O mais recente livro de José Milhazes é o mote para uma conversa sobre ideologias, a guerra entre russos e ucranianos, sem esquecer a importância de as novas gerações conhecerem a História para não repetir os erros no futuro.
O livro que acabou de lançar, «Porque Não Sou Comunista» é uma reflexão autobiográfica, histórica e política em que explica as razões que o levaram a afastar-se do comunismo e das ideologias marxistas-leninistas, como projeto político. Para além de ter estudado História, e ser formado em História da Rússia, o facto de ter vivido 38 anos naquele país fê-lo conhecer por dentro e sentir na pele a diferença entre propaganda e a vida real destes regimes?
Sem dúvida. Essa vivência concreta foi decisiva. Na teoria era, por exemplo, uma ideologia que perseguia o valor da justiça social e o que acontecia na prática era o contrário. Uma coisa é aquilo que se diz e outra é aquilo que se faz. Após viver “in loco” naquele regime comunista concluí que nada tinha que ver com aquilo em que eu acreditava. Era, na verdade, um regime opressor. Uma ditadura, para falar mais claro. Na União Soviética e também na atual Rússia, existia e existe capitalismo de Estado, com todas as desigualdades que se possa imaginar. Foi esta e outras disparidades que me levaram a abandonar o comunismo.
Refere que os regimes soviéticos se caraterizaram por repressão, purgas, manipulação, “gulag” e a propaganda. Esta é uma ideologia que cristalizou no tempo e que neste momento está em falência um pouco por todo mundo?
A ideologia comunista tem perdido influência e vai perder, e o mesmo se aplica ao Partido Comunista em Portugal – A menos que opere alguma reviravolta interna que não consigo vislumbrar. O comunismo é uma ideologia que já provou ser falsa, muitas vezes, em muitos lugares. E não há nenhuma experiência comunista que tenha acabado bem. Elas conduzem a repressões, fome, antissemitismo e a todos outros males que essa ideologia diz condenar e combater. Uma ideologia que tem na raiz a ditadura do proletariado não vamos ver dar origem a uma democracia plena, mas sim a uma democracia popular, que todos sabemos como acaba. Varia apenas a intensidade da repressão e o número de vítimas, emergindo os defeitos de uma sociedade que pretendendo ser mais igualitária, não passa de uma ditadura.
No livro analisa figuras como Lenine, Trotsky e Estaline. O que afasta e aproxima estes três líderes históricos do homem que dirige os destinos da Rússia há 26 anos, Vladimir Putin?
A sede e a fome de poder absoluto é o que une Putin a essas personagens. O poder ditatorial, que é uma caraterística dos regimes marxistas-leninistas. Em qualquer das suas variantes, aparece sempre o grande líder. Defendo que Putin não é comunista, nem está a pensar construir uma sociedade comunista. Putin acha-se um político que está convencido que manda na História, e que tem por missão salvar o país dele e o mundo. Varia o número de vítimas dos regimes, mas a forma como são construídos e se impõem não difere muito. Enquanto isso, o poder económico concentra-se, cada vez mais, nas mãos do Estado e nos seus homens de confiança, os chamados oligarcas. Em suma, há muitas semelhanças entre os regimes autoritários comunistas e o atual regime político russo.
A morte do líder da oposição russa, Alexei Navalny, em 2024, desencadeou uma forte reação popular no país, mas que foi fortemente reprimida. O medo está sempre presente porque quem ouse contestar o regime é detido e condenado?
Claro. O medo é uma das traves-mestras do regime autoritário e a principal força de coesão e de manutenção desse regime. E a criação de um aparelho repressivo baseado nesse mesmo temor. Os cidadãos têm de desconfiar sempre porque nessas sociedades o regime pode estar infiltrado em todos os poros, controlando e castigando.
Após o acordo dos combustíveis entre os presidentes americano e russo escreveu nas suas redes sociais que «a Ucrânia é cada vez mais um país traído e vendido por Donald Trump». Perante isto, Kiev só pode esperar ajuda da Europa ou capitulará?
Se as coisas continuarem a avançar como estão, receio que a Ucrânia tenha de capitular. Pelo menos, na cedência de mais território à Rússia. A Ucrânia tem a seu desfavor o facto de em Washington existir um líder que é um ser intratável e insano, que vai ao encontro da política de Putin, por vezes mesmo sem ele pedir. A Ucrânia pode deixar de ter apoio dos Estados Unidos. É certo que a Europa tem poder e capacidade de influência, mas está a braços com uma crise gigantesca. E que tende a agravar-se. Enquanto isso, a solidariedade europeia com a Ucrânia também pode ficar fragilizada. Em tempos de crise cada país olha para os seus interesses e é nesta divisão que Putin joga fortemente.
Como está a assistir às manobras de Intimidação aos países da NATO, nomeadamente à Polónia e aos Estados Bálticos?
Espero que a guerra entre a Rússia e a NATO nunca comece. A Europa do ponto de vista de armamento convencional é mais forte do que a Rússia, mas tem pouco armamento nuclear. Admito que a Rússia do ponto de vista de armamento convencional não se mete com a Europa, mas não descarto que faça chantagem nuclear. O nuclear é uma carta que a Rússia pode usar como ameaça. E já o está a fazer. Mais distante parece-me passar da ameaça à prática. Enquanto isso, a minha pergunta é esta: será a Europa capaz de se mobilizar para defender o continente de um ataque russo? Estará a juventude europeia pronta para defender os seus respetivos países de um ataque russo? Estas são questões muito importantes a que não responderia de forma pronta e convicta. Os europeus relaxaram ao pensar que a paz no continente era eterna.
Trump disse há dias que chegou a altura de a Ucrânia ter um novo presidente. Como fazer um ato eleitoral justo em tempo de guerra?
Putin só pode agradecer e manifestar o apoio perante estas sugestões. Mas nesta altura não se coloca a ideia de ter um homem pró-Kremlin em Kiev. O objetivo no curto prazo é criar instabilidade política na Ucrânia e levar a que Zelensky se demita. Dependerá do sucessor e se Moscovo o considere suficientemente maleável para atingir os seus objetivos. Entretanto, Putin quer resolver o problema da Ucrânia à força e muito rapidamente. Ele vive no seu mundo que é criado pelos conselheiros e militares que o rodeiam. Se Zelensky um dia destes ceder o Donbass, pouco tempo depois virá Putin a pedir-lhe mais…
Enquanto não recuperar o império russo desmantelado, Putin não parará?
Ao prosseguir ele vai hipotecar o futuro da Rússia. Por muitos recursos que tenha este país, eles não são infinitos. Por exemplo, a Rússia terá meios para aguentar uma guerra com a Europa? Duvido.
Regressando ao livro, ele é dirigido às novas gerações, que defende devem estar «atentas e socialmente ativas». É convidado com frequência para palestras em diversas escolas do país. Qual é a importância de as novas gerações possuírem conhecimento da História?
As gerações jovens amadurecem mais devagar e viveram num ambiente muito mais confortável do que as anteriores. Mas é preciso arrancá-las da letargia em que se encontram. Num mundo global, a guerra é aqui ao lado. Não é longe, como se possa pensar. Eles ficam muito surpreendidos quando eu nas palestras nas escolas digo: «Jovens, vocês poderão ter de fazer serviço militar obrigatório e podem ir para a frente de combate!». Mas acredito que para eles este é um cenário muito longínquo. Veem em mim um arauto da desgraça e do pânico da preocupação europeia.
Conhecer o passado é o melhor antídoto para combater a progressão dos projetos políticos que avançam com soluções milagrosas para problemas de complexa solução?
A História funciona como as vacinas. Só conhecendo o passado, podemos prevenir determinadas enfermidades que surgem na nossa sociedade. Mas as vacinas têm prazo de validade. E a História repete-se. Não há volta a dar. A principal causa do reaparecimento das forças extremistas é a fraqueza do centro e a incapacidade dos partidos clássicos de darem resposta aos problemas sociais. Aos jovens deixo a seguinte mensagem: estudem, cruzem dados e mantenham-se atentos e não vão atrás de doutrinas, discursos facilitadores e verdades absolutas.
Como já viveu em ambos os lados da “barricada”: Vale mais uma democracia imperfeita ou uma ditadura perfeita?
Não tenho a mínima dúvida que uma democracia por muito imperfeita que seja é sempre melhor que uma ditadura. Sempre. Pelo menos permite-nos mudar. Já as ditaduras não e começam a ser cada vez mais fechadas.
A CARA DA NOTÍCIA
38 anos a residir no «país dos sovietes»
José Milhazes nasceu a 2 de outubro de 1958, na Póvoa de Varzim. Em 1977 foi estudar para a União Soviética. Licenciou-se em História da Rússia na Universidade Estatal de Moscovo (Lomonossov) e estabeleceu-se naquele país enquanto tradutor de obras literárias e políticas. Em 1989 começou a fazer trabalho jornalístico na TSF e depois noutros media portugueses. Fez o doutoramento em 2008, na Universidade do Porto, dedicado ao tema «Influência das ideias liberais espanholas e portuguesas na Rússia». Regressou a Portugal em 2015 com um conhecimento incomparável no panorama português sobre a sociedade, a política e a história russas e da Europa de Leste. É comentador na SIC e na SIC Notícias, protagonizando o programa «Guerra Fria» com Nuno Rogeiro. «Porque não sou comunista» é a mais recente novidade editorial, lançada pela Oficina do Livro.