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Opinião Livros & Leituras

14-06-2022

A estranha vida e destino de Rimbaud, o poeta cometa, que na adolescência esculpiu uma obra que depois renegou, está no centro deste O Duplo Rimbaud (Sistema Solar), de Victor Segalen. Com a inestimável apresentação e tradução de Aníbal Fernandes, este volume encerra as virtualidades de toda a verdadeira edição: uma janela aberta sobre o enigma de uma vida e o mistério da existência de alguém que quis esquecer quem era. Segalen, ele próprio, um viajante por longínquas e distantes paragens, muito longe do exíguo hexágono mental dos seus contemporâneos, procurou in loco as reminiscências que o vidente vagabundo deixara em terras africanas, em porfia de uma fortuna nunca entrevista. O resultado foi esta sonda literária, aqui acompanhado por “Eu é Um Outro” e outros textos, incluindo o da irmã, sobre os derradeiros dias do inconsolado.

Bola de Sebo (Guerra & Paz), de Guy de Maupassant, é uma obra-prima, expressão maior do escritor que Flaubert apadrinhou e estimulou. O cenário é o de uma viagem de carruagem em plena guerra franco-prussiana, que serve de microcosmos da sociedade da época, com os seus figurões burgueses, fidalgos, revolucionários de pacotilha, estalajadeiros e quejandos. O centro é uma jovem de reputação duvidosa que põe em relevo a hipocrisia social dos seus companheiros de travessia. Maupassant é um arguto observador do ser humano, que descreve com agudeza e sem contemplações. “Os sentimentos são os sonhos dos quais as sensações são as realidades”.

A Entrada na Guerra (D. Quixote), de Italo Calvino, é um conjunto de três histórias passadas no Verão de 1940, quando a Itália entra na Segunda Grande Guerra. O então jovem de 16 anos, relembra esses tempos perigosos, através de pequenos episódios vividos ainda na inocência do que estava para vir. A melancolia e o espanto, à mistura com a farsa galhofeira, a idiotice de uma mocidade pueril, derramam-se nestas páginas magistrais, de fina observação dos comportamentos e atitudes de uma juventude atirada para a fogueira de um conflito que ia consumir a Europa. Os primeiros sinais não enganam; a farronca fascista e o futuro resistente também não.

Música, Só Música (Casa das Letras), de Haruki Murakami e Seiji Ozawa, é uma deliciosa digressão musical, fruto de conversas entre o escritor, conhecido melómano, e o maestro com uma enorme carreira internacional. Do jazz  à melhores partituras clássicas, o panorama de uma vida recheada de personagens e concertos por todo o mundo, trata-se uma verdadeira viagem por acontecimentos e personagens, traçando um panorama da música e músicos, orquestras e intérpretes. Uma leitura recheada de notas que o prefaciador, Martim Sousa Tavares, define assim: “Pelos esforços de Murakami como ouvinte e de Ozawa enquanto contador de histórias traduzindo-se num livro que inevitavelmente faz de nós, que o lemos, mais ávidos ouvintes e imaginadores de histórias “.

Entre Dois Fogos (Relógio d´Água), de Joshua Yaffa, correspondente da revista “The New Yorker” em Moscovo, é um espantoso retrato da vida na Rússia actual, em que as pessoas estão sujeitas a uma sociedade que desde há séculos apenas conheceu regimes despóticos, a começar pela ocupação mongol, seguido pelo czarismo, sovietismo e agora o putinismo. O indivíduo está sempre entre dois fogos: a revolta inconsequente ou a submissão abjecta. O resultado é uma pessoa “astuta”, servindo-se do sistema enquanto o sistema dele se serve, numa capitulação moral e ética que não deixa margem para dúvidas. Os exemplos aqui descritos são ilustrativos e esclarecedores.

Independência (Porto Editora), de Javier Cercas, segundo volume da trilogia “Terra Alta”. Melchor Marín, o polícia protagonista desta excelente saga policiária, é chamado a Barcelona para investigar um caso de extorsão envolvendo a presidente da câmara da cidade condal. Mal ele sabe o que está prestes a descobrir. O poder do dinheiro, o cinismo político e a violência sexual cruzam-se nestas páginas com a actualidade política e a justiça feita por mão própria. Um livro devastador para as pseudo-elites catalãs.

José Guardado Moreira
 
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