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bocas do galinheiro 100 anos de pamplinas maquinista

14-09-2026

Há três nomes incontornáveis da comédia do cinema mudo/silencioso: Charles Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd. Aliás, o grande trunfo deste cinema de humor narrativo/humor atractivo, assente em sucessivos gags, na sua maioria acontecimentos que provocam o riso, acrobacias que têm tudo para correr mal (quedas, perseguições, lutas), eram o traço distintivo do cinema primitivo dominado pelo cinema de atrações, até ao aparecimento e consolidação do cinema narrativo que nunca deixou de ir beber àquele que, por sua vez, se inspirou no vaudeville, um género importante da arte teatral. Era o burlesco no seu esplendor.

Se Charles Chaplin com o seu Charlot é o arquétipo do cómico, Buster Keaton, “o homem que nunca ri”, mantinha sempre o fácies por maiores que fossem as adversidades que tinha de enfrentar, aliado a uma capacidade de resistência nas cenas de acção  que povoaram os seus filmes, era a personificação do burlesco. Aliás, a sua capacidade de arrostar todos os perigos que se atravessavam no seu caminho sem um esgar sequer, era a sua imagem de marca.

Nascido Joseph Frank Keaton a 4 de Outubro de 1895, filho de Joe Keaton e Myra Keaton, comediantes de vaudeville com um número de variedades popular e em constante mudança, o que proporcionou ao jovem e futuro Buster Keaton um contacto precoce com o mundo artístico e aos 4 anos já atuava com os pais em números em que as suas capacidades físicas se foram desenvolvendo rapidamente, até que quando tinha 21 anos a trupe se dissolveu, não tardando a enveredar pelo cinema com os resultados que se conhecem.

Vem este introito a propósito dos 100 anos da estreia de um dos filmes maiores de Keaton,  The General, de 1926, ou como reza o título em português Pamplinas Maquinista. Apesar de em posição modesta, consta da celebrada lista The Greatest Films of All Time, da revista Sight and Sound, que em 1952 pediu a uma série de críticos para nomearem os melhores filmes de todos os tempos, painel que, entretanto, foi engrossando e, de 10 em 10 anos ela aí está. O filme de Keaton ainda integra a última, de 2022. Na nota sobre o filme, é referido como “a produção mais grandiosa e mais comovente de Buster Keaton, que reúne um rapaz, uma rapariga e um comboio no meio do turbilhão da Guerra Civil dos EUA”. Com maior ou menor destaque, pouco interessa quando, no meu entender, estamos perante a sua Magnum opus. Aliás, para Orson Welles, é “o melhor filme de comédia alguma vez feito, o melhor filme sobre a Guerra Civil alguma vez feito, e talvez o melhor filme alguma vez feito.” Lapidar.

Numa folha da Cinemateca Portuguesa pode ler-se que “os grandes burlescos perceberam cedo que a sofisticação dos seus gags exigia o respeito pela continuidade temporal. No cinema de Keaton, que a esse sentido do desenvolvimento temporal do gag aliava o gosto da proeza física “sem batota”, o tempo da ação e o tempo do plano tendem a coincidir. The General abunda em exemplos disso, nalgumas das mais elaboradas coreografias cómicas da história do cinema.

Porém, aquando da sua estreia o filme não recebeu o reconhecimento do público, foi mesmo um fracasso de bilheteira que mexeu profundamente com a carreira do cómico. A United Artists abandonou-o, foi empurrado para a MGM onde as condições de trabalho eram o oposto daquilo a que estava habituado: perdeu a liberdade criativa. A partir daqui os seus filmes foram artisticamente mais pobres, adaptando-se sem grande resistência ao cinema sonoro, mas com um número pouco significativo de obras no novo formato, sendo preponderante a sua participação como actor. Apesar deste abanão e de aparentemente estar condenado ao esquecimento, a sua carreira foi-se recompondo a partir dos anos quarenta, reaparecendo em papéis em que o seu cunho pessoal era trunfo para os muitos filmes em que entrou até à sua morte em 1966.

Todavia a obra de Keaton não se esgota em The General. Filmes como One Week (1920), em que um casal recém-casado tenta construir uma casa com um kit pré-fabricado, sem saber que um rival sabotou a numeração dos componentes do kit. Basta imaginar o que se segue, Sherlock Jr. (1924), sobre um projecionista de cinema sonha em ser detetive e recorre às suas escassas competências quando é incriminado por um rival pelo roubo do relógio de bolso do pai da sua namorada, aqui com dois papéis, exibindo um dom da ubiquidade até então não reservado a humanos, Seven Chances (1925), a incrível história de um homem que fica a saber que herdará uma fortuna se se casar até às 19h dessa tarde, bem como The Navigator (1924) que, como The General, em vez da locomotiva se centra num barco.

O seu reconhecimento como cineasta veio em 1959 com a atribuição pela Academia do Óscar Honorífico pelo conjunto da sua obra, a que se seguiu, em 1962, a memorável retrospectiva na Cinemateca Francesa, apresentada por Henri Langlois, com uma incrível ovação de 15 minutos em pé, a que se seguiu em 1963 uma Mostra em Veneza. Por esta altura Buster Keaton era mais popular que Chaplin. Justiça tinha sido feita.

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

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