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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Henrique Monteiro, jornalista 'O jornalismo está a perder o distanciamento e a objetividade'

14-09-2026

Desencantado com profissão que exerce há quase 50 anos, Henrique Monteiro afirma que é a falta de confiança no jornalismo que explica que «as pessoas hoje olham para um jornal qualquer da mesma forma que olham para uma página de Facebook.»

É jornalista há quase cinco décadas e celebrou precisamente na véspera do dia em que falamos, 70 anos. O que mudou mais profundamente no jornalismo português: a forma de fazer jornalismo ou a forma como os cidadãos olham para os jornalistas?

Para ser franco, acho que mudou tudo e para pior. A começar a forma como se faz jornalismo e os próprios instrumentos com que se faz o jornalismo. Em segundo lugar, a forma como os cidadãos acedem ao jornalismo. Hoje em dia não se discute tanto factos e acontecimentos, mas sim intenções e opiniões. Veja o exemplo mais recente, na educação, da digitalização dos exames do secundário, que foi um processo confuso, de facto, mas que foi transformado em algo terrível e com consequências tenebrosas, quando, ao fim ao cabo, não foi bem assim. A opinião é livre, mas os factos são sagrados. Por isso, entendo que o jornalismo está a perder o distanciamento e a objetividade. Parece que os factos são feitos à medida para o que nos interessa para formular uma opinião. E isto é grave, não pode acontecer.

A pressão das redes sociais e do imediatismo agravou esta situação?

Sim. E normalmente, está instalada uma lógica de mais confrontação e de autêntica arena que não ajuda. O jornalismo está impregnado em demasia de comunicação, que são disciplinas que não têm propriamente o mesmo objetivo. A primeira pretende contar a verdade, não abdicando de ser fiel aos factos, enquanto a segunda pretende chegar a mais pessoas, mesmo que para tal tenha de distorcer os factos. O jornalismo não pode simplificar em demasia as mensagens que veicula.

Que dimensões assume a crise do jornalismo: valores, identidade, financeira e, já agora, também de confiança?

Totalmente. No que à dimensão da confiança diz respeito, as pessoas hoje olham para um jornal qualquer da mesma forma que olham para uma página de Facebook. Depois é natural que não façam a distinção entre o que é falso e o que é certo e acabam por baralhar tudo. Confesso que me sinto algo desgostoso com a minha profissão. Sou do tempo em que os jornalistas até ganhavam bem, esta era uma profissão que granjeava confiança na opinião pública, e em que as notícias não eram dadas com tanta leviandade como acontece hoje.

Atualmente, quem define verdadeiramente a agenda pública: os jornalistas, as redes sociais ou os próprios políticos?

Quem define a agenda são os interessados na agenda, sejam eles pessoas ligadas à política, à economia ou ao desporto. O jornalismo deixou de ser uma plataforma de mediação entre quem tem a informação e quem não a tem, para passar a ser uma arena onde se digladiam os interesses e acontecem conversas destrutivas e antagónicas.

O definhamento dos jornais impressos acelerou após a pandemia. O fim do papel é uma questão de tempo?

Gostaria que não fosse. Quando fui diretor do «Expresso» atingi o recorde, algures em 2006, da edição com maior número de venda em banca, mais de 220 mil exemplares. Mas é preciso dizer que essa foi uma das edições em que oferecíamos…DVD! Hoje em dia não se vai a um jornal impresso procurar uma notícia. Isso está na internet e na televisão, em tempo real. Os jornais devem procurar fazer o que faz, por exemplo, o «The Economist», em que a redação acrescenta valor às notícias que circulam ao alcance de todos. Se assim for, acredito que as pessoas irão continuar a estar interessadas e compradoras de títulos em banca que expliquem o que se passa diante dos nossos olhos. Em suma, acredito que o papel não está condenado, vai aproximar-se a um produto de nicho, com valor acrescentado, provavelmente mais caro do que é hoje e com edições publicadas com uma periodicidade mais dilatada.

Pedro Duarte, presidente da Câmara Municipal do Porto, admitiu o financiamento público do jornalismo como “antídoto” contra a desinformação nas redes. Seria um caminho para contrariar o declínio ou identifica alternativas?

Não me agrada muito a ideia, apesar de acreditar ser bem-intencionada. Não vejo com bons olhos um jornalismo financiado publicamente que acaba, inevitavelmente, por ser orientado por quem o financia. É muito difícil ser completamente independente relativamente a quem paga.

Depois de ter sido vários anos diretor, e de estar ligado ao jornal desde 1989, quando entrou como redator, é atualmente colunista no semanário «Expresso». Como é estar ligado há quase 40 anos a um jornal, fundado por Pinto Balsemão, considerado por muitos um dos bastiões do Portugal democrático?

Em 1989, fui contratado para o «Expresso» quando estava nos Estados Unidos, eram 3 da manhã. Estava em «O Jornal» e vim de um ambiente de liberdade para outro contexto de liberdade. Já conhecia Pinto Balsemão de trabalhos políticos anteriores e com a convivência no «Expresso», aproximámo-nos e ficámos amigos. Ele teve um grande papel com a sua visão sobre a liberdade de imprensa e não esqueço que pugnou sempre pela criação de conselhos de redação. E apelava à responsabilidade dos próprios jornalistas. Balsemão lia o jornal de fio a pavio e criticava, quando entendia que devia fazê-lo, mas como diretor, jornalista e até como colunista sempre escrevi o que quis.

Sucede na direção do «Expresso» à longeva liderança do arquiteto José António Saraiva. Entre 2006 e 2011 apanha em pleno o primeiro governo de José Sócrates. Como foi a relação com o poder?

Foi péssima. Deixámos de nos falar por causa do curso dele. Na véspera da saída do jornal ele exigiu que retirássemos uma notícia. Mas ele não desmentiu a notícia, só berrou ao telefone comigo e a notícia foi publicada. Em 2009, Sócrates voltou a concorrer e ganhou as eleições. Nessa altura, solicitámos uma entrevista e ele como condição exigiu que eu, o diretor, não fosse. Obviamente que a entrevista não se chegou a realizar. Foi o único candidato a primeiro-ministro que não foi entrevistado.

Como vê a tendência mais recente de os políticos preferirem ser entrevistados por “influencers” para” podcasts” do que para jornais?

É o sinal da falta de importância dos jornais. Há um ditado antigo que diz que quem não se dá ao respeito, não pode ser respeitado. Por exemplo, como é que se aceita participar em conferências de imprensa sem direito a perguntas? Sabendo disto antecipadamente, os jornalistas deviam sair imediatamente da sala ou nem lá aparecer. Outro exemplo: não podemos fazer noticiários em que tudo o que se mostra do Chega é o que parece que este partido fez mal. E eu sou insuspeito, porque não tenho qualquer simpatia por este partido.

 «O melhor ofício do mundo, o pior emprego do mundo» foi o mote de um painel durante o 5.º Congresso dos Jornalistas, em janeiro de 2024. Como antecipa o futuro da profissão e a passagem de testemunho às novas gerações?

Não vai deixar de haver jornalistas. A profissão vai prevalecer. Coisa diferente é se as pessoas vão conseguir subsistir financeiramente apenas a viver dela. Bem sei que as novas gerações trabalham muito. O que acontece é que alguns dos que acedem à profissão pensam que se trata de uma escada para a fama. Cinco ou 10 por cento até podem lá chegar, os restantes ficam na obscuridade, o que não é propriamente mau. Como principais “handicaps” identificaria a falta de cultura geral no conjunto das redações, a par com a crescente falta de memória. Acho que uma redação sai a ganhar se for constituída por pessoas com várias origens e conhecimentos em comparação com uma que não seja. Quando eclodiu o conflito no Irão e o bloqueio do estreito de Ormuz lembrei-me logo da importância desta zona do globo no século XVI e que está bem presente nos livros de História. O saber é um aspeto decisivo.

E que conselho daria a quem está ou pretende seguir a profissão?

Um conselho básico: se não sabes, pergunta. De preferência, a quem souber responder.

No seu livro «A História Repete-se» olha para a história de Portugal para identificar padrões que parecem regressar. Quais são, hoje, os erros do passado que mais o preocupam e que estejamos a repetir?

Os erros não se repetem só em Portugal, mas no mundo todo. Um dos grandes problemas é não aprendermos com a História. Esquecemo-nos ou desconhecemos o que aconteceu no passado. E assistimos à regressão de valores e à irresponsabilidade das lideranças políticas e diplomáticas que em tudo se assemelha à ascensão do nazismo, entre 1925 e 1939. É inquietante observar a radicalização e o desprezo pelo centro político. Perante isto, as pessoas parecem não ter a menor noção. Por exemplo, a Europa não poderia depender para sempre dos Estados Unidos e nunca se preparou para essa eventualidade que acabou por chegar.

O fenómeno migratório é o principal desafio que o «velho» continente enfrenta?

Tenho uma certeza: quem não entrar na Europa pela porta, vai entrar pela janela. Temos de ter uma política, ao mesmo tempo, seletiva e aberta. Quem entra para nos destruir, deve ficar fora. Mas quem procura a sua subsistência pelo trabalho, deve ser acolhido. O império romano era extremamente desenvolvido, mas era rodeado por povos de várias nações e tribos que precisavam de comer e ambicionavam participar na distribuição da riqueza. E aquilo a que chamamos de invasões bárbaras foram migrações. Mais uma vez a História explica e deve servir de ensinamento. E a Europa deve guiar-se pela ideia humanista, como farol, exemplo e símbolo da sua singularidade.

 

A CARA DA NOTÍCIA

Quase 40 anos no jornal de Balsemão

Henrique Monteiro nasceu a 1 de setembro de 1956, em Lisboa. É jornalista desde 1979 e foi diretor do «Expresso» (onde entrou em 1989, pertenceu à direção do jornal entre 1995 e 2005, tendo sido diretor entre 2005 e 2011), onde se mantém como colunista e figura de referência. Ao longo de praticamente cinco décadas de carreira, distinguiu-se pela análise política e a atenção constante aos temas da História e da identidade nacional. É, desde 2021, membro do conselho coordenador da associação cívica SEDES, nas direções presididas pelo médico Álvaro Beleza.

Nuno Dias da Silva
Renato Arroyo / Direitos Reservados
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