Nas décadas de 1950 e 1960, nomeadamente em grandes produções do cinema italiano, tornaram-se populares uma série de filmes de aventuras cuja temática remetia para a mitologia greco- romana que ficaram conhecidos como peplum, ou na terminologia inglesa sword & sandal, contemporâneos do spaguetti western, um sub-género igualmete popular, cuja página não chegava para elencar a quantidade de filmes então rodados.
Se por seu lado o spaguetti western se inspirou nos western americanos, os filmes de cowboys como os apelidávamos, os peplun foram igualmente beber ao cinema clássico de Hollywood, sendo que alguns realizadores italianos militaram nos dois géneros, sendo o caso mais notável o de Sergio Leone, só para citar este, que depois de dirigir O Colosso de Rhodes (1961), lançou a afamada trilogia do dólar que o catapultou para altos voos. Mas essa é outra história.
Apesar da sua nomenclatura só ter aparecido nos anos de 1960, filmes italianos pioneiros na apropriação daquelas mitologias, como Quo Vadis? (E. Guazzoni, 1913) ou Cabiria (G. Pastrone, 1914), são recriados por grandes realizadores de Hollywood como Cecil B. DeMille no pós guerra, com Sansão e Dalila (1949) e QuoVadis? (Mervin LeRoy, 1951), para em 1954 aparecer a primeira adaptação de Homero em Ulisses (Mario Camerini, 1954), com Kirk Douglas e Silvana Mangano nos protagonistas, numa produção de Dino De Laurentiis que em 1968 produziria o primeiro episódio de uma mini série para televisão intitulada Odissea, com uma temporada de oito episódios. Poderíamos lembrar vários filmes em que o herói é Hercules, desde logo o realizado em 1958 por Pietro Francisci, com o musculado Steve Reeves que também protagoniza La Guerra di Troia (Giorgio Ferrone, 1961), claramente inspirado na odisseia de Ulisses, uma vez que a Guerra de Tróia e a alegoria do cavalo são transversais à cultura mediterrânica e nessas intemporais obras da literatura clássica de que a Ilíada e a Odisseia são marcos.
É sabido que Hollywood regressa sempre aos locais onde foi feliz. Não estranha pois que nos últimos anos a antiguidade clássica passe a estar na ordem do dia, podendo dizer-se, sem cair no ridículo, que anda por aí um movimento neo-peplum, com filmes que vão de Clash of the Titans (Louis Letterier, 2010), um remake do filme de 1981 realizado por Desmond Davis, passando por Troy (Wolfgang Petersen, 2004), a série Troy: Fall of a City, de 2018 ou Hercules (Brett Ratner, 2014), bem como outros épicos históricos que por aí andaram, já se percebeu do que a casa gastava: é o peplum a dominar este Hollywood moderno, como aliás já o havia feito nos anos de 1950 e 1960. Agora a coisa atinge outros contornos. Com a parafernália de efeitos especiais à disposição a fantasia não tem limites absorvendo o linguagem da novela gráfica como em 300 de Zack Snyder (2006), isto para limitar essa inspiração à Antiguidade Clássica, senão teríamos que ir para outras géneros mais negros, o que nos afastava do clássico filme de aventuras a que todos estes se reconduzem.
Ora, quando Chistopher Nolan anuncia que vai filmar a Odisseia de Homero, a expectativa foi total. Para o realizador de Memento (2000), da trilogia Batman (2005-2012), possivelmente a melhor abordagem cinematográfica do herói criado por Bob Kane e Bill Finger, Interstellar (2014) ou Oppenheimer (2023), vencedor de sete Oscars (podíamos elencar todos os seus filmes, porque para cada um haveria uma justificação para isso), dar um salto para a obra de Homero, parecia à primeira vista que entrava em águas nunca navegadas, como o herói Odysseús (nome grego de Ulisses), no seu regresso a casa depois de dez anos da guerra de Tróia e outros dez de viagem, dos quais sete preso pela deusa Calipso. Porém, apesar da complexidade do poema épico, Nolan faz uma adaptação fiel, que não significa fidedigna. E, é a partir deste pormenor, que não é de somenos que antes de o filme estrear já se criticavam as opções do realizador/argumentista como se um poema com vinte e quatro Cantos pudesse ser transcrito verso a verso para o grande écran, para além das críticas às opções sobre o elenco, a começar pela cor da pele dos intérpretes, o caso mais aberrante é sem dúvida o de Lupita Nyong’o, no papel de Helena, como se numa cidade lendária os seus nativos fossem todos de tez clara.
Odisseia é um filme de aventuras: a odisseia de um herói que quer recuperar a mulher e o seu reino, ambos cobiçados pelos muitos pretendentes. Como grande herói que é, a todos vence. Se isto não é um verdadeiro enredo de aventura, é o quê?
Até à próxima de nos filmes!