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Paulo Paixão, virologista «As mutações do vírus podem tornar mais difícil a imunidade de grupo»

25-01-2021

O professor da NOVA Medical School acredita que o surgimento das novas estirpes pode atrasar o objetivo de ter, pelo menos, 60 a 70 por cento da população imunizada. Paulo Paixão admite que o fecho das escolas, entre 15 dias a um mês, fará a diferença no esforço coletivo para reduzir o número de casos.

Este segundo confinamento não está, à primeira vista, a resultar e, no momento em que falamos, o primeiro-ministro acaba de anunciar o endurecimento das restrições. Que explicações encontra: fadiga pandémica, irresponsabilidade social ou medidas mal comunicadas?
Para começar, houve erros, a vários níveis. A começar pelos políticos. O primeiro-ministro, em articulação com as autoridades de saúde, devia ter definido, quando anunciou as medidas para o período festivo, o número de pessoas que podiam estar juntas na celebração do Natal. Pelo contrário, afirmou que confiava na responsabilidade dos portugueses e o resultado está à vista. Isso é um argumento muito bonito de dizer por um político, mas apenas isso. Eu sei de exemplos de pessoas, do meu pequeno universo, que juntaram quatro e cinco agregados familiares. Em salas pequenas reuniram 20 pessoas.

O que defende que devia ter sido vivamente recomendado?
Por exemplo, que as pessoas se juntassem apenas duas horas na noite de Natal, em vez das seis ou sete horas que habitualmente passamos. Este número de horas de contacto faz uma grande diferença em termos do risco de contágio. O que aconteceu foi a intervenção que vimos, a este propósito, protagonizada pelo subdiretor geral de saúde, uma pessoa reconhecidamente de extrema competência, mas com umas opiniões muito particulares.

Quer dizer que falhou a comunicação?
Para começar, as medidas restritivas para o Ano Novo deviam ter sido aplicadas no Natal. Para além disso, não houve uma campanha ou uma medida concreta relativa aos festejos natalícios, quando todos os especialistas alertaram, no devido tempo, que este período podia levar à inversão da curva descendente dos casos. E foi precisamente o que aconteceu. Recordo-me que na semana do Natal foram divulgados uns “placards” publicitários alertando que quem não usar máscara corre o risco de ir parar aos cuidados intensivos, mas a meu ver, apesar de não ser um especialista em comunicação de saúde, tratou-se de uma mensagem muita vaga.

Agora que a casa foi roubada, é preciso pôr as trancas à porta. Como reduzir drasticamente números diários de casos acima dos 10 mil?
Eles vão começar a baixar com as restrições em vigor. Mas será lentamente. E os dados da mortalidade são, sempre, os últimos a descer, com um desfasamento, em média, de duas semanas. Até lá, estou em crer que as próximas semanas vão ser completamente caóticas. A saturação nos hospitais é tremenda e às outras patologias, fora da Covid-19, não é dada a resposta adequada. Em Portugal, temos, em média, 300 óbitos por dia. Atualmente esse número já supera os 500 diários. Isto é uma grande sobrecarga para os hospitais e que faz com que entremos já no capítulo das escolhas que os médicos têm de efetuar para salvar a vida de uns, em prejuízo da vida de outros. Tenho 60 anos e não me lembro que alguma vez isto tivesse acontecido, em Portugal.

Os especialistas alertam que os desconfinamentos não devem ser súbitos, mas sim graduais. Que ensinamentos devemos retirar da primeira experiência e adotar neste segundo desconfinamento?
O desconfinamento terá de ser gradual. Comparativamente com o primeiro desconfinamento, temos a novidade de já estarmos em pleno processo de vacinação, apesar de sabermos que a imunidade de grupo ainda está distante. Aliás, a pessoa já vacinada não deve aligeirar, de forma nenhuma, as suas medidas de proteção individual.

Até a imunidade de grupo ser alcançada não se pode baixar a guarda…
Há uma ideia que eu repito à exaustão sobre as principais formas de transmissão e que, se me permite, volto a fazê-lo: as pessoas quando se infetam, por exemplo, no local de trabalho, não é sentadas, diante do computador. É nas pausas, no almoço e no café. Sempre foi assim. Tenho imensos exemplos na faculdade e no hospital onde trabalho. Os próprios profissionais de saúde que são infetados, em muitos casos, por doentes, também têm momentos em que baixam a guarda e são apanhados pelo vírus.

O caso dos restaurantes gerou muita polémica. O risco à mesa é mesmo muito grande?
Depende das pessoasque nos acompanham na refeição. Eu tenho convites para almoçar e jantar de casais amigos. E só o tenho feito com a minha mulher e os meus filhos mais pequenos. Ponto final.

Mas, por exemplo, as discotecas e os bares, mesmo após o próximo desconfinamento, terão de continuar encerrados…
Claro que sim. A abertura total para este tipo de estabelecimentos só acontecerá quando houver imunidade de grupo.

Estima-se que seis em dez infetados sejam assintomáticos. É a capacidade de contágio do vírus, agora aumentada pela nova estirpe, que o torna tão perigoso?
A mortalidade deste vírus é um pouco superior ao da gripe e ao de outros vírus respiratórios, mas o seu grande traço distintivo é a contagiosidade. Mas é preciso dizer que a mortalidade é claramente inferior a outros coronavírus. O MERS tinha uma mortalidade de 10 por cento. O primeiro SARS, que teve origem no Médio Oriente, registou uma mortalidade de 30 por cento. Por sorte, a transmissão inter-humana é muito mais baixa do que no caso do SARS-COV-2. O atual coronavírus tem demonstrado que se adapta muito bem ao meio, o que explica as várias variantes que têm sido identificadas.

A variante inglesa vai ser prevalente em termos globais?
Para além da contagiosidade, a mutabilidade do vírus é outra das grandes preocupações. Os dados iniciais indicam que a mortalidade não aumentou, mas o facto de a mutação fazer com que o vírus se “agarre” mais facilmente aos recetores é que gera grande apreensão. As primeiras estimativas apontam para um aumento da taxa de contagiosidade em 70 por cento. E, claro está, quantos mais casos surgirem, a mortalidade crescerá proporcionalmente.

O estilo de vida das sociedades modernas e a multiplicação das megacidades foram terreno fértil para o vírus alastrar?
Este é um vírus que se alimenta da globalização e das sociedades híperpovoadas. É aquilo a que se chama uma infeção emergente, e na base das infeções desta natureza reside o estilo de vida das sociedades modernas, muito populosas, com elevada mobilidade e com grande contacto com “habitats” de animais. Aliás, está provado que a origem é no morcego. Mas não terá passado diretamente para o humano. Passou por algum sítio.

Um ambiente laboratorial, por exemplo?
Isso é mais a teoria da conspiração, mas não considero que seja impossível, até porque pode ter sido causado por um qualquer acidente. Isto tem passado ao lado das notícias, mas nunca tivemos como agora tantos surtos de Ébola em África. Porquê? A população aumenta e explora territórios ocupados por espécies animais, seja morcegos ou primatas.

Mas o Ébola, ao contrário do SARS-COV-2, mata o hospedeiro, dificultando a transmissão…
Ora bem. O Ébola é pavoroso, transmite-se facilmente, mas como não tem transmissão respiratória, a quebra nas suas cadeias de transmissão pode ser feita através de medidas rigorosas. A própria SIDA, teve um grande impacto nos anos 80 e 90, mas por se transmitir por contacto sexual, pode ser controlada. Nada que se assemelhe a esta explosão em menos de um ano da Covid-19.

Tinha expetativa que em menos de um ano a vacina estivesse disponível?
Esperança tinha, mas confesso que fiquei agradavelmente surpreendido. Estas vacinas de RNA são as primeiras, deste tipo, administradas a humanos. Isto para dizer que teoricamente era possível, até porque já decorriam vários ensaios, mas a dúvida que pairava era: «será que vai tudo correr bem?». Felizmente os ensaios tiveram sucesso, e a maior parte das vacinas tem uma eficácia superior a 90 por cento. O que é brutal.

A confiança nas vacinas mantém-se inabalável?
O processo de vacinação em massa tem as suas desvantagens. Explico: temo que nos tempos mais próximos tenhamos notícias de pessoas que morreram depois da vacinação e cuja ligação vai ser feita a esse ato. Deve-se sempre investigar a natureza dos óbitos, mas esta coincidência temporal pode ser terrível para a confiança das pessoas. Acredito que, como foi anunciado pelos fabricantes, a segurança das vacinas é praticamente total.

Foi o Papa Francisco que apelidou os antivacinas de «negacionismo suicida». Acredita que estes movimentos vão ser derrotados?
Esta luta é contínua. Haverá sempre uma franja da população que vai oferecer resistência. Mas creio que a aceitação dependerá do êxito e da celeridade da campanha de vacinação em curso. Lembro-me que quando foi a pandemia da gripe suína, o H1N1, há 11 anos, a vacinação também foi questionada e foram levantadas suspeitas sobre a causa de algumas mortes.


E qual é a parcela da população que precisa de estar imune ao vírus para podermos cantar vitória?
Segundo os cálculos dos epidemiologistas, oscila entre 60 e 70 por cento. Mas essas projeções têm por base contextos distintos e situações diferentes. Mas há variáveis que podem baralhar essas estimativas. Por exemplo, a questão da reinfeção. E o aparecimento das novas variantes não nos garante que a pessoa já infetada ou vacinada não possa ser infetada novamente. A capacidade de adaptação que o vírus está a demonstrar pode tornar mais difícil o objetivo da imunidade de grupo.

Pode significar que teremos de ir mais além dos 60 ou 70 por cento da população com imunidade?
É possível.

Mesmo que seja obtida a imunidade de grupo, vai ser preciso vacinar a população anualmente?
Certamente. Primeiro, porque pelo que estamos a ver a imunidade não dura mais do que um ano. E depois, quanto mais o tempo passa, e com as mutações que o vírus tem tido, esse cenário é inevitável porque os nossos anticorpos já não nos vão proteger. Mas também é preciso desdramatizar. Não é uma situação nova. Com a gripe também é assim.

Já sabe quando é que vai ser vacinado?
Tenho 60 anos e não sei quando vou ser vacinado. Aguardo que chegue a minha hora. Trabalho na área laboratorial, mas não estou na linha da frente. Apesar de já ter tido contactos de risco com pessoas infetadas no meu laboratório.

O plano de vacinação gerou grande celeuma. As prioridades definidas pela comissão técnica foram as mais sensatas?
As críticas podem ser sempre feitas mas, honestamente, creio que as prioridades foram definidas de forma sensata. Bem sei que não é possível agradar a todos, mas seria difícil fazer diferente tendo em conta a limitação das doses de vacinas que estão, para já, disponíveis. Quanto à polémica em torno da vacinação dos políticos defendo que os representantes dos órgãos de soberania – e apenas esses – deveriam ter sido vacinados numa primeira fase.

Os professores deviam integrar os grupos prioritários?
Como não é possível vacinar os 10 milhões de portugueses em poucas semanas, é preciso fazer escolhas. Admito que deviam estar à frente da maior parte da população. Mas é preciso definir o que são grupos prioritários. Respeitando as medidas de distanciamento e uso de máscara, o risco de um professor ser infetado por um aluno é muito baixo. Pela informação que tenho o número de docentes que terá sido infetado por alunos é mínimo. Mas também lhe digo: se eles fizeram uma pausa e na sala dos professores forem tomar café com colegas, o mais provável é que sejam contagiados.

Já há evidência científica que as crianças são pouco transmissoras do vírus?
Os estudos apontam nesse sentido. Explica-se pelo que se designa por imunidade inata, que são os mecanismos de defesa imediatos da pessoa. É isso que justifica que umas pessoas se infetem e outras não. E depois há outra coisa que é a imunidade adquirida, que são os anticorpos que aparecem. Os estudos indicam que as crianças têm uma imunidade inata mais forte do que os mais crescidos, o que justifica que tenham menos infeções e as que acontecem serem menos graves.

O fecho das escolas neste segundo confinamento foi inevitável?
Estamos na situação mais difícil da pandemia – em que há médicos que já têm de tomar decisões angustiantes em cuidados intensivos – e creio que o fecho das escolas fará com que os resultados do confinamento sejam mais efetivos. Bem sei que o anterior confinamento nas escolas foi praticamente de março até setembro. Foi muito violento para as crianças. Mas na atual situação penso que 15 dias ou um mês de paralisação pode ser suficiente. Isso já fará a diferença.

A ciência foi protagonista no último ano. Nunca se falou tanto de epidemiologistas, virologistas e outros cientistas. Esta é uma moda passageira ou deixará lastro?
A memória das pessoas é curta. Penso que quando esta crise sanitária for ultrapassada os governos e também as pessoas vão focar-se, em primeira análise, na recuperação económica. Contudo, penso que no campo de ação dos médicos de saúde pública, vamos ter melhorias, face ao que existia. O que também não é difícil, visto que esta área sempre foi uma espécie de parente pobre da saúde. Habitualmente, só nos lembramos da saúde pública quando há surtos.

No campo da investigação científica as verbas para os projetos são as suficientes ou também aqui se fazem omeletes sem ovos?
Faz-se muita investigação em Portugal, mas é claro que faltam verbas. Nem acredito que num futuro próximo a situação melhore, até pela crise económica que atravessamos. Eventualmente, pode haver apoio extra para o desenvolvimento de projetos para a Covid-19.

Preside à Sociedade Portuguesa de Virologia. Estes profissionais têm uma especialização neste domínio ou o seu conhecimento é generalista?
Não há uma especialidade em virologia, mas há muita gente a trabalhar nesta área. É uma área muito dispersa. Estes profissionais têm origem em áreas distintas: temos médicos, farmacêuticos, infeciologistas, biólogos, bioquímicos, etc. Mas costumamos dizer que os «verdadeiros» virologistas são os que trabalham a nível laboratorial na investigação de vírus

 

Cara da Notícia

Presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia

 

Paulo Paixão nasceu a 2 de junho de 1960, em Lisboa. É médico, licenciado pela Faculdade de Medicina de Lisboa. É professor na NOVA Medical School, instituição onde concluiu o seu doutoramento, e onde coordena o plano Covid-19 para aquela faculdade, localizada no Campo dos Mártires da Pátria, na capital. É diretor do Synlab, o laboratório de patologia clínica do Hospital da Luz, em Lisboa. Preside à Sociedade Portuguesa de Virologia há mais de uma década. Nos últimos meses, tem sido presença regular nos meios de comunicação social para comentar a propagação do coronavírus na sociedade.

Nuno Dias da Silva
Direitos Reservados
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