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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Luís Farinha, reitor da UNIVERSIDADE POLITÉCNICA DE CASTELO BRANCO 'Uma Universidade com raízes profundas e capacidade para trabalhar em redes globais'

19-10-2026

Luís Farinha é o primeiro reitor da Universidade Politécnica de Castelo Branco. Na passagem de mais um aniversário da instituição, explica o que está a mudar e que o futuro exige excelência, ambição, responsabilidade e capacidade de intervenção.

O Instituto Politécnico de Castelo Branco é agora Universidade Politécnica de Castelo Branco (UPCB). O que se pode esperar da instituição para o futuro?

Pode esperar-se uma Universidade mais ambiciosa e, ao mesmo tempo, mais exigente consigo própria. A nova designação abre uma oportunidade de afirmação, mas não é o nome que transforma uma instituição. O que a transforma é a qualidade do ensino, a capacidade de produzir conhecimento relevante e, sobretudo, de o converter em valor para as pessoas, para as empresas, institituições e para o território.

A nossa ambição é afirmar a UPCB como uma Universidade Politécnica de referência, a partir do interior do país, com qualidade reconhecida e crescente projeção nacional e internacional. Isso significa formar com excelência, investigar com propósito e transformar conhecimento em capacidade, inovação e valor, trabalhando lado a lado com empresas e instituições na resposta aos desafios concretos da região.

É esse o sentido do meu programa de ação: «Impulsionar o Futuro, Valorizando as Pessoas». Mais do que um lema, é um critério de decisão. Cada curso, projeto, investimento ou parceria deve melhorar a Universidade e, simultaneamente, criar valor para quem aqui estuda, trabalha, investe e vive. É essa exigência que deve orientar o futuro da UPCB.

Esta alteração vai para além da mudança de nome?

Tem necessariamente de ir. Se a transformação se resumisse a substituir uma placa, teríamos desperdiçado uma oportunidade histórica. Ser Universidade Politécnica deve traduzir-se num novo patamar de responsabilidade, ambição e capacidade de intervenção.

Não queremos abandonar a nossa identidade; queremos elevá-la. A matriz politécnica nasce próxima das profissões, da tecnologia, das empresas e dos problemas concretos. O desafio é acrescentar a essa proximidade mais ciência, mais inovação, mais formação avançada, mais internacionalização e maior capacidade de transferir e cocriar conhecimento.

Isso implica uma UPCB mais ágil?

Há uma transformação organizacional e cultural a fazer. Queremos uma instituição mais aberta, mais ágil, mais colaborativa entre escolas e áreas científicas e mais orientada para objetivos e resultados. A mudança será verdadeira quando se refletir na experiência dos estudantes, nas oportunidades das nossas pessoas, na relação com o tecido económico e social e no impacto que conseguimos gerar no território.

Pode significar também uma maior aproximação das autarquias da região, com a abertura de cursos nos diferentes concelhos da Beira Baixa?

A aproximação às autarquias e ao território é essencial, mas não deve confundir-se com dispersão da oferta formativa. A proximidade não se mede pelo número de cursos ou edifícios espalhados pelo mapa; mede-se pela capacidade de compreender necessidades e construir respostas com qualidade.

Haverá situações em que fará todo o sentido levar formação a outros concelhos, sobretudo formação curta, pós-graduada, executiva ou ao longo da vida, desenhada em articulação com municípios, empresas e instituições. Essa proximidade deve partir dos problemas concretos do território e das competências necessárias para lhes dar resposta, numa lógica orientada para a resolução de problemas, em que a Universidade mobiliza conhecimento, qualifica pessoas e ajuda a construir soluções com impacto real.

Já uma licenciatura, um mestrado ou um doutoramento exigem outro nível de sustentação: procura consistente, recursos adequados, qualidade académica, capacidade de investigação, massa crítica e perspetivas de empregabilidade e impacto. Não queremos criar oferta para preencher mapas; queremos criar respostas para necessidades reais e desenvolver formação onde ela possa gerar valor efetivo para as pessoas, para as organizações e para o território.

Ou seja a UPCB deve ser uma plataforma de conhecimento na região?

Sim, quero que a UPCB funcione cada vez mais como uma plataforma regional de conhecimento. Isso pode significar formação descentralizada, investigação aplicada, laboratórios vivos, apoio à inovação empresarial ou projetos com os municípios. O importante é que cada parceria produza resultados e fortaleça, ao mesmo tempo, a Universidade e o território.

Há cerca de quatro meses tomou posse como responsável máximo da UPCB (IPCB na altura). Qual o balanço que faz do trabalho realizado e quais foram as prioridades imediatas da sua equipa?

Foram meses particularmente intensos. Assumimos funções num momento em que várias exigências se concentraram no tempo: a transição para Universidade Politécnica, a revisão do enquadramento estatutário, a preparação do novo ano letivo e, em simultâneo, o arranque do nosso programa de transformação da instituição.

A primeira prioridade foi conhecer com rigor a situação real: ouvir, diagnosticar, identificar riscos e distinguir o urgente do estrutural. As residências estudantis foram um dos dossiers que exigiram resposta imediata. O ciclo de financiamento do PRR estava a terminar e havia investimentos que já não poderiam ser concluídos dentro dos prazos previstos. Tivemos de acompanhar de perto as empreitadas e, ao mesmo tempo, encontrar uma solução que permitisse proteger o investimento realizado e assegurar a conclusão das obras.

Para já qual foi essa solução?

Quando abriu o aviso do Centro 2030 para residências universitárias, avançámos de imediato. O prazo da primeira fase terminava a 30 de setembro, o que obrigou a um esforço muito intenso das equipas para, em poucos dias, consolidar informação técnica e financeira e preparar uma candidatura sólida. Foi um trabalho exigente, mas indispensável para salvaguardar investimento público e criar condições para concluir estas infraestruturas.

Mas não quisemos ficar numa lógica de emergência. Enquanto resolvemos problemas, estamos a construir direção: rever a oferta formativa, reforçar a investigação e a transferência de conhecimento, desenvolver a formação ao longo da vida, melhorar a organização interna e preparar uma visão de desenvolvimento da UPCB para 2030. O balanço é esse: responder ao urgente sem perder de vista o futuro.

Portanto, a grande preocupação prendeu-se com a reprogramação das obras das residências, a nova da Talagueira, e a requalificação das outras duas existentes em Castelo Branco?

A situação das residências estudantis foi um dos dossiers que exigiu uma resposta mais imediata. Tomámos posse a 7 de julho e encontrámos duas residências em requalificação com níveis de execução inferiores a 12% e a nova residência da Talagueira com uma execução inferior a 30%. Ao mesmo tempo, os prazos do PRR terminavam já em agosto - a 14 de agosto, no caso da Talagueira, e a 20 de agosto nas restantes residências. Ou seja, entre a nossa entrada em funções e o fim dos prazos de financiamento havia pouco mais de um mês, num contexto de execução ainda muito reduzida.

Perante esta realidade, foi necessário agir de imediato: acompanhar de muito perto as empreitadas, reunir com projetistas, empreiteiros, fiscalização e entidades responsáveis pelo financiamento, acelerar tudo o que ainda fosse possível executar e, em paralelo, procurar uma solução que permitisse concluir os investimentos para além do prazo do PRR. Foi nesse contexto que trabalhámos a candidatura ao Centro 2030, com o objetivo de proteger o investimento já realizado e assegurar a conclusão das obras.

O alojamento é determinante para a captação de mais estudantes?

É determinante para muitos estudantes e será cada vez mais relevante numa Universidade que quer reforçar a sua atração nacional e internacional. Hoje, a decisão de onde estudar não depende apenas do curso. Depende também do custo de vida, do alojamento, da mobilidade, da segurança e da experiência global que o estudante antecipa.

Castelo Branco tem vantagens importantes: qualidade de vida, dimensão humana, segurança, proximidade e custos tendencialmente mais equilibrados do que nos grandes centros. Mas essas vantagens só se transformam em competitividade se existir alojamento suficiente, acessível e de qualidade.

Por isso, a conclusão das residências estudantis é, para nós, uma prioridade clara, que assumimos e reafirmámos junto das entidades financiadoras. Desde o primeiro momento, desenvolvemos todos os esforços para acelerar a execução das obras, mas sempre com uma monitorização muito rigorosa da execução orçamental e da tesouraria da instituição, de forma a garantir a continuidade dos trabalhos e evitar qualquer interrupção das empreitadas por razões financeiras. Isso exigiu acompanhamento permanente, gestão prudente dos fluxos de tesouraria e um diálogo muito próximo com a entidade financiadora do PRR, mesmo antes de termos sido formalmente notificados da tão aguardada e decisiva aprovação das novas candidaturas apresentadas.

Pelas suas palavras depreendo que as residências vão para além das questões sociais?

Vejo as residências como parte integrante da infraestrutura académica da Universidade. Não são apenas uma resposta social; são também uma condição de igualdade no acesso, um instrumento de atração de estudantes e um fator de competitividade da UPCB e da própria região. Contribuem para criar uma experiência positiva que pode levar esses jovens a recomendar a Universidade e, em alguns casos, a encontrar na Beira Baixa condições para aqui permanecer depois de concluírem o curso.

A designação de Universidade pode ser uma mais-valia para atrair alunos?

Pode ser, e de forma muito significativa. Passarmos a ser Universidade Politécnica altera a forma como a instituição é lida, reconhecida e posicionada. Não é apenas uma nova designação; é uma nova afirmação de identidade, de ambição e de responsabilidade. A palavra Universidade tem um peso institucional e simbólico muito forte. Em Portugal e, sobretudo, no plano internacional, associa-se de imediato a formação avançada, investigação, inovação, conhecimento e capacidade de produzir futuro. Isso torna a instituição mais legível, mais reconhecível e mais competitiva na captação de estudantes, investigadores, parceiros e projetos.

Mas há uma diferença essencial entre ter um nome mais forte e construir uma reputação mais forte. O nome pode abrir portas; a reputação constrói-se pela qualidade, pelos resultados e pela confiança. Por isso, a nossa responsabilidade é fazer com que “Universidade Politécnica de Castelo Branco” não seja apenas uma designação nova, mas uma expressão com conteúdo e significado próprios. Queremos que esse nome passe a ser associado a ensino de qualidade, proximidade, empregabilidade, investigação aplicada, inovação, transferência de conhecimento e capacidade de responder aos desafios das empresas, das instituições e do território. Queremos que seja reconhecido como sinónimo de competência, confiança e criação de valor.

Temos bons cursos, docentes e investigadores qualificados, relações sólidas com empresas e instituições e uma região com excelentes condições de vida. O desafio é transformar estes ativos numa proposta de valor clara, distintiva e reconhecida. É aí que “Somos Universidade Politécnica” deixa de ser uma afirmação institucional e passa a ser uma marca de confiança, de pertença e de futuro.

Como avalia a colocação de estudantes na UPCB nas duas primeiras fases do Concurso Nacional de Acesso?

Com realismo, mas também com confiança. O contexto demográfico continua a ser exigente e a competição pela atração de estudantes é cada vez maior, sobretudo para as instituições localizadas fora dos grandes centros urbanos. Mas os resultados deste ano dão-nos sinais positivos e mostram que é possível inverter tendências.

Na primeira fase do Concurso Nacional de Acesso, a UPCB registou 630 estudantes colocados, um crescimento de 28,6% face ao ano anterior, com vários cursos a preencherem a totalidade ou praticamente a totalidade das vagas. Na segunda fase voltámos a crescer, desta vez 32,5%, um resultado particularmente relevante porque ficou claramente acima da evolução registada no conjunto do sistema e do próprio ensino politécnico. São sinais positivos, que valorizamos, sem qualquer triunfalismo, porque sabemos que há ainda muito trabalho a fazer.

Não podemos, contudo, olhar para a captação de estudantes apenas como um problema de comunicação ou de abertura e encerramento de cursos. A capacidade de atração de uma Universidade constrói-se a médio e longo prazo e está profundamente ligada à qualidade e à dinâmica do território onde está inserida.

É por isso que a nossa estratégia vai muito para além do Concurso Nacional de Acesso. Queremos uma Universidade mais forte na ciência, na inovação e na transferência de conhecimento; uma Universidade capaz de trabalhar com as empresas e as instituições, de qualificar os seus recursos humanos, de apoiar processos de inovação e de contribuir para aumentar a produtividade e a criação de valor na região.

A ideia é que a UPCB e a região se fortaleçam entre si?

Há um círculo virtuoso que precisamos de construir. Uma Universidade com mais ciência e inovação torna o território mais competitivo. Um tecido empresarial e institucional mais qualificado e inovador cria mais riqueza e mais emprego qualificado. Mais oportunidades profissionais tornam a região mais atrativa para os jovens. E um território onde existem oportunidades, qualidade de vida e perspetivas de futuro torna-se, naturalmente, mais capaz de atrair estudantes, investigadores, profissionais e investimento.

É essa transformação que queremos ajudar a promover. A questão não é apenas trazer jovens para estudar em Castelo Branco durante três ou quatro anos. É criar condições para que encontrem aqui oportunidades para aprender, investigar, trabalhar, empreender e, se assim o desejarem, construir o seu projeto de vida.

Castelo Branco e a Beira Baixa têm ativos muito importantes: segurança, qualidade de vida, proximidade, recursos, instituições e uma escala que permite conciliar vida profissional e pessoal de uma forma que nem sempre é possível nos grandes centros. O nosso desafio é acrescentar a esses ativos mais conhecimento, mais inovação, empresas mais competitivas e mais emprego qualificado.

Por isso, considero que os resultados deste ano são encorajadores, mas não são um ponto de chegada. São um sinal de que podemos crescer. A verdadeira medida do nosso sucesso será conseguirmos afirmar a UPCB e, simultaneamente, contribuir para construir um território onde seja cada vez melhor estudar, investigar, trabalhar, investir e viver.

A UPCB irá repensar as ofertas formativas no futuro?

Sim, e deve fazê-lo de forma permanente e estratégica. Uma Universidade não pode construir a sua oferta formativa apenas a partir do que funcionou no passado. Tem de ser capaz de ler o território, antecipar transformações tecnológicas, económicas e sociais, identificar novas competências e preparar pessoas para profissões que estão a mudar ou que ainda estão a emergir.

Estamos a avaliar a oferta existente cruzando vários critérios: procura, sucesso académico, empregabilidade, capacidade científica instalada, evolução das profissões e necessidades do tecido empresarial e institucional. Mas quero ir mais longe. A oferta formativa da UPCB deve ser cada vez mais coerente com uma visão de desenvolvimento para a Beira Baixa, reforçando áreas em que temos competências consolidadas e criando respostas em domínios com potencial para gerar qualificação, inovação, investimento e emprego qualificado.

Isso implica uma maior articulação entre escolas, unidades de investigação, empresas, municípios e instituições. A Universidade deve ser capaz de perceber onde existem necessidades de competências, onde estão a surgir novas oportunidades económicas e onde pode mobilizar conhecimento para ajudar a resolver problemas concretos. A nossa dimensão e proximidade ao território podem ser uma vantagem: permitem-nos ouvir mais depressa, ajustar melhor e construir respostas mais próximas da realidade.

E como olha para a formação avançada e ao longo da vida?

É uma dimensão que considero decisiva. As empresas e as instituições não precisam apenas de novos licenciados; precisam de atualizar permanentemente as competências das pessoas que já empregam. Num contexto de transformação tecnológica acelerada, transição digital, novas exigências ambientais e mudança dos modelos de trabalho, a qualificação deixou de ser um momento da vida e passou a ser uma necessidade permanente.

Quero, por isso, que a UPCB seja uma Universidade a que os profissionais regressem várias vezes ao longo da carreira: para se requalificarem, adquirirem novas competências, acompanharem a evolução tecnológica e responderem a novos desafios nas suas organizações. Essa relação continuada com as pessoas, com as empresas e com as instituições deve tornar-se uma das marcas da Universidade.

No fundo, a oferta formativa deve cumprir uma dupla missão: dar aos estudantes perspetivas sólidas de futuro e, ao mesmo tempo, aumentar a capacidade competitiva e de inovação do território. Se conseguirmos formar melhor, requalificar mais pessoas e alinhar conhecimento com oportunidades económicas e sociais, estaremos também a criar melhores condições para atrair talento, fixar jovens e gerar novas oportunidades na região.

É o primeiro reitor da instituição. Quais são os principais objetivos deste seu mandato?

Quero que, no final do mandato, a UPCB seja uma Universidade mais forte, mais procurada e mais relevante para a região e para o país. Mas a minha ambição vai para além do horizonte de um mandato. O que devemos começar a construir agora é uma trajetória de transformação para a próxima década.

Uma Universidade Politécnica no interior do país não pode limitar-se a cumprir bem a sua missão académica. Tem de estar profundamente ligada ao território, compreender os seus desafios, mobilizar conhecimento para os resolver e ajudar a criar novas oportunidades. Tem de formar pessoas, qualificar os recursos humanos das empresas e das instituições, produzir ciência com aplicação, apoiar a inovação e contribuir para aumentar a capacidade competitiva da região.

É essa Universidade que queremos afirmar: uma Universidade embebida no território, mas aberta ao mundo; próxima das pessoas e das organizações, mas exigente na qualidade; capaz de transformar conhecimento em valor económico e social e de ajudar a criar condições para atrair investimento, gerar emprego qualificado e fixar talento.

E que prioridades tem em cima da mesa?

As nossas prioridades estão todas ligadas por este propósito: melhorar o ensino e o sucesso dos estudantes; valorizar técnicos, docentes e investigadores; reforçar a ciência, a inovação, a transferência e a cocriação de conhecimento; aprofundar a relação com empresas, municípios, instituições de saúde, associações e restantes parceiros; e afirmar externamente a UPCB através da internacionalização, de redes de cooperação e de uma reputação construída sobre resultados.

Mas uma transformação territorial desta natureza não se faz apenas a partir da Universidade. Exige visão partilhada, confiança e capacidade de trabalhar em conjunto. Precisamos de reunir os principais atores do território em torno de objetivos comuns, independentemente de ciclos eleitorais, sensibilidades partidárias ou legítimas diferenças de opinião. Haverá sempre espaço para divergência, mas deve existir também a capacidade de reconhecer aquilo que é estrutural para o futuro da região.

A Beira Baixa precisa de pensar a dez anos: que economia queremos ter, que competências vamos precisar, que setores podemos desenvolver, que talento queremos atrair e fixar e que condições devemos criar para que os jovens encontrem aqui oportunidades para estudar, trabalhar, empreender e construir um projeto de vida.

A UPCB quer assumir a sua parte nessa construção. Não pretendemos substituir empresas, municípios ou instituições; queremos ser o espaço onde conhecimento, talento, tecnologia e necessidades do território se encontram e onde podem nascer soluções novas.

Quero também deixar uma cultura de execução. Uma instituição pública deve saber ouvir, envolver e construir consensos, mas tem também de decidir, executar, medir resultados e prestar contas. No final, o nosso trabalho não deve ser avaliado apenas pelo número de cursos, projetos ou edifícios. Deve ser avaliado pela transformação que ajudámos a gerar: na vida dos estudantes, na qualificação das pessoas, na competitividade das empresas, na capacidade das instituições, na criação de emprego qualificado e nas oportunidades existentes na Beira Baixa.

Se daqui a dez anos tivermos uma região mais qualificada, mais inovadora, mais competitiva e mais capaz de reter os seus jovens e atrair novo talento, então a Universidade terá cumprido uma das suas missões mais importantes.

A Universidade de Castelo Branco vai manter a sua matriz politécnica?

Sem qualquer dúvida. A matriz politécnica não é uma condição que tenhamos de ultrapassar; é uma identidade que devemos assumir e transformar numa verdadeira vantagem competitiva. O erro seria procurar reproduzir, em menor escala, o modelo de uma universidade clássica. A nossa ambição é outra: queremos afirmar uma Universidade Politécnica de excelência, cientificamente exigente, tecnologicamente avançada, próxima das profissões e profundamente ligada ao território.

E há exemplos internacionais muito claros de que esta identidade é plenamente compatível com a excelência. O Politecnico di Milano, a Universitat Politècnica de Catalunya, a TU Delft ou a ETH Zürich estão entre as grandes referências europeias em engenharia, tecnologia, arquitetura, design e inovação. O que as distingue é precisamente a combinação entre ciência de elevada qualidade, forte internacionalização, formação avançada, ligação às empresas e capacidade de transformar conhecimento em inovação e impacto.

É essa identidade que queremos reforçar na UPCB. Um ensino muito próximo da realidade profissional, mas suportado por conhecimento científico sólido; investigação orientada para problemas concretos; transferência e cocriação de conhecimento; inovação tecnológica; e uma relação permanente com empresas, municípios, instituições de saúde, organizações sociais e comunidade.

Mas ser politécnica não significa ter menor ambição científica. Pelo contrário. Queremos aumentar a densidade científica da Universidade, reforçar as unidades de investigação, atrair projetos e investigadores, desenvolver formação avançada e doutoramentos, internacionalizar as nossas equipas e participar em redes nacionais e internacionais de conhecimento e inovação.

A questão do financiamento está muito ligada a tudo isto…

E é precisamente por isso que defendemos também um sistema de financiamento mais equilibrado entre os dois subsistemas de ensino superior. Não pretendemos uniformizar missões nem apagar identidades diferentes. O que queremos é que instituições com responsabilidades crescentes no ensino, na ciência, na inovação, na formação avançada e no desenvolvimento dos territórios disponham de condições de financiamento comparáveis para cumprir essas missões com qualidade. A diferenciação institucional deve resultar da missão, das competências e dos resultados, não de assimetrias de financiamento que limitem à partida a capacidade de algumas instituições se desenvolverem.

É nesta combinação que reside o nosso espaço de diferenciação: excelência académica e científica associada à capacidade de transformar conhecimento em soluções. Quero que uma empresa que enfrenta um desafio tecnológico, um município que procura responder a um problema do território, uma unidade de saúde que pretende melhorar um processo ou uma instituição que necessita de inovar encontre na UPCB competências, investigadores, estudantes e infraestruturas capazes de compreender o problema, desenvolver conhecimento, experimentar soluções e avaliar resultados.

Esta proximidade dá-nos também uma oportunidade extraordinária: transformar a Beira Baixa num verdadeiro território de experimentação e inovação, onde Universidade, empresas, instituições e municípios possam trabalhar em conjunto sobre problemas reais. O território deixa, assim, de ser apenas o espaço onde a Universidade está localizada e passa a ser parte integrante da forma como ensinamos, investigamos e inovamos.

É esta Universidade Politécnica que queremos construir em Castelo Branco: uma Universidade com raízes profundas no território e capacidade para trabalhar em redes globais; que forma para as profissões de hoje, mas antecipa as competências de amanhã; que produz ciência, mas procura que essa ciência tenha consequências; e que mede a sua relevância também pela capacidade de qualificar pessoas, tornar as organizações mais competitivas e contribuir para criar riqueza, emprego qualificado e novas oportunidades na região.

Neste momento estão a funcionar três doutoramentos na UPCB, em parceria com outras instituições. No futuro em que áreas poderão avançar os terceiros ciclos?

Os doutoramentos são uma dimensão muito importante da afirmação científica da UPCB, mas não queremos criá-los por uma questão de estatuto, de número ou de catálogo. Um terceiro ciclo só faz sentido quando assenta em verdadeira capacidade científica: massa crítica, unidades de investigação, orientadores qualificados, redes nacionais e internacionais, projetos de investigação e problemas relevantes sobre os quais seja possível produzir conhecimento novo.

É essa lógica que já está presente nos três doutoramentos que integram atualmente a nossa oferta. O Doutoramento em Sustentabilidade Agro-Alimentar e Ambiental reúne quatro instituições politécnicas e o CERNAS, articulando agricultura, ambiente, floresta, recursos naturais e indústria alimentar, precisamente para responder aos desafios das regiões rurais e às transformações climáticas e socioeconómicas. O Doutoramento em Ciências do Desporto resulta também de uma associação alargada de instituições e procura ligar investigação e inovação aos grandes desafios societais. E o novo Doutoramento em Design para a Inovação Regional, que iniciámos este ano em associação com a Universidade Politécnica de Viana do Castelo, assume de forma particularmente clara o território como espaço de investigação, experimentação e validação do conhecimento.

Este doutoramento traduz muito bem a visão que queremos afirmar na UPCB: uma investigação avançada que não fica fechada dentro da Universidade. Queremos que empresas, municípios, centros tecnológicos, instituições e comunidades sejam também espaços de investigação, onde se identificam problemas reais, se desenvolvem soluções, se testam respostas e se avalia o impacto produzido. Foi precisamente essa ligação entre ciência, inovação e território que procurámos colocar no centro do Doutoramento em Design para a Inovação Regional.

A prioridade é, por isso, consolidar estes doutoramentos, reforçar a sua qualidade e o seu impacto, e identificar novas áreas em que a UPCB reúna condições efetivas para construir formação doutoral diferenciadora. Devemos fazê-lo onde se cruzem três dimensões: competências científicas instaladas, desafios relevantes para o território e capacidade de integração em redes nacionais e internacionais de investigação.

Mas poderão avançar noutras áreas?

Iremos olhar para áreas como as engenharias e tecnologias, gestão, inovação e desenvolvimento territorial, ciências agrárias e alimentares, saúde, design e outras áreas interdisciplinares onde a Universidade possa reunir competências dispersas e construir propostas com verdadeira identidade científica. O objetivo não é replicar o que outras instituições já fazem; é identificar onde podemos acrescentar conhecimento, diferenciação e valor.

Quero doutoramentos que atraiam estudantes e investigadores, tragam projetos e redes para Castelo Branco, aproximem empresas e instituições da investigação e aumentem a capacidade científica da Universidade. Um doutoramento deve deixar mais do que diplomados: deve deixar conhecimento, publicações, projetos, relações institucionais, inovação e capacidade instalada.

Essa é, para mim, a medida certa da formação doutoral numa Universidade Politécnica: ciência de elevada qualidade, mas ciência com capacidade de entrar nas organizações, compreender problemas complexos, desenvolver soluções e produzir impacto económico, social, ambiental e territorial.

A realização de parcerias com outras IES para os doutoramentos ou mestrados e para projetos de investigação é um caminho a seguir?

É um caminho essencial e é precisamente esse o percurso que estamos a procurar consolidar. Num sistema científico cada vez mais competitivo, interdependente e organizado em redes, nenhuma instituição deve partir do princípio de que consegue fazer tudo sozinha. A questão já não é saber se devemos cooperar, mas perceber onde faz sentido fazê-lo, com que parceiros e para produzir que resultados.

Estamos, por isso, a trilhar um caminho de abertura a novas oportunidades colaborativas, procurando parcerias que reforcem aquilo que a UPCB já sabe fazer bem e, ao mesmo tempo, nos permitam acrescentar capacidade científica, tecnológica e formativa. Quero parcerias em que a Universidade entre com competências próprias, seja reconhecida como parceiro de pleno direito e obtenha resultados concretos: formação avançada, projetos, publicações, acesso a redes, mobilidade de investigadores, reforço de infraestruturas e impacto efetivo no território.

Cooperar não significa diluir-nos. Pelo contrário: quanto mais clara for a nossa identidade e mais robustas forem as nossas competências, maior será a nossa capacidade para construir relações equilibradas, exigentes e duradouras.

Esta lógica estende-se também às empresas, municípios, unidades de saúde, centros de investigação e restantes instituições. Os grandes desafios que temos pela frente:  transição digital, sustentabilidade, envelhecimento, competitividade industrial, recursos naturais, qualificação ou atração de talento, são demasiado complexos para respostas isoladas. Exigem conhecimento interdisciplinar, capacidade de experimentação e articulação entre diferentes atores.

É precisamente aí que a UPCB pode ter uma vantagem. A nossa dimensão permite proximidade, flexibilidade e rapidez na construção dessas relações. Queremos transformar essa proximidade numa capacidade real de mobilizar parceiros, criar projetos conjuntos e ligar conhecimento a problemas concretos. É esse modelo de colaboração, aberto, exigente e orientado para resultados, que estamos a procurar aprofundar.

O facto da Universidade Politécnica de Castelo Branco ter uma dimensão mais pequena, face às localizadas nos grandes centros, é uma mais-valia para os estudantes de doutoramento e mestrado, devido à maior proximidade com os docentes e à maior disponibilidade por parte dos professores?

Pode ser uma vantagem muito relevante, desde que essa proximidade venha acompanhada de qualidade científica, exigência académica e boas condições de investigação. Um estudante de mestrado ou doutoramento procura orientadores competentes, acesso a redes científicas, integração em projetos, infraestruturas adequadas e acompanhamento efetivo. Numa Universidade com a nossa dimensão, podemos oferecer uma relação mais próxima, personalizada e menos anónima, o que é particularmente valioso na formação avançada.

Mas a nossa proposta de valor deve ir claramente além da proximidade. Queremos que os estudantes possam desenvolver investigação em contacto direto com empresas, municípios, unidades de saúde, centros tecnológicos e outras organizações, trabalhando sobre problemas reais e produzindo conhecimento com aplicação concreta.

A Beira Baixa oferece condições muito interessantes para isso. Tem diversidade económica, social, territorial e institucional suficiente para funcionar como um verdadeiro laboratório vivo, onde é possível identificar desafios, testar soluções, acompanhar a sua implementação e avaliar resultados em contexto real.

Essa articulação entre acompanhamento próximo, exigência científica, investigação aplicada e acesso direto ao território pode tornar-se uma vantagem diferenciadora da UPCB. O estudante não vem apenas obter um grau. Vem integrar uma comunidade científica, participar em projetos, trabalhar com organizações, desenvolver investigação relevante e produzir conhecimento capaz de gerar impacto.

É essa experiência que queremos afirmar: formação avançada com qualidade, proximidade e propósito, onde ciência e território se encontram e onde o percurso do estudante pode também contribuir para criar soluções, inovação e valor.

Quais as mais-valias para os estudantes escolherem a UPCB e a região para estudar?

A nossa proposta de valor assenta numa ideia simples: oferecer uma experiência universitária de qualidade, próxima, exigente e profundamente ligada às oportunidades do território. Isso traduz-se em cinco dimensões que se reforçam mutuamente: qualidade académica, proximidade, ligação ao mundo profissional, qualidade de vida e a possibilidade de integrar uma Universidade em transformação, com ambição de crescer, inovar e abrir novos caminhos.

A UPCB parte de bases sólidas. Temos acreditação institucional pelo período máximo de seis anos, uma matriz politécnica que aproxima a formação das profissões e das organizações e uma escala que permite relações mais próximas entre estudantes, docentes, investigadores e projetos. Mas queremos acrescentar a isso mais ciência, mais inovação, mais internacionalização e mais oportunidades de participação em projetos com impacto.

Castelo Branco e a Beira Baixa acrescentam outra dimensão muito importante. Oferecem segurança, qualidade de vida, proximidade, uma escala humana e condições que podem ser particularmente atrativas para quem procura estudar com qualidade fora dos grandes centros. O nosso desafio é transformar essas vantagens territoriais numa verdadeira vantagem competitiva, ligando qualidade de vida a oportunidades de aprendizagem, investigação, emprego qualificado e desenvolvimento profissional.

Quero que estudar na UPCB seja muito mais do que frequentar um curso. Quero que um estudante encontre boa formação, mas também investigação, projetos, empresas, cultura, desporto, mobilidade internacional, oportunidades de empreendedorismo e uma comunidade onde possa construir relações e criar futuro.

E há uma ambição ainda maior. Quero que alguns dos jovens que chegam a Castelo Branco para estudar descubram aqui razões para ficar: oportunidades para trabalhar, investigar, empreender, criar empresas, integrar instituições e construir um projeto de vida. Esse deve ser um dos contributos mais importantes da Universidade para a região.

Para uma Universidade do interior, o sucesso não pode medir-se apenas pelo número de estudantes que consegue atrair ou diplomar. Mede-se também pela capacidade de transformar conhecimento em oportunidades, de aproximar talento e território e de ajudar a criar uma região onde seja bom estudar, trabalhar, investir, criar e viver.

Se conseguirmos que cada vez mais jovens olhem para a Beira Baixa não apenas como um lugar onde podem estudar, mas como um território onde podem construir futuro, então a Universidade estará verdadeiramente a cumprir a sua missão.

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