalista e em que consegui colmatar uma certa invisibilidade a que aquela região estava condenada, à mercê da ditadura das maiorias que se localiza quase sempre junto ao mar. Sempre acreditei que a região de Castelo Branco tinha o direito a expressar a sua interioridade e nos dois anos que lá estive como coordenador foram transmitidas mais de 700 peças na RTP-1, espalhadas pelo «Bom Dia», «Jornal da Tarde» e «Telejornal».

 

Cara da notícia

A voz do “Tour” e da “Volta”

 

João Pedro Mendonça nasceu em Lisboa, a 1 de maio de 1968. É editor de desporto na RTP, onde está desde 1995, tendo liderado a equipa da estação pública que cobriu os Jogos Olímpicos de Tóquio. Anteriormente, esteve nas olimpíadas de Sydney, Pequim, Londres e Rio de Janeiro. A sua primeira experiência na comunicação aconteceu na Rádio Clube de Monsanto. Em 1989, entrou na Rádio Renascença, onde fez centenas de relatos e editou programas de renome como a «Bola Branca» e a «Frente Desportiva». Esteve nos mundiais de futebol da Coreia do Sul/Japão e na África do Sul. Há vários anos que, todos os verões, comenta, na RTP, as transmissões da Volta a França e da Volta a Portugal em bicicleta, na companhia de Marco Chagas.

Nuno Dias da Silva
Direitos Reservados
 
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