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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Nuno Delgado, judoca medalhado nos Jogos Olímpicos de 2000 Há 20 anos a treinar campeões para a vida

25-05-2026

Trazer os valores do judo para o ensino público e fazer desta modalidade uma ferramenta educacional são os objetivos de Nuno Delgado, numa altura em que a escola que fundou completa 20 anos de existência.

A medalha de bronze olímpica em Sydney, conquistada a 19 de setembro de 2000, significou um virar de página para si e para o judo em Portugal?

Em termos pessoais, foi a concretização de um sonho de criança. Mais do que um virar de página, foi um virar de enciclopédia. Para a modalidade também foi um momento muito importante. Atingir uma medalha olímpica, que é o ponto mais alto para qualquer atleta, foi o dobrar do Cabo Bojador. E abriu portas para que hoje tenhamos já quatro medalhados olímpicos no judo português. A modalidade conseguiu dimensão desportiva e o reconhecimento da sociedade. Passados 26 anos, continuo fiel ao meu objetivo de trazer os valores do judo para o ensino público.

O judo é, a par com a vela, a segunda modalidade com mais medalhas (4), com as conquistas de Nuno Delgado, Telma Monteiro, Jorge Fonseca e Patrícia Sampaio, só superado pelo atletismo, com 13. Estas conquistas são fruto de um trabalho amplo na modalidade ou de casos esporádicos de talento?

Há uma notória evolução. Sou fruto de uma geração dos anos 90, a chamada geração de ouro. Um conjunto de judocas, em que eu me incluía, internacionalizaram o estatuto da modalidade em Portugal, resultado de um trabalho árduo, um perfil de alta competição, quase profissional, em tudo semelhante ao feito pelo professor Moniz Pereira, no atletismo. Em 1999, sou campeão europeu, o que foi o primeiro pódio sénior em grandes competições. Tinha acabado de terminar o meu curso universitário e decidi ser profissional de judo. Criaram-se as condições para se conquistar uma medalha olímpica no ano 2000 e tive a felicidade ser o primeiro. Sinto que posteriormente existiu alguma estagnação, até porque a medalha olímpica seguinte no judo é conquistada apenas em 2016, no Rio de Janeiro, pela Telma Monteiro. Curiosamente, nas últimas três edições dos Jogos fomos a única modalidade portuguesa a conquistar sempre medalhas, o que é consequência de um trabalho estruturado que, gostaria de realçar, é desenvolvido por técnicos portugueses.

Após várias lesões e a eliminação nos Jogos Olímpicos, em Atenas (2004), abandonou a competição. Dois anos depois criou a escola batizada com o seu nome e que é um projeto pessoal, desportivo, cívico e social. Como é que surgiu a ideia?

A Escola de Judo Nuno Delgado cumpre 20 anos no próximo dia 6 de setembro. Mas vamos já iniciar em julho as comemorações com o Grande Prémio Nuno Delgado que vai mobilizar toda a nossa comunidade. Respondendo diretamente à pergunta, este projeto nasceu da adversidade. Num curto espaço de tempo sofri 11 lesões e na minha vida pessoal deparei-me com várias contrariedades: separações, a doença da minha mãe, etc. Situações que desvalorizei, mas que condicionavam fortemente o meu desempenho, no treino e na competição. Em suma, aspetos mentais e de vida pessoal que há cerca de 20 anos eram menosprezados. Em Atenas não tive o resultado que esperava, mas foi uma grande aprendizagem. Abandonei a competição e comecei a estabelecer contactos com escolas e a fazer mentorias para empresas. Nesta nova fase da minha vida acreditei que podia começar a conquistar “medalhas” na minha vida fora do tatami, como mestre. A Escola de Judo Nuno Delgado mais não é do que uma ferramenta cívica e desportiva assente na criação de uma marca com o meu nome. Eu gostava muito de formar pessoas, mas não me identificava muito com o que a educação física estava a fazer nas escolas.

Como é que esta escola dá os primeiros passos?

Inicialmente, começámos em escolas de várias cidades do país. O objetivo era chegar a todos os estabelecimentos do país, mas os tatamis, os fatos de judo e os treinadores exigiam um elevado investimento disponível. Em 2011, organizei «a maior aula de judo do mundo», no Terreiro do Paço, em Lisboa, juntando mais de 5 mil pessoas.  Depois lançou-se a iniciativa «a maior aula de judo vai à tua escola». E esses contactos permitiram-me ficar a conhecer melhor o funcionamento do nosso sistema de ensino. Cheguei a ir até à África do Sul, onde apresentei o projeto da escola à Fundação Nelson Mandela, e fiz o mesmo na União Europeia, tendo depois sido convidado para trabalhar no departamento de educação. Seguidamente, surgiu a oportunidade de começar a trabalhar mais de perto com os municípios e os respetivos departamentos de educação, que considero o passo mais decisivo para olhar para o judo como uma ferramenta educacional. Atualmente, a escola movimenta cerca de 4 mil famílias, que têm crianças no ensino público, pré-escolar e 1.º ciclo, que têm aulas regulares ao longo do ano, uma vez por semana ou em blocos de 12 sessões, abrangendo um universo significativo de escolas na Área Metropolitana de Lisboa. Isto para além de 10 centros geridos entre as escolas, alguns colégios e o Instituto do Desporto. E inclusive já levámos uma atleta aos jogos olímpicos de Paris, a Taís Pina.

O desporto para além de uma ferramenta de educação também pode formar cidadãos mais preparados e resilientes?

O desporto é uma ferramenta de capacitação do cidadão. As escolas já perceberam que o judo é, de facto, um desporto com um grande potencial e um parceiro muito útil.  O judo é muito mais do que um desporto, é uma arte marcial e um modelo educativo criado pelo mestre japonês Jigoro Kano, fortemente inspirado pelos valores olímpicos do Barão Pierre de Coubertin. Por isso, subjacente ao judo há uma raiz filosófica, moral e estética. Depois da pandemia e com os desafios surgidos com a proliferação e dependência dos ecrãs, as crianças e os jovens cada vez mais precisam de ser fortes para ser úteis, aprendendo com os valores do judo a lidar com o dia a dia.

O lema da escola é «formar campeões para a vida». Significa isto que o desporto é muito mais do que ganhar medalhas e títulos?

Sem dúvida. Nós adaptámos esse lema e atualmente achamos mais adequado dizer que a nossa missão é «treinar campeões para a vida». O enfoque na rotina do treino e de transformação é algo que sentimos que é uma mensagem importante nesta fase que estamos a viver.  Nas crianças é fundamental fazer com que elas olhem para o seu potencial e não para as suas dificuldades. Conto sempre esta história: aos 7 anos o judo mudou a minha vida. Era hiperativo, disléxico, negro e apresentava algumas dificuldades de socialização. O judo ofereceu-me a magia de olhar para as minhas qualidades e o meu talento. Por isso, a prática desportiva pode ser uma mudança para qualquer ser humano. As crianças e os jovens estão muito individualistas, vão para a faculdade sem saberem o que é a sociedade, pouco ou nada conhecedores do que é ter responsabilidades. O judo confere-lhes autonomia e responsabilidade. Aqui treinamos «a decisão em ação» em combate, considerada uma ferramenta muito importante, em que não se pode vacilar. Também entendo que a escola devia estar mais focada nestas qualificações, no aprender a decidir, em vez de debitar informação para o aluno decorar e responder no teste.

Fala-se muito que falta cultura e projeto no plano desportivo em Portugal, mas o investimento também é quase sempre curto. Qual é que acha que é o mais deficitário?

O dinheiro vai sempre faltar. Mas acho que, neste momento, é um homem do futebol que está a fazer a transformação necessária e falo do presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP). Desde que Fernando Gomes tomou posse no COP trouxe a organização, a estrutura e o profissionalismo que o futebol tinha, para além da criação do primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo. Por isso, creio que as sementes, que há muito eram desejadas, já foram lançadas à terra. Acredito que nos próximos anos veremos o nosso desporto a recuperar de lacunas que existem desde o 25 de abril. Por exemplo, continuamos a viver do modelo das coletividades, muito centrado no Estado, e que dividiu o desporto em vários «quintais».

 

A CARA DA NOTÍCIA

Um atleta com nome de escola

Nuno Delgado nasceu a 27 de agosto de 1976, em Lisboa. É licenciado em Ciências do Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana e pós-graduado pela Universidade de Bath (Reino Unido). Conquistou em 2000, em Sydney, a primeira medalha olímpica do judo português. É fundador, mentor e presidente da Escola de Judo Nuno Delgado. No movimento olímpico, foi membro do Conselho Nacional do Desporto, participou na criação da Comissão de Atletas Olímpicos de Portugal, foi adjunto do Chefe de Missão Olímpica em Londres 2012 e porta-estandarte da missão olímpica em Atenas 2004.

Nuno Dias da Silva
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