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Gustavo Reinas, cantor A ambição de um talento precoce

22-06-2026

Depois de se ter consagrado como o vencedor mais jovem de sempre do programa “The Voice Portugal” com apenas 16 anos, Gustavo Reinas estreia-se agora com o primeiro trabalho.

«Latitude 40.º» é uma coordenada e também o nome dado a este EP de estreia. Qual é o significado desta designação?

Sou, por natureza, uma pessoa bastante indecisa. E andei algum tempo a pensar no assunto. Para mim, não fazia sentido que o nome do EP fosse o título de uma das músicas. Queria que traduzisse estes últimos dois anos, ao nível da construção deste trabalho, e também aquilo que eu sou, enquanto músico e enquanto pessoa. Em primeiro lugar, «Latitude 40.º» explica-se por ser o ponto em que mundialmente Portugal se encontra.  E esta coordenada situa-se, aproximadamente, entre Nelas e Lisboa. Sou natural da vila de Nelas, no distrito de Viseu, mas estudo em Lisboa e a minha vida, nestes últimos dois anos, tem oscilado entre estes dois locais. Para além disso, o título é também uma homenagem a todos os que trabalharam neste EP, sendo muitos deles naturais de Leiria, Faro, Portalegre, Aveiro, etc.

Este trabalho é o resultado de pouco mais de um ano de vida sintetizado em cinco canções, como já disse, «todas diferentes umas das outras, tal como eu em tudo na vida». Apesar desta descrição, qual é o fio condutor do EP e a que influências é que o seu universo criativo vai beber?

Sou português e oiço muita música portuguesa. Consumo mais música nacional do que estrangeira. As minhas três maiores referências são o Rui Veloso, o António Zambujo e o Jorge Palma. Este último é particularmente óbvio, pela interpretação do «Passeio dos prodígios», que fiz no “The Voice”. Para mim, o «Só», do Jorge Palma, é dos melhores discos alguma vez feitos na música portuguesa. Mas todos eles são referências pela forma como cantam, como escrevem e, mais importante, pelo modo como passam a sua mensagem. Digo sempre que antes de ser cantautor, sou intérprete. E das coisas que mais gosto de fazer é, precisamente, interpretar as canções dos outros. O fio condutor deste trabalho é a minha voz que, como costumam sublinhar, é algo característica, interpretando cinco canções muito diferentes entre si e que variam no estilo e na letra. Nesta viagem temos temas urbanos, enérgicos e também baladas.

Tem as suas origens no interior centro do país, em Nelas, mas as incursões a Lisboa, também fruto dos estudos, são cada vez mais frequentes. É mais difícil ser músico fora dos grandes centros urbanos?

Para lançar uma carreira mais “mainstream” e profissional, diria que estar no interior é muito difícil vingar. Os estúdios de gravação estão todos em Lisboa e as próprias sessões são feitas aqui à volta. Mas acredito, também fruto da troca de impressões com outras pessoas do meio, que se tivermos uma carreira mais estabilizada e um trabalho mais organizado, já é possível viver, pelo menos a espaços, mais longe de Lisboa. A cidade do Porto tem estado a crescer muito no mundo da música. Já não está tudo só na capital e sente-se essa descentralização.

Foi o grande vencedor do “The Voice Portugal” (22/23) – o mais jovem de sempre, com 16 anos. Para muitos, foi o ponto de viragem de muitas carreiras. Aconteceu o mesmo consigo? O facto de ter sido tão cedo conferiu-lhe uma maturidade artística mais precocemente?

O “The Voice” é uma porta de entrada gigante na indústria musical. Para além de dar uma grande exposição aos participantes, é uma tremenda oportunidade. Se não tivesse ido ao “The Voice”, dificilmente estaria aqui. Tinha a minha vida decidida no secundário e não era nada disto. Ganhar com apenas 16 anos foi incrível, ainda para mais eu que fui para o programa na desportiva, e mesmo no último programa nunca pensei que fosse ganhar. Foi precoce? Sim, muito. Comecei a pensar no que podia ser a minha carreira neste meio e até ganhei um carro sem ter habilitação legal para o conduzir. Mas sempre fui um miúdo que cresci demasiado rápido, pelo que consegui aguentar este impacto. Como fiz teatro musical durante 12 anos, confesso que estava particularmente confortável com todas estas questões de estar em palco e de exposição. Mas acho que começar cedo demais não é assim tão mau. O tempo o dirá.

O mundo da música, tal como outros meios, joga-se na internet e nas redes sociais. A música «A Tua Rua», lançada em 2023, tem 700 mil audições no Spotify e a interpretação de «O passeio dos prodígios», de Jorge Palma, em 2022, acumula mais de 2 milhões de visualizações. Apesar dos concertos e dos EP, é pela via digital que se consegue chegar a um público mais vasto?

Sem dúvida. Todas as plataformas e também os algoritmos são uma grande vantagem para os artistas, tanto para os que estão a começar, como para os que já têm o seu nome feito no mercado. E têm vindo a revolucionar a indústria musical de uma forma que ninguém esperava. Tanto para atingir o público-alvo, como público novo, que podem ser outros destinatários não tão prováveis, à partida, do nosso trabalho. Oiço muito dizer que, hoje em dia, para se ser artista é preciso ser “influencer”.  E não há que negá-lo. É uma realidade. Isto apesar de não ser uma pessoa que esteja demasiado à vontade nessa relação entre a personalidade pública e os seguidores. Sinceramente, olho para as redes como trabalho e como uma forma de chegar mais rapidamente às pessoas.

Os “videoclips” perderam importância e já são cada vez mais residuais os artistas que os fazem. Qual é a relevância da conceção dos “visualizers”, que são elementos audiovisuais focados em acompanhar a música nas plataformas digitais?

Na minha perspetiva, é sempre muito importante haver uma imagem associada à canção. Seja uma fotografia ou um pequeno vídeo em “loop”. As pessoas são cada vez mais visuais e é isso que torna os “visualizers” conteúdos tão relevantes nas plataformas musicais e também nas redes sociais. Apesar de entender que, ultimamente, têm perdido algum poder de mercado e manobra, são um conceito interessante e que evita que os músicos gastem rios de dinheiro em “videoclips”, produções muito mais dispendiosas. Os cinco que fizemos para este EP têm o dedo do Sebas Ferreira, profissional do qual sou grande fã e que agora trabalhou, pela primeira vez, comigo.

Apesar de não existir um histórico familiar, estudou música desde cedo e começou a cantar aos 6 anos. Teve aulas de teatro musical, participando em espetáculos e foi aluno do Conservatório de Música Clássica durante a infância, dominando o canto, o piano e a guitarra. Esta cultura musical foi um “background” importante no arranque da carreira?

Tenho quase a certeza que teria sido mais difícil sem este suporte. Aprendi tanto no Conservatório (que, curiosamente, não acabei), como nos anos em que fiz teatro musical na minha terra. E este histórico foi uma mais-valia para a minha presença no “The Voice”. E o facto de ter começado tão cedo, penso que está a dar frutos, por me ter munido de uma carrada de ferramentas, agora que levo alguns anos disto.

Disse em 2023 que «a música é o grande foco da minha vida, é onde sou feliz e é o que quero fazer». Três anos depois, esta frase permanece atual?

O Gustavo há 3 anos sabia bem o que estava a dizer (Risos). Não tenho dúvidas que escolhi a carreira certa. Tanto por mim, como pelo “feedback” que as pessoas me têm dado ao longo destes anos. É, sem dúvida, o que quero fazer, e foi bom ter começado tão cedo. Paralelamente, estudo na licenciatura de Jazz e Música Moderna na Universidade Lusíada, em Lisboa. Estou no segundo ano.  O futuro?  Crescer e consolidar a minha identidade profissional e pessoal. Fazer música em “full time”? Espero chegar lá, mas primeiro preciso de atingir um patamar mais alto. Há muitas fontes e formas de rendimento neste meio: ser produtor, escrever para outros artistas, etc. Só que reconheço que não é fácil, ainda para mais num mercado pequeno, onde há muitos talentos. Mas estou empenhado e ambiciono isso.

 

A CARA DA NOTÍCIA

De Nelas para o mundo

Gustavo Reinas nasceu em Nelas e completou 20 anos no passado dia 14 de junho. Ostenta o título do mais jovem vencedor do “The Voice Portugal” (Adultos), apenas com 16 anos. «Latitude 40.º» é o título do seu primeiro EP, editado pela Universal Music Portugal.

Nuno Dias da Silva
Sebas Ferreira
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