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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Opinião Formar para o mundo real exige contacto com o mundo real

Que para formar para o mundo real precisamos de estar em contacto com o mundo real parece uma verdade de La Palisse. E, no entanto, o ensino superior continua, em muitos casos, a revelar dificuldade em sair da sua “torre de marfim”.

Num contexto marcado por turbulência geopolítica, económica, financeira e tecnológica (e sim, seria impossível escrever hoje um artigo sem mencionar a inteligência artificial, mesmo que apenas brevemente) os mercados transformam-se a ritmo acelerado, as profissões reinventam-se e as expectativas dos estudantes evoluem profundamente. As instituições de ensino superior enfrentam, por isso, um desafio claro e inadiável: formar pessoas preparadas para um mundo em permanente mudança.

Um mundo onde aquilo que ensinamos no primeiro ano pode já estar desatualizado quando os estudantes terminam o curso.

Esta preparação não se consegue ficando apenas dentro da sala de aula.

A ligação com as empresas não é um extra: é uma condição

Persistem ainda, em muitas instituições, abordagens que tratam a relação com o tecido empresarial como um “extra interessante” - um nice to have, quando na verdade deveria ser um must have. Esta visão subestima o potencial transformador de uma ligação consistente às organizações, quer ao nível local, quer nos setores específicos de cada área de formação.

Na prática, a ligação entre o ensino superior e as empresas é uma condição estrutural para:

  • a relevância e atualização dos conteúdos curriculares;
  • a empregabilidade efetiva dos diplomados;
  • o envolvimento e a motivação dos estudantes;
  • o posicionamento estratégico e a sustentabilidade das próprias instituições.

Quando os estudantes percebem para que serve aquilo que estão a aprender, algo muda:a teoria deixa de ser abstrata e passa a ser ferramenta. A motivação cresce, a aprendizagem aprofunda-se e o ensino ganha densidade, atualidade e propósito.

Esta ligação pode assumir múltiplas formas: palestras e seminários, visitas in loco, projetos aplicados ou experiências mais imersivas.

Um exemplo concreto: a Semana (DEI)mpacto

A Semana (DEI)mpacto, desenvolvida em parceria entre a ESCE-IPS e o El Corte Inglés, ilustra de forma particularmente clara o impacto deste tipo de iniciativas.

Em fevereiro de 2026, durante uma semana, estudantes do curso de Gestão de Recursos Humanos saíram do contexto académico e entraram diretamente no terreno. No El Corte Inglés, acompanhados por Paula Lobinho e pela sua equipa, observaram de perto o funcionamento operacional e o trabalho desenvolvido na área de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), com especial enfoque na integração de populações diversas e em situação de vulnerabilidade.

A experiência foi além da organização anfitriã. Os estudantes visitaram também diferentes parceiros, o que lhes permitiu observar, in loco, o impacto concreto destas práticas.

Os resultados ultrapassaram largamente a dimensão da aprendizagem curricular.

Os estudantes saíram com:

  • uma compreensão mais rica e contextualizada da realidade organizacional;
  • uma visão concreta sobre como a DEI pode ser operacionalizada de forma genuína e sustentável;
  • ideias claras sobre como aplicar estes princípios no seu futuro profissional.

Do lado institucional, os ganhos são igualmente evidentes: reforço de parcerias e produção científica em inovação pedagógica. A segunda edição da Semana (DEI)mpacto está já prevista para julho, sinal de que este tipo de iniciativa não tem de ser episódico e pode ser estruturante.

Não é uma revolução, é uma decisão estratégica

Este caminho está ao alcance de qualquer instituição, independentemente da sua dimensão ou dos recursos disponíveis. Não exige uma revolução, mas sim uma decisão: abrir espaço à inovação pedagógica e estabelecer uma intenção clara de aproximação ao mundo real.

Três perguntas simples podem servir de ponto de partida:

  1. Que organizações existem à nossa volta e podem enriquecer os conteúdos que ensinamos?
  2. Como podemos transformar conhecimento teórico em desafios aplicados com impacto real?
  3. Que experiências podemos criar que façam sentido tanto para os estudantes como para as organizações?

As respostas devem ser construídas em diálogo com o tecido empresarial — desde membros de comissões de acompanhamento a orientadores de estágio ou parceiros convidados para atividades letivas.

Abrir portas é ampliar a missão

Abrir as portas ao mundo não significa perder identidade académica. Significa ampliá-la.

O ensino superior tem uma responsabilidade que vai além da transmissão de conhecimento: preparar pessoas para agir, decidir e contribuir numa sociedade em transformação acelerada. E isso exige contacto com a realidade não como complemento, mas como princípio pedagógico.

Num tempo em que a informação está amplamente disponível, as instituições que melhor cumprem a sua missão não são necessariamente as que acumulam mais conhecimento.

São as que melhor conseguem ligar o que sabem àquilo que o mundo precisa.

Helena Martins
Coordenadora da Licenciatura em Gestão de Recursos Humanos da Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal.