Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pelo nosso website. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.

Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Opinião Livros & Leituras 23-09-2021

A arte de contar, ou do faz de conta, é velha como o mundo. Na verdade, o mundo não existe se não for contado pelo sopro da palavra, animada pelo som fundador. Em redor da fogueira ancestral, as histórias criaram mundos, alimentados pela imaginação dos primeiros contadores, esteios da tradição oral. Essa tradição legou à posteridade as histórias de um Panchatantra indiano, ou de As Mil e Uma Noites, entre muitas outras. Quando em 1981, Mário de Carvalho publicou Os Contos da Sétima Esfera, foi acrescentado um degrau mais na infinita escada que conduz ao inesperado e ao fantástico. O Homem do Turbante Verde (Porto Editora), agora reeditado, conduz a esse labirinto de histórias de todos os tempos e idades, da fábula à crónica de um tempo de resistência, dando a conhecer os diversos registos pelos quais o autor tem sido reconhecido e celebrado como um dos mais consumados artesãos que utilizam o português de lei. Histórias como a que dá título ao volume, ou “O celecanto” aí estão para o demonstrar à saciedade.
Afastar-se (D. Quixote), de Luísa Costa Gomes assinala o regresso da escritora ao conto, quarenta anos depois da sua estreia. Diz a autora: “Fui coleccionando ao longo de mais de cinco anos contos que de uma maneira ou de outra metem água”. Trata-se de “talvez, em arco abrangente, uma reconciliação pela água: um livro termal, se quiserdes”. Desde o conto que dá título ao livro, onde se fala da influência de figuras míticas, como Lord Byron, sobre adolescentes impressionáveis, ao deambular em torno das esquecidas cinzas do escritor Pirandello, e as peripécias que envolveram tão bizarro acontecimento, até ao desejo de escrever uma biografia, nunca realizada, de Regine Olsen, a infeliz musa e eterna noiva rejeitada de Kierkegaard, “esse perverso religioso”, que viveu uma época nas Ilhas Virgens, ou esse insólito “Tratado de Tavira”, uma crónica corrosiva dos tempos que correm, todas as histórias tem algo de assombração. Ou de sombras das correntes profundas da vida.
Os amigos que se zangaram são a matéria biográfica de Desamigados (Tinta-da-china), de António Mega Ferreira, cujo mote é “ou como cancelar amizades sem carregar no botão”, visitando onze pares de amigos que deixaram de o ser, desde Dante e Calvacanti, Wagner e Nietzsche, Freud e Jung, Sarte e Camus ou García Márquez e Vargas Llosa. Razões ponderosas, desavenças intelectuais, ciumeiras ridículas, zangas, amuos, traições, de tudo um pouco se fazem estas páginas: “Em qualquer caso, não basta carregar no botão: o desamigamento é um processo doloroso, por muito definitivo que seja, e deixa fatalmente marcas em cada um dos antigos amigos”.
Como se o Mundo Existisse (Relógio d´Água), o mais recente livro de Ana Teresa Pereira, confirma, mais uma vez, o universo da escritora madeirense, feito de neblinas, chuva fina, jardins misteriosos, espelhos que espreitam das sombras, cores e flores, livros e histórias desconhecidas que atravessam o leitor deixando um perfume de pétalas que vibram noutra dimensão. Este volume tem um particular interesse para o leitor, pois nos é desvendado, se assim se pode dizer, um pouco das suas predilecções em filmes e autores, e das suas paisagens de eleição, sendo uma chave possível para entrar em tais recantos secretos.”Se, como num sonho de Jorge Luis Borges, existe um único autor, intemporal e anónimo, faz sentido perguntar se todas as ficções não passam de variantes de algumas, poucas, histórias (ou de uma única história), e se não existe apenas um pequeno número de personagens, sempre as mesmas, como actores cansados que representam, noite após noite, diferentes papéis”,
A letra A é a primeira letra de todos os alfabetos ou, pelo menos, aquela que inicia uma ordem de enunciação: é o som primordial, do qual decorrem os restantes, sendo por isso vista e ouvida como a origem de todas as coisas. O Aleph (Quetzal), de Jorge Luis Borges, conto que dá título a um dos mais emblemáticos livros do autor de “Livro de Areia” ou “Ficções”, encerra um mistério cabalístico: “num canto da cave havia um Aleph. Esclareceu que o Aleph é um dos pontos do espaço que contém todos os pontos”, que à maneira dos fractais, ou das imagens holográficas, contém “todos os pontos do universo”, onde está contido tanto o microcosmos como macrocosmos, em simultâneo, visão capaz de provocar uma vertigem cósmica senão metafísica. Outros contos levam o leitor para outras dimensões e labirintos dos quais não se sai a não ser por um acto de suprema lucidez.

José Guardado Moreira
 
Voltar