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Mário Marques, climatologista 'A edução direcionada para o risco é essencial'

24-04-2026

Especialista em gestão de riscos naturais e pós-catastrófe, Mário Marques foi rosto assíduo nos ecrãs de televisão durante o mau tempo que impactou Portugal continental e assume uma voz crítica sobre a forma como o país reage às tragédias.

O chamado comboio de tempestades que afetou Portugal em janeiro e fevereiro foi dos fenómenos meteorológicos mais adversos e persistentes das últimas décadas?

Até 10 de janeiro todas as estações meteorológicas estavam com precipitação abaixo da média. Entre 10 de janeiro e 16 de fevereiro tivemos 35/40 dias com um corredor de tempestades, criado por condições e um ambiente propício para este fenómeno pouco frequente, especialmente nas regiões a sul do Tejo. Na metade norte do país a situação, no cômputo de três meses, foi normal e em linha com o que sucede. Tinha previsto um inverno mais intenso, um dos mais severos dos últimos 10/15 anos. E confirmou-se. Baseio-me na análise de teleconexões para fazer previsões mensais e sazonais. Não olho para nenhum modelo meteorológico.

Disse numa intervenção na CNN que o protocolo pós-catástrofe é um desastre. As autoridades falharam na resposta imediata às tempestades?

A gestão pós-catástrofe correu horrivelmente mal, a começar pelos municípios. Os militares deviam ter sido ativados imediatamente. A criação de subcomandos regionais da Proteção Civil não resultou e só veio agudizar a situação. A cadeia de comando está paralisada, em termos de evolução tecnológica, desde 2005. E tal passa-se em qualquer serviço do Estado nos últimos 20 anos. Perante isto, entendo que as autarquias e os distritos deviam ser autónomos, tal como acontecia antigamente.  Basta ver o exemplo da vizinha Espanha em que todo o sistema se encontra digitalizado, o que torna mais célere e expedito o processo de decisão. Já para não falar do SIRESP, que é uma verdadeira nódoa. Para além disso, aos municípios falta-lhes experiência ao nível da gestão pós-catástrofe, visto que só se faz o enfoque para os incêndios. Para tempestades e ventos elevados os planos que existem são pouco pragmáticos. Aliás, um dos grandes males é sermos um país com muitos planos, mas com falta de pragmatismo e objetividade.

Defende uma regionalização política?

Não sou favorável. Já há demasiados feudos e panelas para encher, tanto na administração local, como na administração central. Quando tudo está a ser automatizado, fomos o único país da União Europeia (UE) que aumentou os funcionários públicos. Não faz sentido. O problema reside na deficiente organização e gestão pública. E isso fica demonstrado nas várias catástrofes dos últimos anos, sejam tempestades, incêndios, etc. Mas há mais problemas: as árvores autóctones, eficazes para diminuir o vento e reduzir a velocidade de propagação dos incêndios, estão a desaparecer e a ser substituídas. Os métodos e os materiais de construção usados são menos resistentes comparativamente com as construções antigas. Em termos de ordenamento do território fomos o país da UE que mais destruiu o seu “habitat” em tão curto espaço de tempo. São demasiadas fragilidades que nos tornam vulneráveis face à ocorrência de fenómenos mais intensos. E se me permite, deixo mais uma nota: Se a tempestade “Kristin” fosse durante o dia, com o fluxo de circulação da população, em especial na rede viária, temo que tivéssemos dezenas ou mesmo centenas de mortos.

As estações do ano estão cada vez mais descaraterizadas, nada tendo que ver com o que se passava há 30 ou 40 anos. Isto torna as previsões mais difíceis?

A maior parte dos institutos de meteorologia europeus e do mundo estão demasiado modelo-dependentes, ignorando a observação, análise e circulação geral da atmosfera que permite retirar ilações que os modelos não conseguem. Nota-se nos nossos técnicos um desfasamento entre a experiência de observação e a capacidade e confiança de previsão. São técnicos de outra era, que se habituaram a ver apenas modelos. Anthímio de Azevedo, que foi meu mestre, tinha uma grande capacidade de observação e ganhei muita experiência nesse campo com ele. Nas declarações que fiz a 27 de janeiro insisti que a tempestade “Kristin” ia passar mais a sul do que se falava, porque era essa a minha experiência de observação. E confirmou-se. Considero que o IPMA é o instituto de meteorologia mais fechado que existe na Europa. Os dados são sonegados, as estações meteorológicas são pagas pelo erário público ou por fundos da UE. Repare que eu, como investigador, só consigo aceder aos dados das estações portuguesas comprando-os nos Estados Unidos. O que não faz sentido nenhum.

Como é que comenta o crescente interesse pelas páginas amadoras de meteorologia na internet e, em particular, nas redes sociais. Deve-se à necessidade de informação da opinião pública ou pelo facto de o IPMA comunicar pouco?

Essa deficiência do IPMA não é de agora, já vem do início do presente século. Mas considero natural o interesse das pessoas por estas páginas, até porque o Tempo afeta-nos a todos. O que acontece é que estes projetos são geridos por amadores, muito habilidosos, que tiram informação de vários sítios, e lançam mensagens por vezes exageradas e com algum alarme. Bem sei que é uma forma de terem mais cliques nas suas páginas, mas o que por vezes acontece é que a própria comunicação social também vai atrás do que lá é dito. Por exemplo, é o caso das poeiras do norte de África. Segundo eles, estamos perante um fenómeno nunca visto, quando não é verdade. Noticias sobre alagamentos em ruas de cidades é normal, quando chove durante algumas horas. Sobre os fenómenos extremos ninguém pode dizer que vão aumentar. Ninguém o garante, a começar pelo IPCC. O que pode induzir uma perceção diferente nas pessoas é que os fenómenos surgem com uma intensidade diferente devido à energia e aos desequilíbrios que se vão registando na atmosfera.

É CEO de uma empresa que presta consultoria em meteorologia, clima, gestão de riscos naturais, alterações climáticas e ordenamento do território. Os empresários estão mais sensíveis para a prevenção e acautelamento destes fenómenos?

Estão, mas o português tem o hábito de não gostar de pagar pelos serviços. As empresas agrícolas, ligadas aos vinhos e a extensas áreas de cultivo, as empresas de energia e “commodities”, têm uma maior perceção e preocupação sobre o potencial impacto destes fenómenos nos seus negócios. Por vezes, aconselho determinados clientes a comprar antecipadamente, petróleo ou carvão, em função da previsão, poupando-lhes muito dinheiro. Ao nível dos municípios, procuro antecipar o Tempo para a atividade operacional, como é o caso de obras públicas, ou a realização de um grande evento ao ar livre. Tenho grande facilidade em fazer previsão do estado do Tempo num horizonte de 7/8 dias e também a médio/longo prazo, sendo esta última a dimensão em que existe maior procura de serviços.

Já pode antecipar que verão vamos ter?

Não creio que tenhamos um verão tão quente como o de 2025. Antecipo alguns dias com chuva e não estou a prever grandes ondas de calor fora do contexto temporal e espacial. Podemos ter um verão tropical, com mais dias de trovoada, aliás, como acontecia antigamente, especialmente em agosto e setembro.

Para finalizar, que papel pode ter o sistema de ensino para promover uma cultura de risco, assente em práticas de sustentabilidade?

A escola pode ser um laboratório muito importante neste domínio. Realço um projeto particularmente interessante que se chama Meteo Freixo – trata-se de um clube de meteorologia do agrupamento de escolas de Ponte de Lima. Realizam há sete anos um congresso transfronteiriço. É uma escola com uma rede de monitorização com 14 estações, aberta ao público. Conheço alguns alunos daquela escola, que agora já estão a terminar os seus cursos superiores noutras áreas, mas que não perderam o “bichinho” do Tempo. No âmbito escolar a edução direcionada para o risco é essencial. Muitos dos nossos serviços educacionais, particularmente em termos do ensino superior, não passam a informação. Neste país é muito fácil colaborar, o difícil é partilhar. Sejam dados, conhecimento, boas práticas ou processos.  Informar bem, de uma forma orientada, é crucial para a literacia na área dos fenómenos meteorológicos e gestão do risco. Bem sei que o atual contexto escolar é complexo, mas seria importante despertar os alunos para estas temáticas. Já agora, dizer que fui docente quatro anos no ensino superior, e entendo que Bolonha foi a pior coisa que aconteceu ao nosso sistema de ensino, obedecendo unicamente à preocupação estatística de aumentar o número de licenciados e mestres. Só se “despeja” matéria e nada se aprende. É uma forma de tornar o sistema de ensino universitário em algo básico, não se fixando conhecimento.

 

A CARA DA NOTÍCIA

O conselheiro do clima

Licenciado em Geografia, Mário Marques possui uma especialização em Climatologia Aplicada e pós-graduação em Gestão de Riscos Naturais pela Universidade do Porto. Frequentou a licenciatura em Gestão Agrária na UTAD. Especialista em alterações climáticas e “adviser” em clima e meteorologia, fundou em 2007 e dirige desde então a empresa PlanoClima, bem como a empresa iClimate entre 2027 e 2021. É especialista da EUSPA – Programa Espacial da Agência Europeia desde 2022 e analista na European Innovation Council and SMEs Executive Agency (EISMEA), desde 2024. Para além de climatologista, este especialista em gestão de riscos naturais e pós-catástrofe é comentador habitual na televisão nacional, sendo presença regular no programa «Praça da Alegria», na RTP1.

Nuno Dias da Silva
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