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Cultura Projeto sobre "génio musical" de José Afonso estimula desassossego e serve investigação

20-04-2026

O livro “Zeca Afonso – Estudos Musicais para Dois Violoncelos”, corolário do projeto homónimo liderado pelos violoncelistas Pedro do Carmo e Lluïsa Paredes, com a compositora Eva Aguilar, estabelece-se como recurso pedagógico e de investigação, e mostra como José Afonso era "um génio musical".

Trata-se de "perceber a pura beleza que o Zeca tinha na sua música”, disse à agência Lusa Pedro do Carmo. “Este é o resultado de três anos de pesquisa, de performance e de escuta, sendo a concretização de um ciclo que foi adaptar Zeca Afonso, na sua vertente musical, para dois violoncelos, de uma forma pedagógica que estimule o desassossego, como diria o próprio Zeca”, acrescentou.

O projeto, que culmina no livro disponível 'online', é apresentado no dia 21 de abril, com um concerto, no O’Culto da Ajuda, em Lisboa.

“Zeca Afonso – Estudos Musicais para Dois Violoncelos” traduz-se numa publicação de acesso aberto, disponível no 'site' do Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa (mic.pt), para uso pedagógico e de investigação, e como recurso de pesquisa.

O projeto foi financiado em 10 mil euros pela Direção-geral das Artes, um apoio que se mostrou curto para a investigação efetuada: “Um trabalho realizado com muito prazer”, garantiu Pedro do Carmo.

A publicação dirige-se “a alunos com algum domínio musical, quando começam a profissionalizar-se, ou quando entram para o Conservatório, e já sabem que querem seguir música”, numa "altura em que se deixa de abordar o repertório português, sobretudo na formação clássica”, lamentou Pedro do Carmo.

O violoncelista recorda o seu mestre, Pedro Gaio Lima (1961-2021), professor e violoncelo-solista da Orquestra Metropolitana de Lisboa, entre outras posições de destaque, em Portugal e em orquestras europeias, a quem é dedicada esta publicação e que foi uma referência e inspiração para o trabalho.

Pedro Carmo recorda que, de acordo com Gaio Lima, “Zeca Afonso tem muitas mais valias no ensino da música” e a música popular devia “ser igualmente ensinada como é Bach ou Schubert, no ensino da música erudita ou de um instrumento como o violoncelo”.

Paulo Gaio Lima considerava que “a música do Zeca era subexplorada”, por estar conotada com o ativismo político, recorda.

“Na perspetiva do Paulo, e o que ele nos dizia, era que o Zeca faz mais do que isso - era um experimental, uma pessoa que experimentava imenso que descobriu imensas formas de expressão que ia buscar, ia beber a imensos sítios diferentes, e era um génio musical”, enfatizou o violoncelista.

Reportando-se ao ensino da música nos conservatórios, Pedro do Carmo lamentou que os compositores estudados “sejam todos importados”, cortando a relação do aluno com o seu contexto e o seu passado.

“Há uma lacuna grande e nós próprios sentimos isso, e fizemos este projeto nesse sentido. Nós próprios estamos a estudar música, pagamos as nossas propinas, para depois nem percebermos as nossas origens nacionais. E o Zeca, também, tem isso”.

“Paulo [Gaio Lima] tirava o bom sumo de tudo. Temos sempre alguma coisa a aprender. Esta é uma das boas memórias que tenho dele, esse entusiasmo e a capacidade de ver coisas boas em tudo, para nos tornarmos melhores músicos, melhores pessoas, mais cultas e enriquecidas. E com o Zeca, era a mesma coisa”, disse o violoncelista que cresceu com a música de José Afonso (1929-1987).

“A nossa geração cresceu toda com o 25 de Abril de 1974 e conhecemos o Zeca e respeitamo-lo”, sublinhou.

Paulo Gaio Lima foi quem deu a perceber a Pedro do Carmo, “o Zeca artista por detrás da sombra do Zeca ativista”, confessou.

Ao longo desta investigação, os seus autores descobriram “um Zeca, músico, atento e crítico, um artista e não um político”.

O papel de intervencionista político tapa o de músico “livre e exigente”, acrescenta Pedro do Carmo.

José Afonso não estudou música “mas sabia muito bem o que queria, investigava, escutava, bebia em muitas fontes [musicais], o que se foi transformando ao longo da sua atividade" e tornando patente na sua própria música. "E isso é uma grande aprendizagem para quem vem da música clássica”.

Pedro do Carmo citou Gaio Lima, realçando a importância de “não termos vergonha de onde viemos musicalmente"; a necessidade de lutar "sempre por coisas melhores, sem negar o passado tradicional, a música tradicional, as origens e o colonialismo africano, e fazê-lo com simplicidade, naturalidade, pela beleza”.

Pedro do Carmo sintetiza a esssência do projeto: “Perceber a pura beleza que o Zeca tinha na sua música”.

“Transmitir essa beleza não é fácil para quem vem da música clássica, porque não há partituras, nem referências, temos de sair da nossa zona de conforto, desafiarmo-nos a nós mesmos e aprender com a música para darmos a conhecer a sua música às pessoas".

Este livro é uma homenagem a Paulo Gaio Lima e José Afonso, “colocando-os numa espécie de diálogo”, contextualizando-os e apresentando testemunhos sobre ambos, numa primeira parte introdutóeia, que inclui capítulos como "Quem foi José Afonso", "Traduzir José Afonso no violoncelo", "O violoncelo 'à Paulo'", "O projeto por fora e por dentro".

Na segunda parte, são abordadas as 11 canções para as quais fizeram os arranjos musicais.

“Cada canção é um mundinho”, afirma. E vem acompanhada da respetiva partitura, “que está no meio de todos os outros elementos extramusicais, porque sem o poema é impossível tocar a partitura", disse o músico à Lusa, realçando a “necessidade de escutar Zeca Afonso”.

“Sem ler o poema não é possível perceber a frase [musical]”, disse, reforçando a importância do texto, isto é, como a sua 'musicalidade' se impõe sobre a partitura.

“Ler apenas a partitura vai suscitar dúvidas e vai ter de se voltar atrás e compreender todo o contexto, nomeadamente o poema. E a forma [como é lido] vai influenciar a forma como se toca”, argumentou.

“Para interpretar o Zeca é preciso ter atenção a todos os elementos extramusicais que estão disponíveis e sobretudo escutar o original”.

Para Pedro do Carmo, “isto é um grande ensinamento para quem está na música clássica”

No âmbito deste projeto, os investigadores-músicos, que residem nos Países Baixos, fizeram experiências com público neerlandês, “e a reação foi muito positiva”.

Pedro do Carmo e Lluïsa Paredes foram alunos de Paulo Gaio Lima na Escola Superior de Música de Lisboa. A compositora Eva Aguilar estudou na Academia Nacional Superior de Orquestra, da Metropolitana, também na capital, onde Gaio Lima também lecionou.

O projeto é apresentado, com concerto, no dia 21, no O’Culto da Ajuda, na capital, no dia 29, no Quintal da Música, em Odemira, no distrito de Beja. No dia 02 de setembro de 2026 a apresentação irá à na Biblioteca Nacional, em Lisboa, e, no dia seguinte, à Casa da Culura, em Setúbal.

O livro está disponível no 'site' do Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa (https://mic.pt/dispatcher?where=3&what=2&show=0&edicao_id=11735&lang=PT).

"Não creio que uma geração de cantores possa subsistir sem uma forma que os impulsione, sem uma raiz genuína, originada na nossa tradição oral, na qual se apoiem para não caírem em importações", disse José Afonso, na citação que abre a obra. "Essa raiz existe, mas é em grande parte ignorada ou, o que é pior, menosprezada". Exatamente o oposto do objetivo de “Zeca Afonso – Estudos Musicais para Dois Violoncelos”.

Nuno Lopes/Lusa
Site Associação José Afonso/Patrick Ullman
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