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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXV

Maria João Avillez, jornalista ‘A culpa não é só dos políticos’

14-12-2021

Nome incontornável do debate político e das grandes entrevistas às principais figuras do Portugal democrático, Maria João Avillez lamenta a degradação do ar político e do espaço público e defende que depende dos portugueses a mudança de direção e de rumo que o país está a levar.

No seu livro “As sete estações da democracia” entrevista personalidades do mundo da política atual que conheceram, confrontaram e agora convida a que interpretem os papéis no regime democrático de sete incontornáveis protagonistas da construção do regime democrático: Mário Soares, Sá Carneiro, Cavaco Silva, António Guterres, Passos Coelho, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. Que marca deixaram, individualmente, cada um destes sete líderes?
Deixaram o que de melhor tinham dentro de si: capacidade de liderança, pensamento, capacidade estratégica e exemplo. Fizeram-no cada um à sua maneira, consoante a sua personalidade e com resultados desiguais. Preferia não individualizar. O que conta é que serviram o país.

A ideia do livro surgiu em plena pandemia, em que teve o impulso de escrever sobre os “ismos”, tendo o “Costismo”, em referência ao atual primeiro-ministro, sido o primeiro que lhe ocorreu. Mas anteriormente existiram o “Soarismo”, o “Cavaquismo”, o “Guterrismo” e o “Passismo”, apenas para citar alguns. Consegue apontar a tendência que mais condicionou/influenciou a política portuguesa?
Comecei com o “costismo” porque António Costa era quem estava no governo e no poder. Começa-se pela atualidade, tanto mais que não era para ser um livro, mas sim apenas uma entrevista/análise sobre o poder de então. Quando comecei estava longe de saber que se seguiriam outros “ismos” e mais tarde até um livro. Foi, porém, devido ao sucesso da primeira entrevista sobre o líder socialista que decidi ir andando. E fui. Até ao livro que hoje aí está e onde as sete entrevistas reluzem: valorizaram-se muito entre si e lidas em conjunto dão uma boa ideia – ou ajudam a tê-la – sobre a nossa história recente. Não quero – e não posso – deixar de acrescentar que esse “reluzir” se deve em grande parte aos “cicerones” a que recorri para as diversas conversas.

No prefácio, o professor catedrático Carlos Gaspar escreve que é «a cronista da democracia portuguesa», com mais de quatro décadas como testemunha privilegiada da vida política. Que acontecimento ou acontecimentos, que tenha vivido de perto junto dos protagonistas, é que elege como tendo sido decisivos para o Portugal de hoje?
Mário Soares antes de qualquer outro porque combateu a revolução comunista com o país e o povo português atrás dele. Ja combatera o “salazarismo”, voltou a fazê-lo quando a madrugada libertadora de abril de 74 se transformou na espantosa ameaça de uma ditadura comunista. É uma pena – pior, é um grave erro – estar tudo isto hoje tão esquecido, nomeadamente pela juventude que julgará que a democracia em Portugal foram “favas contadas”. Não foram. Houve gestos de inconcebível prepotência, gente presa sem sombra de culpa formada, simulação de fuzilamentos, jornais amordaçados, permanentes alterações da ordem pública, ocupações a eito de casas e herdades, medo e muita incerteza sobre o desfecho. Mário Soares foi crucial no inverter desse estado de coisas, ou melhor desse “estado de revolução”. Não o fez sozinho – teve consigo o povo português, os militares moderados, a sociedade civil, a Igreja, alguns políticos estrangeiros que publicitaram o seu apoio – mas se não fosse ele tudo teria sido mais duro: que sucederia à liberdade, à democracia, ao Estado de Direito? A nós?

Depois de Soares, seguiu-se Cavaco Silva…
Muito mais tarde, em 1985, chegou Aníbal Cavaco Silva. Após ter ganho a sua primeira maioria absoluta dois anos depois, nas eleições de 1987, meteu mãos à obra e começou a reformar o país: iniciou as privatizações – banca, seguros, comunicação social – tornou possível a criação de duas televisões privadas (SIC e TVI), fez o Museu de Serralves e o CCB, criou novas infraestruturas – auto-estradas, novas vias, pontes, etc. A lista é longa e eloquente da marca que deixa no país (e que a esquerda ainda hoje não reconhece). Infelizmente, não teve continuadores com o mesmíssimo impulso reformador, o mesmíssimo ânimo e um agudo sentido do interesse nacional. Muito havia – há – ainda para fazer.

Conheceu de perto Francisco Sá Carneiro e mais de 40 anos após o seu desaparecimento são frequentes as evocações à sua vida e obra. Bem sei que é impossível fazer futurologia, mas se não tivesse existido o acidente fatal de Camarate, e o então primeiro-ministro continuasse nas lides políticas, que outro legado podia ter sido deixado pelo histórico líder social-democrata?
Continuaria igual a si mesmo: a lutar incansavelmente – e por vezes polemicamente, era uma das suas marcas genéticas – pelos valores em que acreditava e queria praticar em futuras governações se voltasse a ganhar. Mas seria igual na oposição como no poder, no Parlamento, no seu partido. Os valores foram sempre os mesmos: liberdade, democracia plena, economia de mercado, justiça social, decência, sentido de Estado e interesse nacional, antes do mais.

Se fosse vivo, Francisco Sá Carneiro teria 86 anos. Já pensou o que este «senador» da vida política diria perante a encruzilhada do espetro político mais à direita?
Não, não pensei. Não costumo olhar demasiado para trás, nem perder tempo com conjeturas abstratas sobre o que não aconteceu. De Sá Carneiro o que importa e vale a pena reter é o exemplo de alguém que nunca desistiu nem contemporizou com o que considerava errado ou nefasto para Portugal. E nesse sentido a “visita guiada” que Pedro Santana Lopes faz ao “Sá Carneirismo” neste meu livro é muito reveladora: está lá um formidável retrato de Francisco Sá Carneiro.

A opinião pública é, por norma, muito crítica, salvo raras exceções, com o desempenho da classe política. Admite que os políticos que governaram desde o 25 de abril têm tido maior foco nas próximas eleições, em vez de se preocuparem, como fazem os verdadeiros estadistas, com as próximas gerações?
Tem havido alguma deterioração da política, da qualidade cívica, cultural e moral de alguns dos seus vultos, do próprio espaço público a par de um, para mim inexplicável, alheamento da nossa sociedade civil face a esse quadro negativo. Os partidos estão fragmentados, o ar político parece por vezes necessitar de ser desinfetado, o espaço público já conheceu melhores dias, o ressentimento e o insulto tomaram conta das redes sociais. Não há limites, nem travões: manipulam-se factos, distorcem-se narrativas, mente-se quando é “preciso”. Falta-me, porém, acrescentar o essencial: no meio de tanto joio, há bom trigo. O que é outra forma de lembrar que a “culpa” não é só dos políticos. O país é nosso, a sua menorização diz-nos respeito, a questão é connosco.

Falemos agora do presente político. Ainda em contexto pandémico o país vai a votos a 30 de janeiro. Todos os analistas apontam para que os resultados ditarão um Parlamento muito fragmentado. Este provável «berbicacho» contorna-se com a recuperação da “geringonça” à esquerda, com o emergir de uma “geringonça” de direita ou com o reeditar do Bloco Central, nos moldes de 83-85 ou com outra perspetiva?
A palavra “berbicacho” é quase leviana ou superficial para a gravidade e a incerteza deste momento. Ambas agora mais pesadas com a ameaça do novo vírus. Mas a resposta – paradoxalmente – é simples: se houver patriotismo e vontade política; se o interesse nacional for prioritário em relação ao cálculo político-partidário, haverá um governo digno desse nome ao serviço do país. Se não houver, é porque a degradação a que acima aludi é ainda maior. Ou seja: ou se torna Portugal prioritário na “agenda” ou não se torna: não conheço outro critério para avaliar da bondade de um projeto político nacional.

Antecipa que o Bloco de Esquerda e o PCP serão as forças mais penalizadas nas urnas por não terem viabilizado o Orçamento do Estado 2022 ou, de alguma forma, os danos colaterais podem atingir também o partido do governo?
À hora a que respondo a estas perguntas não tenho a cabeça “pronta” para poder dizer com seriedade alguma coisa de substancial. É preciso ver mais, perceber mais, ouvir mais. É a tal coisa: se os portugueses quiserem respirar um ar mais arejado e com vontade de tirar o país dos humilhantes últimos lugares das escalas do desenvolvimento económico e social, mudar-se-á de direção e de rumo. Se – como aparentam – acharem que “se vai andando”, tudo continuará como estava: pode haver mudanças, mas elas não passarão de meras alterações.

Critica o que diz ser uma complacência mediática com a esquerda, nomeadamente «por ter levado ao colo a geringonça e António Costa» e ter sido impiedosa com os governos de Cavaco, Barroso e Passos Coelho. Significa isto que os órgãos de comunicação social em Portugal são dissimuladamente de esquerda?
Não. Significa que serão naturalmente de esquerda. Por genética, escolha, gosto, militância, preferência, frete ou seja o que for, amam muito a esquerda e pouquíssimo o centro direita e a direita. Muito frequentemente louvam a primeira e sentem fastio pela segunda. É ir à Biblioteca Nacional ler os jornais ou rever telejornais e comparar o tom mediático face a uma governação de centro-direita ou face a um governo de esquerda. É um exercício que nunca falha.

Transitou da TVI24 para a nova CNN Portugal como comentadora de política nacional. Quais são as suas expetativas relativamente a este projeto e a forma como será recebido pelo público português?
É grande a curiosidade e a atenção face à CNN Portugal. A expetativa é real e há bons motivos: o desafio é imenso. O melhor que podia acontecer era que a CNN nos surpreendesse, o pior que... nos desse “mais do mesmo”.
Iniciou a sua atividade profissional como jornalista, ainda estudante, com 17 anos, uma prática pouco frequente nos dias de hoje. A concorrência desigual das redes sociais, a carência de investimento e a falta de memória nas redações são dificuldades de grande envergadura ao modo de fazer jornalismo. Como é que se contornam estes obstáculos, de maneira a apresentar projetos jornalísticos maduros, credíveis e que acrescentem valor para os leitores ou para os telespetadores?
É verdade: o que enunciou são indiscutivelmente obstáculos a um jornalismo sério e empenhado. Mas é difícil a alguém que como eu começou muito nova e num ambiente e circunstâncias totalmente diferentes, encontrar – e discorrer – sobre o que fazer para contornar esses pesados “muros”. Muito do que então se fazia, quando os principais fornecedores de informação eram os jornais, é hoje anacrónico. A carência de investimento relaciona-se com a escassez de mercado e de consumidores de um país pequeno. E as redes sociais e a irresponsabilidade com que se espalham notícias falsas só podem ser combatidas pela consciência de quem consome informação. Há, claro, os imprescindíveis reguladores – da ERC à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, passando, no caso das televisões, pela ANACOM – mas a consciência podia e devia ser afinal o regulador número 1….e muitas vezes – ou quase sempre? – não o é.

 

 

CARA DA NOTÍCIA

 

O último retrato de Sá Carneiro

 

Maria João Avillez nasceu a 4 de fevereiro de 1945, em Lisboa. Começou no Jornalismo apenas com 17 anos e ainda estudante. Desde então, nunca mais parou. Na televisão, na rádio e nos jornais. Foi redatora principal do “Expresso”, notabilizando-se na área política e colaborou em diversos órgãos de comunicação social – “Público”, “Diário de Notícias”, “Sábado”, TSF, Rádio Renascença, SIC-Notícias, TVI e RTP. Transitou da TVI 24 para a nova CNN Portugal, como comentadora de política nacional, e é colunista no Observador. Ganhou em 1982 o Prémio EFE de Jornalismo, com um trabalho intitulado “Sá Carneiro – O último Retrato”, atribuído à melhor reportagem sobre o recentemente falecido primeiro-ministro. No mesmo ano biografou Francisco Sá Carneiro, o homem e político, em “Solidão e Poder”. «Ditadura e revolução» é o nome da biografia de Mário Soares, também da sua autoria. Foi ainda, entre 1987 e 1989, assessora no gabinete do ministro da Educação, Roberto Carneiro. Tem 11 livros publicados, o último dos quais foi lançado há poucas semanas e chama-se «As sete estações da democracia – Sete testemunhos decisivos», com a chancela da D. Quixote.

Nuno Dias da Silva
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