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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Ana Paula Duarte, reitora da Universidade da Beira Interior UBI: 40 anos como força motriz da região e do conhecimento

27-04-2026

A Universidade da Beira Interior (UBI) assinala, no dia 30 de abril, o seu 40.º aniversário. Uma data que simboliza a grande transformação da cidade da Covilhã e da região. Nestas quatro décadas a instituição assumiu-se como a grande força motriz da Covilhã e do seu território.
Ana Paula Duarte é reitora da instituição há cerca de um ano e fala da UBI como uma casa comum e aberta a todos. Os desafios são muitos e a universidade diz estar atenta e preparada.

Este ano assinalam-se os 40 anos da Universidade da Beira Interior e em julho completa o seu primeiro ano de mandato. Qual é o balanço que faz do trabalho desenvolvido neste período de liderança?
O tempo ainda não é muito. Quando aqui chegámos viemos cheios de muitas ideias, mas percebemos que as coisas não funcionam à velocidade que gostaríamos que funcionassem. Portanto, um ano é muito pouco para ter alguma conclusão a apresentar. Ainda assim, faço um balanço muito positivo do trabalho já realizado. Tem sido um desafio muito grande.

Que fatores destaca neste primeiro ano?
Um dos aspetos que precisava de levar algum impulso era o funcionamento dos processos, que tinham uma certa lentidão e burocracia. Acreditei que era muito mais fácil mudar isso, do que na realidade é. Mas temos conseguido implementar algumas mudanças e contratámos mais pessoas, pois os serviços não tinham gente suficiente. Tem havido melhorias. Não é fácil fazer esta mudança. Às vezes é um bocadinho desmotivador não conseguirmos ver as coisas a funcionar como gostaríamos que funcionassem.
Outro aspeto bastante positivo é o facto de se introduzir o diálogo com a academia. Não consigo ir com frequência às faculdades, mas tento dialogar com todos os intervenientes nos diferentes processos. Só assim, com diálogo - essa era uma das bandeiras da minha candidatura, através de uma liderança participada -, procurando ouvir toda a gente, as minhas resoluções e decisões podem ser mais sustentadas.

No seu Plano de ação falava numa universidade aberta. É isso que procura implementar?
Sim, uma universidade aberta, onde se ouçam as pessoas. Nesse sentido vamos realizar vários fóruns nas faculdades, onde estarei de forma presencial, para conversar, ouvir e responder às questões que a comunidade académica colocar. O primeiro irá ocorrer amanhã (a entrevista foi feita no dia 21 de abril), no Polo 1. Considero muito importante ouvir e aproximar as pessoas.

Isto vem ao encontro do seu objetivo de tornar a UBI uma Casa Comum?
Estamos a tentar implementar metodologias onde as pessoas sintam que estão numa Casa Comum, em que há uma liderança aberta, em que nos preocupamos com a inclusão. Temos promovido medidas nesse sentido. Esta é uma delas. Quando lançámos este programa de fóruns de diálogo, disponibilizámos também um link para as pessoas colocarem, se assim o entenderem, algumas questões.

Essas sessões são abertas a alunos, professores e restante comunidade académica?
Todos podem participar. Inicialmente equacionámos fazer diferentes momentos para alunos, professores e funcionários, pois as pessoas poderiam não estar à vontade de em conjunto abordarem as diferentes questões. Mas concluímos que isso poderia não funcionar, pelo que cada fórum é aberto a toda a gente.

Uma das áreas que considerou importante foi a digitalização das instituições. Isto vem entroncar naquilo que estávamos a falar há pouco, no sentido de melhorar os procedimentos. O que é que já foi feito nessa área?
Foi designado um vice-reitor para a área e para definir essa estratégia. Temos que aproveitar o digital para melhorar aquilo que for possível dentro de todos os processos. Já implementámos algumas metodologias, em que até somos pioneiros. Por exemplo, temos o cartão de estudante europeu - fomos a primeira universidade a conseguir dar esse cartão automaticamente -, temos também a assinatura digital certificada profissionalmente.
Por outro lado, damos uma grande importância ao aspeto digital na inovação pedagógica. Ministramos muitas formações e há muita capacitação para os docentes também poderem utilizar as ferramentas digitais.
Estamos a incluir a inteligência artificial (IA) nos fluxos e nos processos. Inclusive temos um projeto que vem no sentido de incluir a inteligência artificial para nos auxiliar e melhorar. Isto é um processo de aprendizagem e estamos no caminho para essa utilização.

Referiu-se à inovação pedagógica. Na perspetiva de ensinar e aprender, como é que a UBI está a responder à utilização da IA?
É tudo novo. Estamos todos a aprender. Procuramos usar todas as ferramentas que temos ao nosso alcance na capacitação dos docentes em termos de inteligência artificial. Quando falei há pouco na utilização do digital para a inovação pedagógica, encaixo aí todas as ferramentas de inteligência artificial. Elas existem, nós temos que saber trabalhar com elas e utilizá-las. Isso é extremamente importante, não só a nível dos processos administrativos, mas a nível da inovação pedagógica.
Claro que essa utilização deve ter os seus limites. No que diz respeito aos estudantes, temos que arranjar metodologias para lhes explicar e fazer com que utilizem a IA com ética e nas devidas condições. É um desafio para as instituições. Mais do que tentar perceber que eles podem usar a inteligência artificial, importa definir como é que eles a podem usar. Isso parte também por capacitar os docentes. Mas é preciso que nós expliquemos aos estudantes que não é uma coisa proibida.
Nesta matéria queremos estar na fila da frente, até porque temos formações ao nível primeiro ciclo e segundo ciclo. Há muitos investigadores que trabalham nessa área. Depois, há factores que valorizamos na UBI: a multidisciplinaridade, interdisciplinaridade, ou como agora se diz transdisciplinaridade. O que passa, por exemplo, por juntar colegas que trabalham com a inteligência artificial com os colegas que trabalham na saúde ou noutras áreas.
Outro aspeto importante é o impacto da IA na investigação. Acredito que vem aí um mundo novo. Por isso, é muito importante que seja usada com ética.

A questão da digitalização entra também noutra área, que é a legislativa, a área dos regulamentos, dos procedimentos obrigatórios, portanto, é possível também tornar mais leve esse rol de procedimento que a administração pública exige, ou há muitos procedimentos que dependem da lei?
O que depende da lei nós não podemos mexer. No restante, procuramos ultrapassar os processos e os fluxos internos. Mas, de facto, alguns procedimentos estão limitados pela legislação.

Acredita que o novo RJIES, através da autonomia das instituições, pode tornar mas leve algum procedimento?
Sinceramente não olhei para ele sob o ponto de vista dos procedimentos. Mas, num ou noutro, que passe a estar mais dentro da autonomia das universidades isso poderá acontecer. Por exemplo, a mobilidade intercarreiras.

Como é que avalia o Regime das Instituições de Ensino Superior que em breve será aprovado na Assembleia da República?
Tenho dúvidas da ação sobre o sistema binário, da maneira como o sistema binário vai funcionar. Os outros aspectos, que até foram bastante discutidos, como a eleição do reitor, por exemplo, não me parecem mal. Nunca considerei que o atual modo de eleição fosse muito bom, pois não é tão democrático como seria desejável. No entanto, tenho dúvidas sobre como vai ser feita a sua implementação.

Falou na questão da saúde. Uma das ideias que defendeu foi a UBI como um campus saudável. Que passos é que estão a ser dados para a concretizar?
O primeiro passo foi ter alguém na equipa com essa finalidade. Há um pró-reitor para o desporto e o campus saudável. O plano do campus saudável baseia-se, numa primeira fase, no diagnóstico, para perceber o que é temos, o que precisamos de fazer, o que é que está a acontecer. Só depois virão as intervenções. A nível do diagnóstico, temos tentado perceber quais são os hábitos das pessoas, tanto no dia-a-dia, como da prática de desporto e exercício físico. Estamos a instalar um ginásio para promover aulas de ginástica para a nossa comunidade académica, bem como para o aparecimento de novas modalidades. Além disso, está em curso a obtenção do selo de certificação da FISU - Federação Internacional de Desportos Universitários Campus Saudável.
Na área da saúde mental já estava a ser desenvolvido um projeto “Altamente saudáveis” financiado pela Direção Geral de Ensino Superior. Isso permite-nos também fazer a ligação, por exemplo, do exercício físico com a saúde mental.
Estamos também a implementar pausas ativas para docentes, funcionários e estudantes. Nesse sentido há um profissional de educação física que vai aos locais e, durante 10 minutos, as pessoas deixam o que estão a fazer e vão praticar 10 minutos de exercício físico.

Essas pausas estão a ser a ser bem recebidas por parte das pessoas?
Para já está a ser implementado aqui na reitoria e na administração. A resposta é muito positiva.

E a reitora também participa?
Quando cá estou, participo. Mas, infelizmente, nem sempre consigo.

Ainda na área da saúde está a ser implementado um plano para instalar desfibriladores e na universidade…
É um plano que já está a ser desenvolvido e que requer muito trabalho, pois obriga a identificar os locais em que eles são instalados, definir os profissionais que estarão afetos a cada um desses equipamentos, proceder à sua certificação e realizar formação de quem os manobra. É um plano que está quase finalizado.

Mudando de assunto. Aproxima-se mais um Concurso Nacional de Acesso. A UBI vai apresentar novas ofertas formativas?
Iremos apresentar apenas mais uma licenciatura em Cidades e Comunidades Sustentáveis e Inteligentes. No 1.º Ciclo já temos uma oferta formativa bastante consolidada, pelo que não faz sentido estarmos sempre a lançar novos cursos. Há pouco tempo também oferecemos novos primeiros ciclos na área da Inteligência Artificial. Podemos, isso sim, ter abertura para novos segundos ciclos, atendendo às nossa áreas de investigação. Este ano já disponibilizámos dois novos mestrados em Economia Circular e Engenharia Mecânica Computacional. No 2.º ciclo podemos crescer.

No segundo e terceiro ciclos, universidades como a UBI acabam por ter alguma vantagem, face às grandes IES, fruto da uma maior proximidade e disponibilidade dos docentes para com os alunos?
É verdade, isso é uma grande vantagem, que até no primeiro ciclo se nota. É uma vantagem que os estudantes sempre referem. Essa proximidade é muito importante quando estamos a falar de mestrandos e doutorandos, pois estamos a falar do desenvolvimento de teses.

A nível do terceiro ciclo, vão aparecer também novos cursos?
No ano passado lançámos um novo. Estamos um pouco expectantes com o que vem aí com a Lei dos graus e diplomas.

A UBI, estaria disponível para fazer consórcios em doutoramentos com outras instituições?
A UBI está sempre disponível e temos já vários terceiros ciclos em consórcio com outras instituições. Estamos sempre abertos para isso, pois consideramos que é extremamente importante.

Voltando ao primeiro ciclo, quais é que são as expectativas para o Concurso Nacional de Acesso, quando este ano houve um aumento generalizado de 5% das vagas em todas as IES. Isso pode prejudicar a UBI?
Prejudicará todas as instituições localizadas em territórios de baixa densidade. No ano passado sofremos uma ligeira quebra, mas tendo-se modificado as regras de acesso a expectativa era de que iríamos estabilizar. Agora com esta nova questão, não sabemos se será suficiente para nos afetar muito. Espero que não. Mas temos novas ameaças. Se implementarem novas universidades em zonas de muita densidade, como no Porto - e a zona do Norte é aquela de onde vêem mais estudantes - isso pode-nos prejudicar.

As bolsas de ação social são mais elevadas para os estudantes que optam pelos grandes centros em detrimento dos que escolhem estudar, por exemplo, no interior. Este facto, aliado à questão das vagas, não vem condicionar a procura de IES nos territórios de baixa densidade?
É mais um constrangimento que nos vem prejudicar e que se vai juntar a outros. Uma das vantagens dos estudantes que vêm para instituições como a UBI é o menor custo de vida. É evidente que as famílias olham para os locais onde os seus filhos vão estudar, para a excelente qualidade de vida e segurança que têm aqui na Covilhã. Se as bolsas vão ser mais altas em IES de Lisboa e Porto, podemos ser prejudicados no caso dos estudantes bolseiros.

Mas qualidade de vida em cidades do interior é um forte trunfo?
É e os estudantes reconhecem isso. Eles procuram, não só a qualidade de vida na cidade, mas também a qualidade de vida académica que a UBI proporciona.

A internacionalização tem sido uma bandeira para a UBI. É uma área que continua a ser prioritária?
Continua, em termos de investigação e na captação de estudantes. Nós temos um número de estudantes internacionais razoável, são 1800 de mais de 60 nacionalidades. Procuramos alargar a nossa geografia de captação. O maior número de alunos vem do Brasil e dos Palop’s, mas estamos também apostados na América Latina, onde participamos em feiras internacionais, e na Europa.

A UBI foi fundadora da Universidade Europeia UNITA. Está satisfeita com os resultados e projetos desenvolvidos?
O impacto é muito significativo. Há um incremento muito grande na mobilidade de docentes e investigadores, o que é excelente para as práticas pedagógicas e para novas investigações. Temos também cerca de 20 cursos de doutoramento em dupla titulação. Outro aspeto que tem tido grande impacto é a mobilidade virtual, através de unidades curriculares a distância, ministradas em inglês.

Que novos projetos podem vir a ser desenvolvidos?
Estamos a trabalhar na renovação da Aliança para 2027-29 e, depois, para 2029-34. Está-se também a trabalhar no alargamento da UNITA para um contexto extra europeu. E a UBI pode ter um papel importante neste processo fruto das ligações que temos com a América Latina e com África. A questão das microcredenciais, em que a Aliança foi pioneira, é outra área que está a ser trabalhada.

A UBI tem sido uma das instituições de ensino superior mais subfinanciada. Para o novo ano está prevista alguma correção por parte do Estado?
Ainda não tenho nenhuma informação. Na semana passada esteve aqui a secretária de Estado do Ensino Superior, o que foi muito importante pois discutiu questões estratégicas da UBI. Foi-lhe mostrado esse subfinanciamento, com todos os elementos. Nos últimos anos tem havido um aumento superior ao das outras IES para corrigir isso, mas não é suficiente. O Ministério está ciente desta questão e a Secretária de Estado tem todos os números. Aquilo que também estou a trabalhar com o Governo é apoio para a construção de algumas infraestruturas que consideramos importantes, como um novo edifício para as artes e uma nova residência de estudantes junto à Faculdade de Ciências da Saúde.

Um dos fatores que deveria ser tido em conta no financiamento às instituições relaciona-se com o campus das próprias IES. A UBI está em toda a cidade, recuperou património, e o seu funcionamento acarreta mais custos…
Sem dúvida. Acarretou no início, pois a requalificação de edifícios antigos é mais cara do que a construção de novos, e a manutenção e o funcionamento são mais caros. A própria autarquia também deve reconhecer isso.

O PRR encerra este ano. Os projetos da UBI encontram-se em que fase?
No que respeita às obras, temos um investimento de sete milhões de euros (o total PRR é de cerca de 21 milhões), referentes à eficiência energética e à requalificação de residências. Há obras que estão mais adiantadas que outras. Espero que estejam todas terminadas.

Disse que universidade deve ser um agente de coesão territorial e de desenvolvimento sustentável. Como olha para o papel da UBI na cidade, na região e no país?
Atendendo à sua localização, ela tem que ser o motor de desenvolvimento da cidade e da região. Temos que envolver o poder local, quer da Covilhã, quer com os municípios da nossa comunidade intermunicipal. Temos participado em, algumas questões, com a comunidade da Beira Baixa. A UBI estando a criar conhecimento tem que saber passá-lo para a região e para o país. Por outro lado, formamos, e bem, muitos quadros e o desafio é que uma grande parte se fixe na região. E isso tem que ser trabalho com os nossos parceiros.

O facto de pertencer à Comissão Permanente da CCDR, a par do presidente do Politécnico de Leiria, faz com que a Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional esteja mais atenta às questões da educação?
É importante estar alguém das academias e da nossa região, pois muitas vezes esses órgãos estão muito direcionados para as autarquias. As IES são um dos principais fatores de coesão territorial do país, mas também têm que fazer por isso.

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