Poderia ter ganho o Prémio Nobel da Literatura. Terá estado nas listas dos possíveis premiados em diferentes ocasiões. António Lobo Antunes é considerado um dos maiores escritores portugueses contemporâneos. Médico psiquiatra, foi chamado a defender a mãe pátria em Angola, na Guerra Colonial, em 1970. Um momento marcante na sua vida que o viria a influenciar no seu modo de viver e de escrever. Faleceu na madrugada deste 5 de março, aos 83 anos.
Referia ao Ensino Magazine, em 2011 – parece que foi ontem – que o escritor “também sofre com os seus personagens. É uma mistura de sentimentos. Mas não há um sentimento sem o seu contrário. Não há sofrimento sem alegria; não há violência sem suavidade; não há secura sem ternura. Os sentimentos são muito complexos, contraditórios e simultâneos".
Nessa conversa, conduzida pela Eugénia Sousa, António Lobo Antunes referia-se aos valores que um bom livro, tal como os homens, deve ter. "Valores e não só. Tem de haver um sentido ético da escrita, senão não se sente". Por isso, enquanto autor, referia estar "sempre a negociar os livros com a morte. Só me sinto bem a escrever e sofro de sentimento de culpa se não o faço".
Talvez por isso os seus livros sejam tão intensos. Não venceu o Prémio Nobel, mas foi distinguido com o Grande Colar da Ordem de Sant"Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade, pela República Portuguesa. Em França foi-lhe entregue o grau de "Commandeur" da Ordem das Artes e das Letras, em 2008. Recebeu ainda o Grande Prémio de Romance e Novela da APE; o Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus ("Exortação aos crocodilos", 1999); o Prémio Fernando Namora ("Boa tarde às coisas aqui em baixo", em 2004); o Prémio Alberto Pimenta de carreira, do Clube Literário do Porto (2008); o Prémio Autores ("Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar", 2010) e o Prémio Literário Fundação Inês de Castro ("O tamanho do mundo", 2023).
Da sua lista de reconhecimento surgem também os prémios Rosalía de Castro, em 2001, Terence Moix, em 2008, e o da Extremadura para a Criação, em 2009 (em Espanha), Prémio Internacional União Latina, em 2003, o Nonino, em 2014, e o Prémio Bottari Lattes Grinzane, em 2018 (todos em Itália), o Prémio Ovídio, em 2003, na Roménia. Na Áustria recebe o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco. “Comoveu-me ver os emigrantes portugueses a chorarem porque era a primeira vez que a bandeira estava na chancelaria. Diga lá se isto não é melhor que o Nobel?”, disse numa entrevista ao Expresso.
Mas a melhor distinção veio, certamente, dos seus leitores.
A literatura nacional perdeu um dos seus grandes escritores. Portugal viu partir um homem livre e com pensamento próprio, que como referia estudou medicina “para dar prazer aos pais que entendiam que devia ter uma enxada".
O mundo recebeu um legado de qualidade superlativa, com obras traduzidas em mais de uma dezena de países. António Lobo Antunes tinha uma expressão muito própria: “sou eu que fecho o livro”. Infelizmente, o livro da sua vida foi fechado na madrugada de 3 de março de 2026. Todos os outros que escreveu poderão ser sempre abertos, lidos, apreciados, comentados, disfrutados.
À família, amigos e leitores, as nossas condolências.