Diz a velha máxima que só não erra quem não faz. O Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) alterou o modo de correção dos 300 mil exames do 11.º e 12.º anos referentes à primeira fase, digitalizando todas as provas, distribuindo-as pelos professores. O processo que pretendia ser mais célere, objetivo e eficaz, acabou por se tornar no maior tormento da história recente do Ministério da Educação. Isto porque as provas não chegaram a tempo aos professores corretores e, muitas chegaram, mas não estavam completas. Acresce que o próprio sistema esteve inoperacional durante algum tempo, alegadamente para suprir falhas detetadas.
Instalada a situação, o Ministério procurou identificar e solucionar os problemas, adiou as datas da publicação dos resultados e decidiu que todos os cerca de 160 mil alunos iriam ter acesso aos seus exames corrigidos através da plataforma eletrónica, não necessitando de solicitar a cópia das suas provas, como acontecia até agora.
Todos percebemos que o objetivo era retirar burocracia e complexidade, dar agilidade e tornar mais leve e ecológico todo o processo dos exames (desde a sua elaboração, ao transporte até às escolas pelas forças de segurança, à sua realização por parte dos estudantes com toda a estrutura associada a cada escola, até a recolha dos mesmos - novamente pelas forças de segurança -, a sua digitalização e envio aos professores corretores, e finalmente a publicação dos resultados obtidos).
Acontece que uma operação desta envergadura e a sua centralização exigia testes exaustivos em situação de ensaio, aproximadamente com o mesmo número de exames e alunos, e com o mesmo número de dias previsto nos calendários. Isto permitiria que os erros, agora detetados em contexto efetivo, fossem identificados e corrigidos, que as dúvidas dos professores corretores fossem tidas em conta, de forma a que quando o sistema fosse implementado pudesse haver um histórico que prevenisse eventuais problemas. Além disso, o facto de se concentrarem os serviços e os agrupamentos de exames, que passaram a ser responsáveis por um maior número de escolas, tornaram as respostas mais complexas e muitas vezes inexistentes.
O importante é que no final deste processo nenhum estudante fique prejudicado. Os exames em causa definem a entrada num ou noutro curso superior. E, perante poucos esclarecimentos e a contestação de professores que afirmaram não ter recebido as provas completas, há muitas dúvidas sobre o rigor da operação. Os alunos - e as suas famílias - devem por isso aproveitar a possibilidade anunciada pelo ministro da Educação de consultarem as suas provas e verificarem se está tudo conforme.
Os cerca de 160 mil estudantes que realizaram os seus exames, que trabalharam arduamente com vista a alcançarem os seus objetivos - entrar nesta universidade ou naquele politécnico -, aquilo que exigem ao Ministério é competência no envio das provas completas aos professores corretores e, destes, rigor na sua correção e na divulgação dos resultados.
Um contexto como este terá, necessariamente, responsabilidades políticas, que os partidos irão dirimir entre si. Mas, terá que ter, - isso cabe à sociedade exigir -, uma resposta clara e objetiva sobre o que falhou, e como mais de cem mil estudantes (e as suas famílias) têm as suas vidas em suspenso e carregadas de ansiedade.
Como disse, só não erra quem não faz. Acredito que com os dados técnicos que tinha, o Ministério decidiu prosseguir com este novo sistema. Às vezes a pressa é inimiga da perfeição…
Post Scriptum: As notas dos exames começaram a ser divulgadas ao final do dia 17 de julho, mas milhares de estudantes não obtiveram classificação, surgindo a expressão "suspenso". Citada pela Lusa, a entidade responsável pelos exames nacionais, revela que "entre as 290 mil provas, que correspondem a cerca de dois milhões de itens digitalizados, verificaram-se casos de extravio de uma folha da prova ou a indisponibilidade de um ou mais itens de resposta por motivo não imputável ao aluno". No sábado, dia 18, algumas dessas classificações em falta começaram a ser enviadas às escolas.
O processo continua a ser complexo e, infelizmente, procura atirar-se para cima das escolas e dos seus professores a culpa do colapso de um sistema novo que falhou. Os estudantes sem nota, e até que a mesma lhe seja atribuída ou até que a tutela decida como solucionará o caso (na circunstância de não surgir a respetiva classificação), ficam com a sua vida em suspenso e com a ansiedade, sua e das suas famílias, em níveis máximos.
Este foi (e é) o momento mais conturbado do Ministério da Educação nos últimos 20 anos. Só, no ano letivo 2004/05, no Governo liderado por Pedro Santana Lopes, que tinha como ministra da Educação, Maria do Carmo Seabra, se registou um acontecimento tão grave. Na altura foi também implementado um novo sistema informático para a colocação nacional de professores, o qual colapsou. O Presidente da República, - e bem - já fez saber que nenhum estudante deve ser prejudicado. O tempo ainda é de agir, pois a segunda fase dos exames do secundário está à porta.
Entretanto, as notas dos exames do ensino básico ainda não chegaram às escolas - embora ninguém fale sobre isso. Entretanto, vai haver uma auditoria para apurar o que falhou neste processo. Temo que a culpa ainda vá ficar no porteiro ou nas forças de segurança, porque a teoria de que os professores e as escolas são os responsáveis já começou a ser veiculada, subliminarmente, pela tutela. Estamos a falar do futuro de uma geração e quando é assim, os lugares e as bandeiras partidárias não se podem sobrepor aos interesses dos, estudantes, das famílias e do país.