Que para formar para o mundo real precisamos de estar em contacto com o mundo real parece uma verdade de La Palisse. E, no entanto, o ensino superior continua, em muitos casos, a revelar dificuldade em sair da sua “torre de marfim”.
Num contexto marcado por turbulência geopolítica, económica, financeira e tecnológica (e sim, seria impossível escrever hoje um artigo sem mencionar a inteligência artificial, mesmo que apenas brevemente) os mercados transformam-se a ritmo acelerado, as profissões reinventam-se e as expectativas dos estudantes evoluem profundamente. As instituições de ensino superior enfrentam, por isso, um desafio claro e inadiável: formar pessoas preparadas para um mundo em permanente mudança.
Um mundo onde aquilo que ensinamos no primeiro ano pode já estar desatualizado quando os estudantes terminam o curso.
Esta preparação não se consegue ficando apenas dentro da sala de aula.
A ligação com as empresas não é um extra: é uma condição
Persistem ainda, em muitas instituições, abordagens que tratam a relação com o tecido empresarial como um “extra interessante” - um nice to have, quando na verdade deveria ser um must have. Esta visão subestima o potencial transformador de uma ligação consistente às organizações, quer ao nível local, quer nos setores específicos de cada área de formação.
Na prática, a ligação entre o ensino superior e as empresas é uma condição estrutural para:
Quando os estudantes percebem para que serve aquilo que estão a aprender, algo muda:a teoria deixa de ser abstrata e passa a ser ferramenta. A motivação cresce, a aprendizagem aprofunda-se e o ensino ganha densidade, atualidade e propósito.
Esta ligação pode assumir múltiplas formas: palestras e seminários, visitas in loco, projetos aplicados ou experiências mais imersivas.
Um exemplo concreto: a Semana (DEI)mpacto
A Semana (DEI)mpacto, desenvolvida em parceria entre a ESCE-IPS e o El Corte Inglés, ilustra de forma particularmente clara o impacto deste tipo de iniciativas.
Em fevereiro de 2026, durante uma semana, estudantes do curso de Gestão de Recursos Humanos saíram do contexto académico e entraram diretamente no terreno. No El Corte Inglés, acompanhados por Paula Lobinho e pela sua equipa, observaram de perto o funcionamento operacional e o trabalho desenvolvido na área de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), com especial enfoque na integração de populações diversas e em situação de vulnerabilidade.
A experiência foi além da organização anfitriã. Os estudantes visitaram também diferentes parceiros, o que lhes permitiu observar, in loco, o impacto concreto destas práticas.
Os resultados ultrapassaram largamente a dimensão da aprendizagem curricular.
Os estudantes saíram com:
Do lado institucional, os ganhos são igualmente evidentes: reforço de parcerias e produção científica em inovação pedagógica. A segunda edição da Semana (DEI)mpacto está já prevista para julho, sinal de que este tipo de iniciativa não tem de ser episódico e pode ser estruturante.
Não é uma revolução, é uma decisão estratégica
Este caminho está ao alcance de qualquer instituição, independentemente da sua dimensão ou dos recursos disponíveis. Não exige uma revolução, mas sim uma decisão: abrir espaço à inovação pedagógica e estabelecer uma intenção clara de aproximação ao mundo real.
Três perguntas simples podem servir de ponto de partida:
As respostas devem ser construídas em diálogo com o tecido empresarial — desde membros de comissões de acompanhamento a orientadores de estágio ou parceiros convidados para atividades letivas.
Abrir portas é ampliar a missão
Abrir as portas ao mundo não significa perder identidade académica. Significa ampliá-la.
O ensino superior tem uma responsabilidade que vai além da transmissão de conhecimento: preparar pessoas para agir, decidir e contribuir numa sociedade em transformação acelerada. E isso exige contacto com a realidade não como complemento, mas como princípio pedagógico.
Num tempo em que a informação está amplamente disponível, as instituições que melhor cumprem a sua missão não são necessariamente as que acumulam mais conhecimento.
São as que melhor conseguem ligar o que sabem àquilo que o mundo precisa.