Não há como esconder. A Inteligência Artificial (IA) veio para ficar e a escola deve conseguir adaptar-se a essa nova realidade. Uma realidade desafiadora e desconhecida na sua plenitude, que vai provocar mudanças no sistema de ensino, sobretudo no processo de ensino e aprendizagem, mas também em praticamente todas as profissões.
O Conselho Nacional de Educação (CNE) emitiu um parecer onde defende que IA deve começar a ser introduzida nos currículos escolares, a partir do 1.º ciclo do ensino básico. No entender daquele órgão consultivo do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, a Inteligência Artificial poderá ser uma ferramenta para “reforçar as literárias tradicionais”. As questões que se colocam são, entre outros: como? quem irá lidar com a IA? de que forma? Em que calendário temporal? A sua utilização não poderá criar atrofia cognitiva (perda progressiva da capacidade de concentração, memória e pensamento crítico devido ao desuso do cérebro)?
A proposta do Conselho Nacional de Educação passa por uma introdução progressiva e adequada da IA como instrumento de reforço às literacias tradicionais de leitura, escrita e numeracia, através de “diretrizes pedagógicas claras sobre os contextos em que o uso de IA é adequado e, por outro lado, aqueles em que é contraproducente para o desenvolvimento de competências fundamentais, para proteger a autonomia cognitiva dos alunos sem recusar as oportunidades que a tecnologia oferece”, conforme o parecer citado pela Agência Lusa.
O desenvolvimento da IA não deixa muito tempo para que a escola reaja. Uma reação que, no ensino não superior coloca nas mãos dos professores (e também das famílias que não se devem demitir do seu papel) a difícil tarefa de conjugar a utilização da Inteligência Artificial com o ensino e em contexto educativo, mas também de ‘ensinar’ os mais novos a utilizar essa ferramenta. Para que isso aconteça, terá necessariamente que haver formação dos docentes. De resto, o CNE defende uma revisão “da formação inicial, tornando obrigatória a integração de módulos de literacia em IA que abranjam a literacia digital, pensamento computacional, literacia crítica de dados e ética em IA, bem como o investimento em programas de desenvolvimento profissional contínuo”, como revela a mesma agência.
Ao nível superior, muitas instituições já avançaram para licenciaturas na área. Mas a IA fará, direta ou indiretamente, parte de todos os cursos. A universidade (aqui em sentido lato) não pode criar obstáculos à sua utilização. Deve, isso sim, utilizar mecanismos críticos para que o seu uso não se limite a transcrever aquilo que a IA nos dá. É importante questionar, descodificar, analisar, pensar, criticar, monitorizar, validar, ter ética, num processo que é novo e que ainda não se conhece muito bem o seu rumo. Sabe-se, contudo, que é irreversível e que todos, enquanto cidadãos devemos estar preparados para saber lidar com ele. A tarefa não é fácil. Gera desconfianças, oposições bem fundamentadas, mas, como aconteceu no passado, quem não se souber adaptar ficará mais fraco.
A Inteligência Artificial está a alterar o paradigma do funcionamento diário do mundo. Por um lado, faz tarefas em poucos minutos que, nós humanos, levaríamos horas ou dias. Por outro, pode induzir-nos a cometer erros, ou, pior que isso, pode mudar a perceção dos cidadãos acerca de diferentes matérias, levando-os a tomar decisões com base em informações ou imagens incorretas ou tendenciosas.
É este o novo mundo que temos nas mãos. Ou nos preparamos para lidar com ele e para utilizar a IA, com ética e princípios, enquanto ferramenta facilitadora, percebendo-a, ou ela própria acabará por nos excluir sem darmos conta. E isso é o pior que nos pode acontecer.