Paulo Jorge Pereira é o homem que comanda a «fábrica de talentos» do andebol português que recentemente conquistou o quarto lugar no mundial da modalidade.
Nos últimos anos Portugal só falhou, nas grandes competições, a qualificação para os Jogos Olímpicos de Paris-2024. O quarto lugar no recente mundial por parte dos «heróis do mar» representa a afirmação da modalidade?
Deixe-me só fazer um preâmbulo: é um pouco duro dizer que «falhámos» o apuramento para as olímpiadas. A seleção de futebol nacional foi três vezes aos Jogos Olímpicos, mas é sabido que o futebol considera as olímpiadas uma competição menor e é frequente levar jogadores de faixas etárias mais jovens. Para além do futebol, em Portugal, só a seleção de andebol conseguiu uma participação olímpica, em Tóquio, no ano 2021, e apuramo-nos duas vezes consecutivas para o torneio pré-olímpico que qualifica para os Jogos Olímpicos. Foi algo inédito. E para que isso aconteça temos de estar sempre, no mínimo, no “top” 8 europeu ou mundial. É importante contar todos estes pormenores para que as pessoas percebam o alcance do que foi conseguido. Relativamente à sua pergunta, considero que porventura a seleção de andebol já se afirmou anteriormente e não apenas agora. Enquanto país, estamos todos muito distraídos.
Pode concretizar?
Entrámos nas competições internacionais em 2020 após 18 anos de ausência num mundial e 16 anos fora de um europeu. Nesse ano ficámos em 6.º lugar no europeu – o melhor resultado de sempre. Depois em 2021 fizemos o 10.º lugar no mundial, também o melhor registo de sempre. Em 2022, fruto de problemas enormes decorrentes do Covid, fizemos 19.º lugar no europeu. Foi a pior competição dos últimos 5 anos. Em 2023, no último mundial, não nos apurámos para os quartos de final por um golo. No europeu de 2024 fizemos o 7.º lugar e agora fizemos a melhor prestação de sempre, o 4.º lugar no mundial. Mas garanto-lhe que não é menos difícil ficar em 6.º num campeonato da europa.
Isso explica-se pelo facto de as grandes potências da modalidade estarem na Europa, nomeadamente os países nórdicos, a França e a Alemanha...
Exatamente. O andebol é um desporto europeu, muito vincado em países evoluídos do “velho” continente, como é o caso dos escandinavos, da França e da Alemanha. É muito difícil lutar contra aquelas poderosas estruturas desportivas, que são autênticas máquinas de desporto.
Portugal vai organizar, conjuntamente com a Espanha e a Suiça, o europeu de 2028. Pensa que será uma oportunidade para fazer mais um grande resultado e atrair mais pessoas para a modalidade?
Nós estamos de antemão apurados como país organizador e a fase preliminar vai ser jogada em casa. Mas as fases mais avançadas da prova serão disputadas em Espanha e na Suiça. Mas só lamento é que não tenhamos um país com uma estrutura capaz de organizar este europeu por inteiro. Só temos em Portugal um pavilhão (o Meo Arena, em Lisboa) que reúne condições e pré-requisitos para albergar uma prova desta dimensão. Ainda recentemente um jogo do campeonato nacional de andebol foi adiado devido ao mau estado do piso do pavilhão. Já para a prática do futebol há muitos estádios e todos com condições. Há, de facto, um longo caminho a percorrer ao nível infraestrutural para desempenharmos a modalidade de forma mais profissional.
O que é mais difícil: chegar à elite de uma modalidade ou mantermo-nos lá?
A manutenção na elite significa estar sempre no “top” 8 ou seja os quartos de final. Não sei se vamos conseguir manter este nível. Mas, por exemplo, sei que a Federação Portuguesa de Andebol (FPA) não consegue patrocinadores privados, quando todas as maiores seleções que connosco competem têm as camisolas repletas de “sponsors”. Essa é uma enorme e substancial diferença, que acaba por pesar no confronto direto com as maiores potências.
Miguel Laranjeiro, presidente da FPA, disse em entrevista à revista “Visão” que «o país tem de olhar para o desporto como um desígnio». Acredita neste objetivo ou está cético?
Temos de reconhecer que o futebol tem feito muitas coisas boas pelo desporto nacional. Isto não é inveja. E mesmo que seja é uma inveja construtiva. Mas tenho pena que não usemos o desporto como mais um veículo para promover o nosso país, pelo retorno financeiro que possibilita e até na formação de pessoas com valores salutares. O desporto pode gerar valor a todos os níveis. Infelizmente, em Portugal, não conseguimos ver o desporto como uma prioridade estratégica para o país. Treino um clube na Eslovénia e mesmo sendo um país pequeno a importância dada ao desporto é enorme, com muitos atletas competindo em várias modalidades de elite.
Já foi treinador em Espanha e conhece bem a realidade deste país. Mesmo sendo uma nação de outra dimensão, há um antes e um depois para o desporto espanhol no rescaldo dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. O pais vízinho está ainda a colher frutos deste projeto desportivo?
Claramente. A partir daí eles criaram o chamado «becado» que são as bolsas desportivas atribuídas aos atletas. Sei do caso da canoísta espanhola, a Teresa Portela, a atleta espanhola que mais jogos olimpicos disputou, e que vivia da bolsa que o Estado lhe atribuía, conseguindo desenvolver a atividade desportiva de forma exclusivamente profissional. Não sei se por cá é possivel generalizar estas bolsas, mas Portugal ficaria a ganhar se enveredasse por este caminho. Se assim não for não sei se estaremos preparados para competir ao mais alto nível e produzir resultados de excelência. O desejável era fazermos um investimento mais avultado.
Vários jogadores e o próprio selecionador nacional competem em clubes de andebol no estrangeiro. O nosso país será cada vez mais exportador?
Na atual seleção a maior parte dos atletas até joga em Portugal, sobretudo no FC Porto e no Benfica. Mas é inevitável que, cada vez mais, exportemos os nossos jogadores para campeonatos de elite na Europa.
Com o potencial que temos podemos criar uma fábrica de talentos?
Já somos. Mas mesmo em Portugal, é preciso que se diga que os andebolistas de Benfica, Sporting e FC Porto, por estarem envolvidos em competições europeias de clubes, também lhes é possibilitado exibirem-se ao mais alto nível. Enquanto estes clubes estiverem a jogar nas competições europeias é sempre apetecível representar estes emblemas.
Os clubes têm tido uma ação importante na formação de atletas. Contudo, a atração para a prática desportiva deve começar mais cedo nas escolas. Que papel pode ter o desporto escolar na promoção da modalidade e do desporto, de uma forma geral?
Fui professor, tendo abandonado o ensino em 2004. Dei aulas de educação física e princípios e práticas de andebol durante 13/14 anos e também fui coordenador de desporto escolar na minha escola. Na altura, o desporto escolar existia mas, estranhamente, o principal objetivo não eram os alunos. Vários professores trabalhavam muito bem com os mais novos, mas para outros o desporto escolar era só para preencher o horário. Vou-lhe contar uma história e que exemplifica a opinião que tenho há muito tempo: para quem toma decisões neste país a atividade física não é importante. Em janeiro, estavamos no estágio da seleção, em Rio Maior, a preparar este mundial e num belo dia acordei cedinho e no exterior, num espaço ao ar livre de uma escola, contígua ao nosso alojamento, estava um professor a dar aulas todo encasacado e as crianças não paravam de mexer, caso contrario ficavam congelados. Se isto acontece em Rio Maior acontece, certamente, noutros locais do país. Trabalhar naquelas condições não é promover o desporto e não motiva para a prática desportiva. É uma experiência que não transmite boas sensações. Quando se idealiza uma escola deve-se pensar que não é só preciso construir a sala para a matemática, mas também o ginásio ou o espaço coberto para a atividade física ou o desporto escolar. O ser humano é mente e corpo e um não pode viver sem o outro. Enquanto não acontecer uma mudança de base estrutural na forma de pensar das pessoas não vai acontecer nada.