Transformar a maneira como o público encara a Química, revelando o lado apaixonante e humano das moléculas é o trabalho de divulgação científica levado a cabo pelo investigador português Nuno Maulide, que há mais de duas décadas desenvolve a sua atividade em algumas das mais prestigiadas universidades do mundo.
No livro «A Química das Emoções» pretende apenas explicar a química por detrás das emoções ou também mudar a forma como olhamos para elas?
O objetivo nunca foi reduzir as emoções à química. As emoções são química, mas há mais do que química nas emoções. Compreender a química e a sua relação com as emoções talvez nos ajude a vivê-las melhor. Do feedback que tenho tido do livro, constato que muitos de nós vivem as emoções como se fossem acontecimentos misteriosos. O medo, a esperança, a paixão e a ansiedade são emoções que dependem de mecanismos biológicos muito concretos. Antes de falar consigo, passou pelo meu gabinete uma aluna de investigação a quem lhe disse, na cara, que estava a ter, nos últimos meses, um desempenho abaixo do que eu esperava dela. Ela não controlou as emoções e desatou a chorar. Esta reação não pode, de forma alguma, ser vista como um defeito, na verdade as emoções são parte daquilo que somos. A poesia é indissociável das emoções, o que podia ser retirado é a culpa que está ligada a muitas emoções. Quando ouvimos alguém dizer, «fulano tal é muito emotivo», por norma não é visto como um elogio.
Disse numa entrevista recente que «o nosso corpo humano é uma fábrica de compostos químicos.» A dopamina, a adrenalina e a serotonina serão alguns dos mais conhecidos neurotransmissores por parte do público em geral. Pode enunciar alguns dos mais presentes no nosso dia a dia?
Uma só molécula não é uma emoção. Cada emoção é uma matriz de moléculas e cada molécula, em contextos diferentes, pode ter efeitos completamente distintos. A dopamina está muito associada a alguns dos momentos mais valiosos e poderosos da experiência humana, mas também começa a ser associada a alguns dos maiores vícios do ser humano. Em suma, cada emoção é uma sinfonia de moléculas e é a “orquestra” que se encarrega de ir mudando de uma emoção para a outra.
É corrente ouvir-se a expressão «ter ou não ter química» para a questão amorosa e relacional, num sentido mais lato. Temos mais ou menos afinidade e proximidade com outra pessoa, em função da química?
Sim, o fenómeno da paixão é mesmo assim. Está muito bem estudado. O mais interessante é perceber porque é que aquela pessoa desperta determinada química em mim e enquanto outra não. É isso que permanece um dos grandes mistérios. Também pode haver química profissional entre dois colegas de trabalho que trabalham próximo. Isso significa que são duas peças que encaixam em contexto laboral. É uma equipa de trabalho com química entre si. No meu caso concreto, foi preciso estar 15 anos a trabalhar em universidades para só aqui, em Viena, encontrar um colega, professor de química orgânica, com quem me entendo e trabalho às mil maravilhas. Não estamos sempre de acordo, mas temos um encaixe mútuo excelente. Por isso, posso dizer que tenho muito boa química com ele.
Vivemos numa época em que se fala muito de saúde mental. Refere no livro que a depressão é o resultado de um desequilíbrio de elementos químicos. Quer concretizar?
Sim. Há uma serie de paradigmas que estão a mudar na forma como a saúde mental está a ser vista do ponto de vista neuroquímico e bioquímico. Pensar, sentir e o nosso corpo não são três coisas separadas. Dou-lhe alguns exemplos de uma interligação clara. Em primeiro lugar, o cérebro não é uma máquina que reage. É um órgão de previsão, que está sempre alerta. A cada segundo que passa o cérebro está sistematicamente a antecipar o que vai acontecer a seguir. Isto explica muitos dos distúrbios emocionais. Em segundo lugar, todo o corpo humano participa nas emoções. Seja o nosso coração, o estômago, as hormonas, o sono, o exercício físico, etc. Trata-se de uma entidade holística que participa na forma como nós sentimos e reagimos a situações que nos acontecem. Finalmente, a palavra “curiosidade” está a marcar este ano de 2026 para a ciência e continuará a marcar nos próximos anos. Porquê? Porque muda tudo: a motivação, a aprendizagem, a esperança e tem reflexos nas moléculas.
Há o risco de a Inteligência Artificial poder conduzir a um manipular das emoções e a um artificialismo dos vínculos relacionais?
Talvez dependa das gerações. Vejo que na geração com que contacto mais, entre os 30 e os 50 anos, está em curso uma espécie de contrarrevoluçao à revolução que a Inteligência Artificial representa e que pretende valorizar a autenticidade daquilo que é humano e quase rejeitar tudo o que é muito perfeitinho e isento de falhas. São os humanos a reagirem às promessas vindas da máquina. Acho que o ser humano deixou-se levar por esta cavalgada da eficiência e da produtividade. No outro dia falava com um professor da faculdade de informática que me dizia dos momentos em que nada fazemos e só pensamos sobre algo. O tédio é um fator de criação. E com a Inteligência Artificial, o que for para poupar tempo e não pensar, mete-se tudo na máquina. Isto é positivo do ponto de vista da eficiência e a máquina aponta caminhos e sugestões pertinentes, mas é também algo redutor para o ser humano.
A geração que está hoje na faixa etária dos 20 anos vai preferir a eficiência ao lado humano?
Depende do futuro. Os pais e os educadores dessa geração talvez tenham o dever de ir mostrando o que é ser humano. Essa é a pergunta que resulta da Inteligência Artificial: O que é realmente ser humano e do que é que não queremos mesmo prescindir enquanto humanos?
Fala-se muito que «tudo é economia» e é esse paradigma que acaba por impulsionar as dinâmicas do mundo. Em defesa da sua dama, acredita que tudo é Química e que a resposta para muitos mistérios e problemas do mundo reside na Química e nos progressos científicos?
Sim. Há muito por descobrir e creio mesmo que quanto mais se descobre, maior é a magia por detrás das coisas. Sou músico amador, apaixonado pelo piano. E ocorre-me esta questão: um músico, de repente, explica a harmonia de uma sonata de Mozart e não é por isso que destrói a beleza da música. Apenas se passa a compreender melhor os mecanismos. O mesmo acontece na Química, em particular, e na ciência, em geral. E o que é a música? É a vibração do ar. Um concerto de música é Física, mas ninguém diz isso.
Ainda existe quem veja a ciência como algo distante, complexo ou reservado a especialistas encerrados no laboratório. O que é que a comunidade científica pode fazer para aproximar o conhecimento do público sem perder rigor?
Presume-se que a comunicação de ciência é simplificar. Como comunicador de ciência em redes sociais considero quo problema nunca foi a complexidade, o problema sempre foi a falta de narrativa. Veja que os alunos não aprendem quando a matéria lhes é «despejada», eles aprendem quando o tema lhes desperta a curiosidade. Por isso, encontrar narrativas que atraiam a curiosidade do público é fundamental.
Costuma pensar-se nos negacionistas ou nos movimentos anticiência, mas a ciência confronta-se com outros adversários menos visíveis: a desinformação, os algoritmos das redes sociais, os interesses económicos, o imediatismo político ou até a falta de cultura científica. Qual considera ser hoje a maior ameaça ao conhecimento científico?
Há uns anos atrás teria respondido que os principais inimigos são os negacionistas e os que deturpam os factos. Estou a mudar de opinião por causa da experiência com as redes sociais. A indiferença é a maior ameaça ao conhecimento científico. A economia mais valiosa nos dias que correm praticamente já não é a do dinheiro, é a economia da atenção. Os programadores das redes sociais sabem que têm no máximo 60 segundos para captar a atenção e a curiosidade de quem está do outro lado, para fazer passar uma ideia ou uma mensagem. Estamos constantemente a ser estimulados e há algoritmos a calcular o que faz mais sentido para cada um de nós. Não há tempo para pensar e a ciência precisa de tempo.
A pandemia tornou os cientistas figuras muito mais visíveis no espaço público. Acredita que isso aumentou a confiança na ciência ou, pelo contrário, expôs as dificuldades da comunicação científica?
Quando as condições estão reunidas, a ciência pode avançar extremamente rápido. Na pandemia formou-se uma rede de colaboração global que poucos suspeitavam ser possível. A indefinição, por norma, não conforta as pessoas. E a ciência, intrinsecamente, comunica incerteza e está sempre a formular novas perguntas e novas hipóteses. Os comunicadores de ciência comunicam incerteza. A ciência mudar de opinião não é uma fraqueza, é a sua maior força. Enquanto isso, a política depende de comunicar certezas, garantias e factos objetivos. É isto que explica que a política e a ciência, por vezes, colidam.
Portugal produz hoje ciência de nível internacional, mas continua a perder muitos investigadores para o estrangeiro. O que é que estamos a fazer bem e onde é que ainda estamos a falhar?
Em primeiro lugar, Portugal está na vanguarda na formação de grandes cientistas. Disso não há dúvida. O problema não será formar talento, reside antes no proporcionar de condições para que este floresça. Portugal é um país líder em várias áreas de investigação e não pode chorar porque alguns dos seus não querem ficar. Falo com muitos colegas, que também deixaram Portugal, como eu, e nenhum me diz que não ficou no país que o viu nascer por não gostar dele. O que rejeitam é a ausência de condições e a ausência da aposta sustentada na ciência. Em teoria, um cientista deveria poder sair porque quer e voltar porque pode. Infelizmente, só metade desta equação é que está ativa. Falta uma política científica que seja independente do poder político. Os partidos políticos em Portugal deviam sentar-se à mesa e assumirem um compromisso para a ciência. Ganhe quem ganhe nas urnas. Vivo na Áustria, um país onde os governos estão sempre a mudar, mas o compromisso com a ciência, elevado a objetivo estratégico central, permanece intacto há duas décadas.
A CARA DA NOTÍCIA
Metade da vida a trabalhar no estrangeiro
Nuno Maulide nasceu em Lisboa, em 1979. É professor catedrático premiado e diretor do Instituto de Química Orgânica da Universidade de Viena, na Áustria. Traçou um percurso de excelência que passou pelas universidades de Louvain, Paris e Stanford, além do prestigiado Instituto Max Planck. Emigrou em 2003 e cumpre neste mês de agosto metade da sua vida a desenvolver a carreira académica no estrangeiro. Os últimos 13 anos na capital austríaca, Viena. Músico amador, acredita que a ciência, tal como a música, é uma arte capaz de explicar os maiores mistérios da vida. «A Química das Emoções» é o seu mais recente livro, editado pela Editora Planeta, e que foi o mais vendido durante a última Feira do Livro de Lisboa. No seu currículo tem ainda dois feitos de assinalar: foi o mais jovem professor catedrático na Universidade de Viena e o melhor aluno de sempre de Química no Instituto Superior Técnico.