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Opinião Livros & Leituras

24-01-2022

O fascínio pelo astro-rei está inscrito na mais pequena célula de todo e qualquer organismo vivo. A adoração pelo Sol foi, talvez, a primeira manifestação, desde a mais remota antiguidade, da atracção pelo mistério que está na origem da vida. O Sol, na sua rica e complexa simbólica, preside à existência diurna, acompanhada pelo reverso nocturno, para completar o ciclo diário, parcela do ciclo anual das estações. Houve civilizações que nunca esqueceram essa ligação ao fogo celeste e fizeram disso o seu credo.
Sol (Sistema Solar), de D.H. Lawrence reúne um conjunto de textos que apontam para essa realidade ancestral, que ainda perdura em certas culturas humanas. O autor foi um adorador do sol, por necessidade de saúde e fascinação pessoal. Além dos poemas, este volume, mais um livro desta excelente colecção, oferece ao leitor uma reportagem sobre a dança da serpente dos Hopis, a novela da mulher branca que fugiu a cavalo, e o conto que dá título ao conjunto, com a apresentação, sempre pertinente, do tradutor Aníbal Fernandes. “E depois de tudo isto o sol dentro do átomo/que é deus no átomo”.
A Confissão e a Culpa (Caminho), de Germano Almeida (n. 1945, ilha da Boa Vista), é o terceiro tomo da Trilogia do Mindelo, que inclui O Fiel Defunto e O Último Mugido, onde se conta com muita verve e humor as desventuras do Engenheiro Edmundo do Rosário, que assassinou o célebre escritor Miguel Lopes Macieira, em plena sessão de apresentação do mais recente e, afinal, derradeiro livro. Quais as razões que o levaram a tão tresloucado acto? O que ganhou como isso a viúva chegada às pressas do estrangeiro? Que enredos se formaram depois do passamento do dito? O que alega em sua defesa o confesso assassino? Tudo se vai desvendando nesta saga cabo-verdiana que serve para pintar um quadro da vida nas ilhas, as suas histórias e personagens, em bom e cuidado falar escrito, que enobrece o arquipélago do português como língua universal.
O Sonho da China (Quetzal), de Ma Jian (n.1953, Qingdao), é um escritor que vive exilado em Inglaterra, com os seus livros a serem proibidos no país natal, por serem ferozmente críticos do regime ditatorial de Pequim. Este relato conduz-nos ao presente, em que o recém-nomeado director da Repartição do Sonho da China, que se destina a substituir os sonhos privados, por via da tecnologia, por um único e grandioso sonho comum, parte integrante do “plano de rejuvenescimento nacional” lançado por Xi Jinping, se vê, subitamente preso nas memórias do seu passado. Acontece que fora um “guarda vermelho”, no tempo da orgia destrutiva que foi a Revolução Cultural, e essa intromissão inesperada ameaça o seu estatuto de alto quadro da administração e do partido, e as suas regalias de burocrata sibarita. Uma sátira impiedosa da China actual.
1000 Anos de Alegrias e Tristezas (Objectiva), de Ai Wei Wei (n. 1957, Pequim), são as memórias do artista chinês, actualmente a residir no Alentejo, e um tributo à memória do pai e um legado ao filho pequeno. Ai Qing foi um poeta de renome, que vivera em Paris nos anos 20, condenado ao exílio interno por diversas vezes, por “desvios ideológicos”. O filho acompanhou-o, ainda pré-adolescente, num desses degredos, deixando uma marca profunda. Logo que pode viajou para Nova Iorque, onde viveu por uma dúzia de anos, e se afirmou como artista plástico, utilizando diversos suportes expressivos. De regresso à China, começa uma actividade sem paralelo, empregando os novos meios de comunicação da internet, o que vai proporcionar uma ampla audiência e uma cada vez maior perseguição pelas autoridades, culminando com a prisão e posterior exílio na Europa. O livro não é somente uma memória pessoal e familiar, mas uma história do último século chinês visto por dentro.
História da China (Temas e Debates/Círculo de Leitores), de Michael Wood (n. 1948, Manchester), historiador e cineasta, é uma obra monumental pelo alcance e escopo do conseguimento, abrangendo quatro mil anos de História num único volume, incluindo a grande história e as pequenas histórias que o tempo não deixou esquecer. Os primórdios deste registo multifacetado recua à Idade do Bronze, avança até ao primeiro imperador, e desenrola-se numa cascata de acontecimentos, que desaguam no tempo presente, em que China milenar se constitui, de novo, como um império, estatuto que perdera no século XVIII.
Primeira Pessoa do Singular (Casa das Letras), de Haruki Murakami (n. 1949, Quioto), conjunto de oito contos inéditos, do mais internacional dos escritores japoneses do presente, é um livro de cariz muito pessoal, sejam as histórias ficcionadas ou não. A estranheza do quotidiano é solarizada por um qualquer pequeno incidente ou encontro invulgar e inesperado, levando o narrador, e com ele o leitor, para um universo de descobertas cheias de magia e mistério, desde um macaco que fala, à paixão pela música de Schumann, a um disco inédito de Charlie Parker, ou recordações das canções dos Beatles.

José Guardado Moreira
 
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