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Opinião Livros & Leituras

14-12-2021

Quando os deuses habitavam o cosmos, com seus atributos e funções, a Marte foi designado o planeta vermelho. O zelo combativo do deus da guerra ainda hoje pode ser apreciado num lugar tão pacífico com a cozinha. Ao usar uma faca para preparar os alimentos, utilizamos a faculdade marciana, de separar, fragmentar, dividir, sem a qual não é possível que Vénus entre em acção, para atrair, unir e saborear os alimentos. Crónicas Marcianas (Cavalo de Ferro), em nova tradução, de Ray Bradbury (1920 - 2012) é um clássico de todos os tempos, publicado em 1950, muito antes da febre actual das viagens a Marte. Os humanos que aí se deslocam não têm a vida fácil, não por causa directa dos marcianos, que os há, e não veem com bons olhos a chegada dos terráqueos, mas por causa da bagagem mental que transportam consigo. A poética de Bradbury e os temas que convoca nestas páginas, fazem desta obra uma profunda reflexão sobre os equívocos de que os humanos se alimentam, sem se dar conta que a síndrome marciana os habita. Escreveu Stanislaw Lem, autor de “Solaris”: “Não precisamos de outros mundos, precisamos de espelhos, não queremos conquistar o cosmos, só queremos estender as fronteiras da Terra até ele”.
Um Homem em Chamas - A vida e obra de Stephen Crane (ASA), de Paul Auter (n. 1947, Newark) é um livro escrito por amor de um escritor que o tempo arredou da ribalta literária. A sua breve existência (1871 – 1900) foi, no entanto, fulgurante, deixando um legado de contos, novelas, poemas e jornalismo, do qual se destaca “A Insígnia Vermelha da Coragem”, um clássico, onde o autor mergulhou no âmago da Guerra Civil, ocorrida antes do seu nascimento, para dessa experiência quase mediúnica extrair uma obra ímpar sobre os horrores da guerra. Amigo de Henry James e Joseph Conrad, Crane elevou-se acima do seu tempo, anunciando as novas tendências que ainda hoje retinem em ouvidos bem atentos. Esta monumental biografia apresenta-nos um génio que passou como um brilhante meteoro para despertar os sonâmbulos do seu e do nosso tempo.
As comemorações dos 700 anos da morte de Dante Alighieri (1265 – 1321), têm sido assinaladas pela publicação de novas obras, reedições e traduções do cânone dantesco, como é o caso da Divina Comédia, dada à estampa pela Imprensa Nacional, na sua colecção “Itálica”, com tradução de Jorge Vaz de Carvalho. À reedição de A Vida Nova (Quetzal), com tradução de Vaso Graça Moura, junta-se uma nova biografia Dante, Uma Vida (Quetzal), de Alessandro Barbero, abordando as circunstâncias de uma vida atribulada envolta em segredos e sombras, exílios e lutas, desgostos e sublimes conseguimentos, o menor dos quais não terá sido o de moldar a língua italiana na sua forma moderna. Nesta mente inquieta e sabedora dos fluxos subterrâneos que se disseminaram no solo agreste das crenças, floresceu uma obra ímpar da cultura europeia, que é muito mais do que se supõe e que ainda ressoa sete séculos depois. A Importância de Dante (Bertrand), de John Took, estudioso inglês do vate, permite uma leitura mais abrangente da obra, recordando a frase de T. S. Eliot, referindo-se ao poeta, como aquele que “divide o mundo com Shakespeare, não havendo um terceiro”.
José. O Provedor (D. Quixote), de Thomas Mann, é o derradeiro quarto volume de história de José e os Seus Irmãos. Trata-se de uma obra monumental em que o escritor alemão reinterpreta a história bíblica dos descendentes de Abraão, evocando um tempo mítico abrangendo as antigas civilizações da Mesopotâmia, da Palestina e do Egipto faraónico, com os seus deuses e rituais que, esquecidos na memória dos povos, emergem de vez em quando como lembranças difusas, em ecos distantes que perduram na areia do tempo. Escrito entre os anos de 1926 e 1943, não podia deixar de reflectir sobre os acontecimentos que varriam a Europa e o mundo, especialmente a sua Alemanha natal refém de uma loucura colectiva. Acompanhamos a vida do jovem José, desde a venda como escravo pelos irmãos, levado assim para o Egipto onde se eleva a grande altura graças à sua sagacidade enquanto intérprete dos sonhos do faraó, do qual se destaca o dos sete anos de fartura e de escassez. Akhenaton, o faraó, outra figura sem paralelo na história egípcia, entrega-lhe o poder de administrar as riquezas do reino. O registo dos quatro volumes está salpicado e humor, ironia, emoção, agudeza psicológica e sopro épico, constituindo um Bildungsroman sem paralelo nas letras europeias.

José Guardado Moreira
 
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