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Lídia Pereira, eurodeputada 'A União Europeia é um espaço de direitos, oportunidades e proteção'

22-06-2026

Uma das principais conquistas, e que ainda não está plenamente interiorizada nos cidadãos, é que a União Europeia é muito mais do que uma fonte de financiamento. A eurodeputada Lídia Pereira defende ainda que «a literacia financeira ainda não está suficientemente enraizada» e que a escola deve preparar os jovens para reconhecer riscos, verificar fontes, distinguir informação de publicidade e perceber que qualquer decisão financeira tem consequências.»

Está em Bruxelas, como eurodeputada, desde 2019, sendo a segunda parlamentar nacional mais jovem, com 34 anos. Do tempo que leva nesta função, sente que se tem evoluído no fortalecimento do sentimento de pertença do que é ser europeu?

Sim, mas diria que essa evolução não foi linear. Desde 2019, a Europa atravessou momentos muito exigentes, como a pandemia, a guerra na Ucrânia, a crise energética, a inflação, a pressão migratória, a instabilidade geopolítica. Em muitos destes momentos, os cidadãos perceberam que a União Europeia não é uma entidade distante, mas uma comunidade política que tem impacto direto na sua segurança, na sua economia e na sua vida quotidiana. A pandemia foi talvez um dos momentos em que isso se tornou mais evidente. A compra conjunta de vacinas, o certificado digital e o plano de recuperação europeu mostraram que, quando a Europa atua unida, tem mais capacidade de resposta. A guerra na Ucrânia reforçou essa consciência: percebemos que a paz, a liberdade e a democracia não são garantidas, e que ser europeu também significa defender esses valores.

Em Portugal, o projeto europeu ainda está muito associado a fundos estruturais, à união monetária e à livre circulação de pessoas e bens, mas diariamente nos parlamentos de Bruxelas e Estrasburgo são tomadas decisões que afetam os cidadãos dos 27 estados-membros da União Europeia. 40 anos depois da nossa adesão, em 1986, quais são as conquistas que os cidadãos ainda não percecionaram?

Portugal beneficiou muito dos fundos europeus, da moeda única e da liberdade de circulação. Isso é evidente e não deve ser desvalorizado. Mas a União Europeia é hoje muito mais do que isso. Há conquistas que muitas vezes passam despercebidas porque já fazem parte da normalidade. A possibilidade de estudar noutro país europeu através do Erasmus. A proteção dos consumidores. A segurança alimentar. A qualidade da água. A proteção de dados. A redução de custos de “roaming”. A defesa de direitos laborais e sociais. A existência de regras comuns que permitem às empresas portuguesas venderem para um mercado muito maior. Também há uma dimensão externa que nem sempre é percecionada. Portugal, sozinho, teria uma capacidade limitada para influenciar regras comerciais, ambientais, digitais ou financeiras a nível global. Através da União Europeia, participa num bloco com escala económica, política e regulatória. Isso dá-nos peso. A grande conquista que talvez ainda não esteja plenamente interiorizada é que a União Europeia não é apenas uma fonte de financiamento. É um espaço de direitos, de oportunidades e de proteção. E, para Portugal, é também uma forma de ganhar escala no mundo.

Portugal continua a ser um beneficiário líquido da UE, o que significa que recebe mais fundos comunitários do que aquilo que contribui. Contudo, são diversas as vozes que alertam que, fruto do alargamento, os fundos serão, cada vez, mais escassos. O país está a preparar-se para esse cenário?

Portugal tem de se preparar melhor, porque o próximo quadro financeiro europeu será muito exigente, porque haverá mais prioridades a disputar recursos: defesa, Ucrânia, competitividade, transição climática, migrações, inovação e, naturalmente, o eventual alargamento. Isto significa que Portugal não pode continuar a olhar para os fundos europeus como uma garantia permanente nos mesmos moldes. Temos de usar os recursos atuais para transformar estruturalmente a economia, e não apenas para financiar despesa ou projetos avulsos. Os fundos devem servir para aumentar produtividade, qualificação, inovação, capacidade industrial, transição digital e valorização dos territórios. Por isso, a pergunta essencial é se quando Portugal receber menos, estará mais competitivo? É essa a preparação que importa. Se os fundos forem usados para criar dependência, falhámos. Se forem usados para criar autonomia, empresas mais fortes, instituições mais eficientes e melhores condições para os jovens ficarem no país, então estaremos mais bem preparados.

Depois da pandemia, declarada em março de 2020, que testou com bons resultados a união e a coordenação da UE, a 24 de fevereiro de 2022 a Federação Russa invadiu a Ucrânia. Muitos disseram que do desenlace desse conflito dependeria o futuro existencial do projeto europeu. O plano de rearmamento da Europa é o passo certo para garantir a independência face a parceiros externos?

É um passo necessário, mas não pode ser apenas um aumento de despesa. A Europa precisa de investir mais em defesa, porque durante demasiado tempo confiou que a segurança estaria garantida por outros. A guerra na Ucrânia mostrou que essa dependência tem custos.

Mas rearmar a Europa deve significar mais capacidade, mais coordenação e mais indústria europeia. Não basta cada Estado-Membro comprar mais equipamento de forma isolada. Isso pode aumentar a despesa sem aumentar verdadeiramente a segurança europeia. Precisamos de compras conjuntas, interoperabilidade, investimento em inovação, ciberdefesa, drones, munições, defesa aérea e capacidade industrial.

O alargamento do projeto europeu prioriza agora países dos Balcãs Ocidentais e do Leste Europeu. Admite que esta evolução possa reforçar uma ideia solidificada de que a Europa é um gigante económico, mas, nas decisões diplomáticas, de defesa e política externa, continua a ser um anão político e militar?

Esse risco existe, se o alargamento não for acompanhado de reformas internas. A União Europeia é uma potência económica e regulatória, mas nem sempre consegue traduzir esse peso em influência geopolítica. Muitas vezes, demora demasiado a decidir, fala com várias vozes e hesita em momentos em que a rapidez é fundamental. O alargamento é uma necessidade estratégica, na medida em que temos de olhar para os Balcãs Ocidentais, a Ucrânia, a Moldávia e outros países, não são apenas enquanto candidatos “administrativos”, mas como parte da arquitetura de segurança europeia. Mas uma União maior, sem uma capacidade de decisão mais eficiente, pode tornar-se mais lenta e mais vulnerável.  Por isso, o alargamento deve andar lado a lado com reformas institucionais que tornem a União Europeia mais eficaz.

A transição climática e o ambiente são áreas em que mais intervém enquanto eurodeputada. Liderou a delegação do Parlamento Europeu à COP30, em Belém, no Brasil. Do lado europeu, está a ser conseguido descarbonizar sem penalizar a economia?

A Europa tem conseguido reduzir emissões, mas o desafio agora é garantir que a transição climática é também uma estratégia de competitividade. A descarbonização não pode significar desindustrialização. Se fecharmos fábricas na Europa para importar produtos feitos com padrões ambientais mais baixos, não estamos a proteger o clima. Estamos apenas a transferir emissões, emprego e capacidade produtiva para outros lugares. A resposta tem de passar por energia mais limpa e mais acessível, simplificação regulatória, investimento em inovação, proteção contra concorrência desleal e apoio às empresas que querem fazer a transição. A indústria europeia não pode ser vista como adversária da transição climática, tem de ser parte da solução. E na COP30, em Belém, essa mensagem foi particularmente importante.

A evolução da Inteligência Artificial na Europa tem procurado equilibrar um crescimento de mercado robusto e uma rápida adoção tecnológica com uma regulação pioneira, plasmada no «EU Artificial Intelligence Act». Nesta corrida que promete definir a evolução do mundo nas próximas décadas, concorda com a abordagem mais cautelosa e prudente seguida pela UE?

Concordo com a ideia de que a Inteligência Artificial precisa de regras, sobretudo quando estão em causa direitos fundamentais, segurança, transparência e confiança. A Europa tem razão em querer garantir que a tecnologia serve as pessoas, e não o contrário. Mas também temos de ser honestos, porque regular bem não é o mesmo que regular muito. O risco europeu é criar um enquadramento tão complexo que acabe por afastar investimento, atrasar inovação e penalizar as nossas empresas, sobretudo “startups” e PME. Numa área em que Estados Unidos e China avançam rapidamente, a Europa não pode limitar-se a ser o regulador do mundo. Tem de ser também um produtor de tecnologia.

Foi a autora do relatório sobre literacia financeira aprovado a 30 de abril deste ano no Parlamento Europeu. Portugal ainda tem nesta área uma cultura muito incipiente?

Sim. Portugal tem feito progressos, mas a literacia financeira ainda não está suficientemente enraizada. Durante muitos anos, falar de poupança, investimento, crédito ou planeamento financeiro foi visto como algo técnico, quase reservado a especialistas. Isso é um erro. A literacia financeira é uma competência de vida. Ajuda as pessoas a compreenderem um contrato de crédito, a compararem custos, a evitarem fraudes, a planearem uma compra importante, a prepararem a reforma ou a investirem de forma mais consciente. Não é apenas sobre mercados financeiros. É sobre liberdade, segurança e autonomia. No caso português, esta dimensão é particularmente importante porque temos baixos níveis de poupança, dificuldades persistentes no acesso à habitação e uma relação ainda limitada com instrumentos de investimento. Se queremos cidadãos mais protegidos e uma economia mais dinâmica, a literacia financeira tem de começar cedo e continuar ao longo da vida.

O documento apresentado define normas para influenciadores financeiros, os denominados “finfluencers”, propondo um selo europeu de qualidade e medidas de literacia digital. Defende que conteúdos no âmbito do combate à fraude digital devem estar cada vez mais presentes nos programas educativos?

Defendo, sim, claramente. Hoje, muitos jovens têm o primeiro contacto com temas financeiros através das redes sociais. Isso não é necessariamente negativo. Há bons conteúdos digitais e há criadores que comunicam de forma simples e útil. O problema surge quando conselhos financeiros são apresentados como entretenimento, quando há publicidade escondida, promessas irrealistas de enriquecimento rápido ou recomendações sem transparência. A fraude digital tornou-se mais sofisticada. Já não falamos apenas de esquemas óbvios. Falamos de falsas plataformas de investimento, criptoativos promovidos sem explicação dos riscos, perfis falsos, manipulação emocional e conteúdos que exploram a vulnerabilidade de quem procura soluções rápidas. Por isso, a escola deve preparar os jovens para reconhecer riscos, verificar fontes, distinguir informação de publicidade e perceber que qualquer decisão financeira tem consequências. Literacia financeira e literacia digital têm de andar juntas.

O ingresso no mercado de trabalho ou a compra de habitação são marcos na vida de qualquer jovem. Uma educação/formação robusta nesta área possibilitaria a tomada de melhores e mais informadas decisões?

Sem dúvida. A entrada no mercado de trabalho, a gestão do primeiro salário, a escolha entre arrendar ou comprar casa, a contratação de crédito, a poupança para objetivos futuros: tudo isto exige conhecimentos que muitas vezes os jovens não recebem de forma estruturada. Não se trata de transformar todos os jovens em especialistas financeiros. Trata-se de lhes dar ferramentas básicas para fazerem perguntas certas. Qual é o custo total de um crédito? O que é uma taxa variável? Que impacto tem a inflação? Como se constrói uma poupança de emergência? Que riscos existem num investimento? Que direitos tenho enquanto consumidor? Uma boa educação financeira não resolve, por si só, problemas como salários baixos ou preços elevados da habitação. Mas ajuda as pessoas a tomar decisões mais informadas e a evitar erros que podem condicionar muitos anos da sua vida.

Tem uma presença forte nas redes sociais e no espaço mediático. Em que medida as suas intervenções contribuem para que quem a ouve ou lê possa ter um conhecimento mais informado sobre como funciona o Parlamento Europeu e as instituições europeias?

Comunicar faz parte do meu trabalho. O Parlamento Europeu toma decisões que afetam a vida das pessoas, mas muitas vezes essas decisões são explicadas numa linguagem demasiado técnica ou distante. O meu objetivo é traduzir o que acontece em Bruxelas e Estrasburgo para uma linguagem mais clara. Sempre que possível, procuro mostrar não apenas o resultado final, mas também o processo. A meu ver, isso ajuda a combater a ideia de que a União Europeia é uma máquina abstrata e incompreensível. Em certa medida, as redes sociais também permitem contacto direto com os cidadãos, sobretudo com os mais jovens. Mas essa presença tem de ser responsável. O objetivo não pode ser comunicar muito. Tem de ser comunicar com rigor, contexto e respeito pela complexidade dos temas.

É frequentemente convidada para dar palestras em escolas e ainda recentemente esteve num estabelecimento do ensino básico e secundário em Coimbra, cidade onde nasceu, para falar sobre o futuro do projeto europeu. Quais são as principais perguntas que lhe colocam?

Os jovens fazem perguntas muito diretas, e isso é uma das coisas que mais valorizo nesses encontros. Perguntam-me muitas vezes para que serve a União Europeia, se Portugal tem realmente influência, como se chega ao Parlamento Europeu, que impacto têm as decisões europeias na vida deles e se a Europa está preparada para o futuro. Também surgem muitas perguntas sobre guerra, alterações climáticas, Inteligência Artificial, Erasmus, emprego, habitação e participação política. Há uma preocupação clara com o futuro. E eu acho saudável que coloquem essas perguntas. A pior coisa para a democracia seria a indiferença. Quando os jovens questionam, obrigam-nos a explicar melhor, a justificar escolhas e a aproximar as instituições das pessoas. E isso é essencial para o futuro da Europa.

 

A CARA DA NOTÍCIA

Uma política da nova geração

Lídia Pereira nasceu em Coimbra, a 26 de julho de 1991. Eurodeputada no Parlamento Europeu, pelo PSD, desde 2019, é uma das figuras emergentes da nova geração de parlamentares em Bruxelas.  No Parlamento Europeu, é membro da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários, da Subcomissão dos Assuntos Fiscais, da Comissão do Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar, bem como da Comissão do Comércio Internacional. Integra ainda a Delegação para as Relações com a República Popular da China. Licenciou-se em Economia pela Universidade de Coimbra e concluiu um mestrado em Estudos Económicos Europeus no prestigiado Colégio da Europa, em Bruges. Foi a primeira portuguesa e a primeira mulher a liderar a Juventude do Partido Popular Europeu (YEPP), organização que reúne dezenas de movimentos juvenis de centro-direita de todo o continente. Em 2024, foi eleita vice-presidente do Grupo do Partido Popular Europeu (PPE), o maior grupo político do Parlamento Europeu, reforçando a influência portuguesa nas instituições europeias.

Nuno Dias da Silva
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