O novo álbum de originais de Carlão celebra os seus 50 anos de vida e 30 de carreira. Oportunidade para falar de música, sem perder de vista o interculturalismo, as gerações de hoje e o sistema educativo.
Após oito anos, «Quinta Essência 75/25», editado no final de março, representa o regresso aos álbuns de estúdio. O termo quinta essência é originário da filosofia e da alquimia, remontando a Aristóteles. Pode dizer-se que, cumprindo meio século de vida, este trabalho revela um Carlão em estado puro?
A ideia era essa. Nesse sentido filosófico e de alquimia, destilar algo até à sua essência mais pura, fazendo um apanhado daquilo que são as minhas diversas facetas, tirando as gorduras, apresentado um disco que traduzisse, de forma fiel, aquilo que é a minha música e a minha escrita.
Em “O Último Canto”, a última faixa do álbum, faz uma retrospetiva dos seus 50 anos e questiona o tempo, a relevância e o fim: «Ainda serei relevante / ou já passou o instante?» «Mas o meu último canto não vai ser hoje», responde. Esta é a confirmação que vai continuar, através das músicas, a intervir social e politicamente?
Quando coloco essas questões a mim próprio, faço-o a vários níveis: musicalmente, artisticamente, etc. É a relevância artística da minha arte a que me refiro. A dimensão social e política de intervenção, faz parte da minha música, mas não a define. Por isso, quando falo em relevância refiro-me, por assim dizer, ao «pacote» integral da minha arte. Mas, em jeito de conclusão, confirmo que nos próximos anos irei continuar a fazer música.
A acompanhar o lançamento e para assinalar a data de edição, o álbum é disponibilizado com “visualizers” para os onze temas agora revelados e os cinco interlúdios que o integram, realizados por André Tentúgal, já disponível no seu canal de YouTube. A música dos dias de hoje já não dispensa esta experiência audiovisual integrada, sem esquecer o suporte das redes sociais?
A componente visual é importante. Aliás, sempre foi, mas hoje em dia com uma força ainda maior. Contudo, no caso dos “videoclips”, ainda se continuam a produzir, e muitos com uma qualidade incrível, mas as pessoas prestam cada vez menos atenção. Especialmente no que diz respeito à sua visualização do princípio ao fim. Há uma informação a entrar em permanência pelos nossos olhos e ouvidos, através dos ecrãs, o que dificulta que nos concentremos totalmente. De qualquer forma, acredito que esta dimensão visual pode ajudar e ser mais um contributo para que a música chegue às pessoas. E a escolha do André Tentúgal foi precisamente no sentido da produção de conteúdos que vão enriquecer, suportar e elevar a música. Por seu turno, as redes sociais são uma ferramenta incontornável dos nossos dias. Quase não se pode fazer nada sem elas, apesar de procurar não ficar refém da sua utilização. Será sempre na dimensão musical que investirei mais tempo.
Tem participado em diversas iniciativas nas escolas e projetos educativos, focados maioritariamente na sensibilização contra o “bullying” e na promoção do interculturalismo. Que mensagens procura transmitir?
Sim, tenho participado em algumas iniciativas, com especial enfoque na questão do interculturalismo. Fiz mesmo parte de um projeto, junto de escolas, a que se deu o nome de «Livres & Iguais». O contexto atual não é fácil: vivemos em sociedades super polarizadas, em que se demoniza muito facilmente o outro e os argumentos que não são os nossos. Quando falo com adolescentes o essencial da minha mensagem é o seguinte: Nós todos falhamos e todos cometemos erros. Precisamos de nos colocar no lugar do outro, seja de uma forma solidária e empática, seja para compreender e tentar desconstruir as coisas, antes de partir para reações desnecessárias, como é o caso da violência. Descarto, por completo, uma abordagem entre o bem e o mal ou entre o superior e o inferior. Todos falhamos. Ponto final. E o preconceito, que não nasce connosco, é-nos incutido pelo ambiente social, pela escola, pela família e até pela religião. O essencial é não atacar o outro, mas identificar e perceber as origens desse preconceito, procurando discutir as coisas.
Tem duas filhas, uma de 10 e outra de 15 anos. Para além do contexto tecnológico, que interfere brutalmente na vida pessoal e profissional de qualquer pessoa, quais as principais diferenças que identifica na forma de abordar a realidade da sua e das atuais gerações?
Existirão sempre diferenças entre gerações. O contexto atual é caraterizado pela omnipresença da internet, e dentro desta o uso das redes sociais, sem esquecer o crescente espaço que a inteligência artificial vem ocupando nas nossas vidas. A minha geração, que inclui os meus amigos e contemporâneos, conheceu o mundo com e sem net. Crescemos e brincámos juntos, na rua, sempre muito próximos. Foram experiências sociais e físicas intensas. Já as minhas filhas, por exemplo, não sabem o que é o mundo pré-net. Também decorrente do que acabei de dizer, as interações tornaram-se mais virtuais do que físicas ou cara a cara. Há toda uma experiência social que ficou algo talhada. Agora, impera a experiência virtual, em praticamente todos os domínios sociais. Tem coisas negativas e também tem aspetos positivos. Em resumo, é um mundo diferente.
Disse em entrevistas que foi «um excelente aluno até ao 8.º ano, depois comecei a patinar». De que forma é que a escola moldou o seu percurso profissional?
Sinceramente, acho que a escola não moldou diretamente o meu percurso profissional. Tive a felicidade de ter professores incríveis – e esses ficaram para sempre na minha memória – enquanto outros, nem por isso. Confesso que tive alguma pena de não ter desenvolvido os meus estudos, mas foi assim que aconteceu. Não vale a pena chorar sobre leite derramado. Acho que o sistema de ensino precisa de uma grande reforma. Alguns professores lutam para «dar a volta ao texto», mas outros veem as suas aptidões cortadas por imposição dos programas. O sistema deve tratar todos por igual: alunos e professores. No caso dos estudantes, acho que o sistema não puxa pela sensibilidade e por aquilo de melhor que eles podem dar, o que leva, muitas vezes, a que surja desinteresse por parte dos alunos. Acredito que aprender pode ser uma coisa incrível se for feito da maneira certa.
A CARA DA NOTÍCIA
Tudo começou com os “Da Weasel”
Filho de pais cabo-verdianos, Carlos Nobre Neves, para o mundo da música «Carlão», «Pacman» ou «Algodão», nasceu em Angola, tendo viajado para Portugal no mesmo ano do seu nascimento, 1975. Entre 1993 e 2009 foi um dos vocalistas e o principal letrista dos “Da Weasel”. Após uma carreira a solo, regressou em 2019 com a mítica banda de Almada, para voltar, de novo, a atuar em nome próprio. As suas composições transitam entre o “hip hop”, o “rap rock” e “pop rap”. Depois de ter participado em vários projetos, fez parte da equipa de mentores de várias temporadas do programa «The Voice Kids», na RTP. Em 2017, integrou “Livres & Iguais”, um projeto pedagógico de promoção da Interculturalidade, consolidado num livro, tendo recebido o selo de qualidade e reconhecimento do Plano Nacional de Leitura. Após oito anos de interregno, lançou em março o álbum "Quinta Essência 75/25", composto por 18 faixas, que se dividem entre músicas e interlúdios.