Há três nomes incontornáveis da comédia do cinema mudo/silencioso: Charles Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd. Aliás, o grande trunfo deste cinema de humor narrativo/humor atractivo, assente em sucessivos gags, na sua maioria acontecimentos que provocam o riso, acrobacias que têm tudo para correr mal (quedas, perseguições, lutas), eram o traço distintivo do cinema primitivo dominado pelo cinema de atrações, até ao aparecimento e consolidação do cinema narrativo que nunca deixou de ir beber àquele que, por sua vez, se inspirou no vaudeville, um género importante da arte teatral. Era o burlesco no seu esplendor.
Se Charles Chaplin com o seu Charlot é o arquétipo do cómico, Buster Keaton, “o homem que nunca ri”, mantinha sempre o fácies por maiores que fossem as adversidades que tinha de enfrentar, aliado a uma capacidade de resistência nas cenas de acção que povoaram os seus filmes, era a personificação do burlesco. Aliás, a sua capacidade de arrostar todos os perigos que se atravessavam no seu caminho sem um esgar sequer, era a sua imagem de marca.
Nascido Joseph Frank Keaton a 4 de Outubro de 1895, filho de Joe Keaton e Myra Keaton, comediantes de vaudeville com um número de variedades popular e em constante mudança, o que proporcionou ao jovem e futuro Buster Keaton um contacto precoce com o mundo artístico e aos 4 anos já atuava com os pais em números em que as suas capacidades físicas se foram desenvolvendo rapidamente, até que quando tinha 21 anos a trupe se dissolveu, não tardando a enveredar pelo cinema com os resultados que se conhecem.
Vem este introito a propósito dos 100 anos da estreia de um dos filmes maiores de Keaton, The General, de 1926, ou como reza o título em português Pamplinas Maquinista. Apesar de em posição modesta, consta da celebrada lista The Greatest Films of All Time, da revista Sight and Sound, que em 1952 pediu a uma série de críticos para nomearem os melhores filmes de todos os tempos, painel que, entretanto, foi engrossando e, de 10 em 10 anos ela aí está. O filme de Keaton ainda integra a última, de 2022. Na nota sobre o filme, é referido como “a produção mais grandiosa e mais comovente de Buster Keaton, que reúne um rapaz, uma rapariga e um comboio no meio do turbilhão da Guerra Civil dos EUA”. Com maior ou menor destaque, pouco interessa quando, no meu entender, estamos perante a sua Magnum opus. Aliás, para Orson Welles, é “o melhor filme de comédia alguma vez feito, o melhor filme sobre a Guerra Civil alguma vez feito, e talvez o melhor filme alguma vez feito.” Lapidar.
Numa folha da Cinemateca Portuguesa pode ler-se que “os grandes burlescos perceberam cedo que a sofisticação dos seus gags exigia o respeito pela continuidade temporal. No cinema de Keaton, que a esse sentido do desenvolvimento temporal do gag aliava o gosto da proeza física “sem batota”, o tempo da ação e o tempo do plano tendem a coincidir. The General abunda em exemplos disso, nalgumas das mais elaboradas coreografias cómicas da história do cinema.
Porém, aquando da sua estreia o filme não recebeu o reconhecimento do público, foi mesmo um fracasso de bilheteira que mexeu profundamente com a carreira do cómico. A United Artists abandonou-o, foi empurrado para a MGM onde as condições de trabalho eram o oposto daquilo a que estava habituado: perdeu a liberdade criativa. A partir daqui os seus filmes foram artisticamente mais pobres, adaptando-se sem grande resistência ao cinema sonoro, mas com um número pouco significativo de obras no novo formato, sendo preponderante a sua participação como actor. Apesar deste abanão e de aparentemente estar condenado ao esquecimento, a sua carreira foi-se recompondo a partir dos anos quarenta, reaparecendo em papéis em que o seu cunho pessoal era trunfo para os muitos filmes em que entrou até à sua morte em 1966.
Todavia a obra de Keaton não se esgota em The General. Filmes como One Week (1920), em que um casal recém-casado tenta construir uma casa com um kit pré-fabricado, sem saber que um rival sabotou a numeração dos componentes do kit. Basta imaginar o que se segue, Sherlock Jr. (1924), sobre um projecionista de cinema sonha em ser detetive e recorre às suas escassas competências quando é incriminado por um rival pelo roubo do relógio de bolso do pai da sua namorada, aqui com dois papéis, exibindo um dom da ubiquidade até então não reservado a humanos, Seven Chances (1925), a incrível história de um homem que fica a saber que herdará uma fortuna se se casar até às 19h dessa tarde, bem como The Navigator (1924) que, como The General, em vez da locomotiva se centra num barco.
O seu reconhecimento como cineasta veio em 1959 com a atribuição pela Academia do Óscar Honorífico pelo conjunto da sua obra, a que se seguiu, em 1962, a memorável retrospectiva na Cinemateca Francesa, apresentada por Henri Langlois, com uma incrível ovação de 15 minutos em pé, a que se seguiu em 1963 uma Mostra em Veneza. Por esta altura Buster Keaton era mais popular que Chaplin. Justiça tinha sido feita.
Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico