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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXV

Editorial Por uma escola autónoma e reflexiva

18-03-2022

Para se defender um maior grau de igualdade, de liberdade e de autonomia na escola, é necessário ter em conta o contexto em que os docentes desempenham a sua actividade profissional, ou seja, perceber o que professores e alunos podem (ou não) fazer, enquanto membros de uma instituição viva e detentora de uma cultura organizacional singular.
A organização formal da escola, constrangida pelas exigências do poder político e da sociedade civil, determina, desde logo que a autonomia e a liberdade se traduzam frequentemente numa "realidade virtual", já que se considera como adquirido que o Estado, as famílias e a sociedade têm o direito e o dever de saber o que se faz (e como se faz) em cada segmento do sistema educativo, elaborando, para esse fim, um indeterminado (e quantas vezes incompreensível) número de normativos reguladores desse controlo.
Com esta forma de agir, os problemas sociais e os problemas políticos transformam-se, rapidamente, em problemas educativos. Cada vez que aparece uma nova dificuldade social, tal como a propagação do consumo de estupefacientes, ou o aumento da violência entre os jovens, ou a dependência dos equipamentos informáticos, da internet e das redes sociais, aparece sempre alguém, bem intencionado, que pretende solucioná-lo, elaborando os correspondentes procedimentos educativos, e considerando as escolas e os professores como o rosto público, responsável pela sua solução.
Com essa delegação de competências, a sociedade altera a semântica do seu discurso, esquece a origem social dessas dificuldades e a análise das suas causas. E, ao alterar as razões e causas que geram estes fenómenos sociais, acrescenta-se mais uma nova utopia às imensas exigências utópicas que já recaem sobre a educação, diminuindo o seu grau de independência e autonomia em relação aos restantes agentes educativos.
Em resumo, a responsabilidade de enfrentar estes dilemas sociais desliza, imperceptivelmente, para a escola e para os professores, enquanto que o resto da sociedade considera que, ao delegar na escola essas responsabilidades, pode inibir-se das suas próprias obrigações face a estas novas dificuldades sociais. Como se ao declarar que, a partir desse momento, se trata de um problema educativo, ocorresse o milagre da escola se constituir, por si só, como o factor fundamental para a sua solução.
A questão é que cada vez crescem maiores expectativas sociais sobre a escola. Cada vez se exige aos nossos professores que assumam um maior número de responsabilidades e competências. E, a reboque destas novas obrigações e exigências, sem qualquer esforço de formação acrescida ao longo da carreira, vamos transformando os nossos professores em condicionais inabilitados, condenando-os, por isso mesmo, a um regime de incertezas e desalentos no exercício da sua profissão.
Daí que se considere necessário conceber e viabilizar a escola como comunidade educativa, pluridimensional, formativa e com características de autonomia nas dimensões curricular, pedagógica e administrativa, gerida com a participação da comunidade escolar e local e em interacção permanente com esta. Se a construção da igualdade, da autonomia e da liberdade na escola parecem objectivos de difícil alcance, se em grande parte das nossas escolas esses objectivos não passam de um discurso de intenções, torna-se urgente fazer coexistir na escola os mesmos princípios que presidem à sociedade democrática e inclusiva.
Torna-se urgente a necessidade de levar à prática a evidência banal de que uma escola menos desigual é uma escola igual para todos, através de uma clara diferenciação das práticas escolares e do redimensionamento da construção do que deve ser uma escola com um olhar colocado no futuro.
Pais e educadores terão que perceber que a liberdade e a criatividade terão que abarcar o direito à livre escolha e uma progressiva passagem da omnipresença à observância, da dependência à autonomia. Autonomia que também terá que expressar o uso adequado dos tempos livres, com uma objectiva selecção dos meios de os gerir e consagrar.
As escolas transformaram-se, ao longo dos anos, em campos murados e cercados onde imperam regras, normas e modelos de comportamento. Muitas vezes perdeu-se a relação com a vida, com o Homem, com o mundo da sociedade global e do conhecimento.
Por isso, urge que se reinvente a escola. Mas atenção! Pobres de espírito os que julgarem que essa renovação se fará por decreto, ou por imposição externa. A reinvenção da escola, como centro educacional, democrático, participativo e inclusivo terá, forçosamente, que partir de dentro para fora. A começar por dentro de cada um de nós. É que não se faz um mundo novo com espíritos resistentes à mudança e ao encanto da inovação.

 
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