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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXV

Frei Fernando Ventura, teólogo e biblista ‘Vivemos numa sociedade solteira de afetos e divorciada de compromissos’

13-12-2021

Há cerca de 30 anos que escolheu uma vida ao serviço do próximo, tendo já percorrido 87 países nos cinco continentes, em inúmeras missões religiosas e humanitárias. O lema de Frei Fernando Ventura é sempre o mesmo: «Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o mundo de alguém». A poucos dias de mais um Natal, ainda em contexto de pandemia, oportunidade para refletir sobre a sociedade em que vivemos e o papel da Igreja.

Este será o segundo Natal que celebramos em pandemia. O contexto redobra a importância desta quadra?
De certeza que reforça aquilo que é o Natal na sua essência, que é uma possibilidade de sonhar os impossíveis. É importante recentrar o Natal naquilo que ele tem de celebração de vida, em comunhão e comunidade, até porque os confinamentos sucessivos a que temos sido sujeitos têm impedido esta partilha. O Natal é sempre isto: um Deus que chega à história, em figura de gente. Por isso, o Natal é um tempo tão privilegiado de acolhimento a todos os que nos estão mais próximos. Acho por isso que o Natal tem de ser sempre e quando for necessário, justamente porque a sua essência reside no acolhimento.

Mas os últimos quase dois anos têm provado que, ao contrário do que muitos previam, a pandemia não mudou a Humanidade assim tanto…
Este tempo tem provado isso. O otimismo generalizado que criou acabou, de certa maneira, por esfumar-se. A anunciada humanização da sociedade não se verificou. Longe disso. Continuamos a viver uma sociedade solteira de afetos, viúva de emoções e divorciada de compromissos. Na verdade, estamos a pagar uma fatura altíssima do egoísmo dos países detentores das licenças e das patentes das vacinas e o seu abandono aos de sempre. A pandemia tem demonstrado que a Humanidade é um todo e estamos todos sujeitos aos mesmos riscos. A não solidariedade e a não consciência do outro é uma atitude de negação da vida. Vivemos também numa sociedade tribalizada, na qual vamos empurrando a vida para a frente, em todas as dimensões: da política, ao futebol, à religião, passado pela culinária. É uma permanente disputa e confrontação entre nós e os outros e nós somos sempre os detentores da razão.

As sociedades em que habitamos caracterizam-se pelo domínio da tecnologia e pela velocidade vertiginosa do tempo. Estes paradigmas estão a matar a sociedade e a reduzir ao mínimo o tempo para refletir?
Matamos as palavras, matamos os afetos e suicidamo-nos. Vivemos num tempo de palavras mortas e de afetos mortos ou que apenas servem para enfeitar discursos, mas que dificilmente se concretizam. O nosso tempo perdeu a dimensão do tempo. Recordo uma história vivida em Cabo Verde, em 1998. O nevoeiro de pó do deserto africano impedia os aviões de levantarem voo e uma senhora, que estava connosco, começou a ficar muito agitada, porque tinha que estar no dia seguinte em Lisboa, por motivos de trabalho. Sentando a fumar calmamente um cachimbo feito à mão, um senhor de idade, sentado numa pedra, virou-se para mim e disse: «Sabe, vocês europeus têm horas para tudo, nós aqui temos o tempo.» Isto é de uma filosofia fantástica. Queremos estar em permanente atitude de disponibilidade, mas tudo isto é efémero, e está assente na tecnologia que domina os tempos modernos e que nos permite, aparentemente, estar em todo o lado. Mas, no fundo, não estamos em lado nenhum. Por isso é que estamos rodeados de informação por todos os lados, mas dispomos de pouca formação. Precisamente, por falta de tempo cronológico e mental para digerir os acontecimentos.

Voltando às vacinas, diz que a «ganância dos senhores do tempo» tem conduzido a esta disparidade na velocidade de vacinação entre os chamados países desenvolvidos e o Terceiro Mundo. A pobreza e as desigualdades radicam em motivos de natureza política?
Esta é uma Humanidade ferida, gerida por políticos, o que é sempre algo muito perigoso. Ao longo dos anos, temos vindo a construir uma sociedade de bem-estar egoísta. Recordo-me que estava em Nova Iorque no dia em que Barack Obama assinou a primeira versão do documento deu origem ao “Obamacare”. O ex-presidente americano estava acompanhado por duas crianças que perderam a mãe, por esta ter sido obrigada a abandonar os tratamentos de combate ao cancro, pelo facto de o seguro ter caducado. Nas televisões vários comentadores, especialmente na Fox News, passavam a ideia que abrir a assistência médico-sanitária à sociedade em geral iria reduzir os meus privilégios ou os do meu grupo. Isto foi um discurso de ódio que me tocou profundamente e que me levou a encontrar a raiz para os conflitos e que se explica por o meu “eu” se sentir invadido ou em perigo de perder algum tipo de privilégio. Importa, por isso, tudo fazer para construir um equilíbrio relacional e aquilo que eu chamo a consciência do outro. Uma das palavras que hoje em dia está na moda é «tolerância», o que é revelador do profundo desequilíbrio relacional que vivemos. O objetivo que defendo passa pela emergência de uma consciência comunitária da vida e da Humanidade. O meu irmão que vive na aldeia mais remota do último bairro de lata de Nova Deli tem exatamente o mesmo direito que eu tenho a ser protegido com a vacina de combate à Covid-19. Mas o que vemos é o oposto. O chamado primeiro mundo já vai na terceira dose, enquanto o continente africano tem somente quatro por cento da sua população vacinada. O egoísmo tem um preço e é mentira quando ouvimos dizer que estamos todos no mesmo barco.

O Papa Francisco falou a semana passada em Lesbos do «naufrágio da civilização europeia». O seu pontificado vai conseguir as reformas de que a Igreja carece?
É o nosso grande desejo que o Papa consiga concluir o projeto de transformação e fraternização do mundo e da Igreja, desmontando a estrutura piramidal e imperial dos fumos de Constantino que nunca foram embora de vez, trazendo para a consciência do mundo a urgência da horizontalidade das relações e do olhar. «Vai em direção a ti mesmo e repara a minha igreja que está em ruínas», terá sido o que o crucifixo de São Damião terá dito a Francisco de Assis e é precisamente este caminho que traduz o pontificado do Papa Francisco. O Papa é jesuíta e eu sou franciscano capuchinho, mas assumiu como homenagem e sinal distintivo do seu pontificado o nome e o legado de São Francisco de Assis. Foi uma atitude que deu um gozo enorme a todos os franciscanos. Como referiu, o Papa esteve recentemente, em Lesbos, mas queria sublinhar que a sua primeira viagem apostólica foi à ilha de Lampedusa. Precisamente em Assis, em Itália, diante da basílica, encontra-se um dos muitos barcos dos migrantes que deram à costa do Mediterrâneo.

Acredita que o Papa vai conseguir vencer as resistências dentro do Vaticano?
Se as etapas que estão previstas e programadas até 2023, que terminarão com a reunião sinodal, forem cumpridas, acredito que vamos ter uma Igreja diferente e a continuidade do sonho do Concílio Vaticano II que foi, essencialmente, passar a Igreja de uma estrutura piramidal para uma estrutura circular. Sendo que no centro não está o Papa ou outra pessoa qualquer, mas está Cristo ressuscitado. À volta estamos todos, equidistantes do mesmo centro, cada qual com responsabilidades diferentes dentro da comunidade.

Contudo, a Igreja vive desafios tremendos como o escândalo dos abusos sexuais, o alheamento dos fiéis e a crise de vocações. Como se superam estes desafios?
Estamos a falar do conhecimento que temos da Igreja no mundo ocidental. Tenho a felicidade de no meu trabalho ter estado nos cinco continentes e percebi que o tipo de Igreja que temos na Europa é muito, muito diferente do tipo de Igreja que temos noutras partes do mundo. Se um dia tiver oportunidade de participar numa eucaristia celebrada em África vai ser muito difícil voltar a querer participar numa eucaristia celebrada na Europa, por exemplo. De facto, a Igreja tem pecados gravíssimos e tem que se penitenciar por eles, mas por outro lado, a Igreja está presente em locais onde mais ninguém quer estar, à margem dos escândalos e da Igreja fechada e quase autística do chamado mundo civilizado. Um dos problemas recorrentes da Igreja tem sido comunicar, ou seja, fazer-se ouvir e fazer-se ver. Mas atrevo-me a dizer que, neste momento, as estruturas da Igreja são as mais seguras para acolherem crianças e jovens. E se outros grupos sociais e humanos tivessem tido a coragem que teve a Igreja de tomar posição sobre estes abusos, teríamos um mundo muito mais seguro para as crianças. Na verdade, a família continua a ser o lugar mais perigoso para as crianças viverem.
Como disse há pouco já esteve nos cinco continentes em funções e missões religiosas. Tem algum projeto ou história que o tenha tocado e queira partilhar?
Acredito que não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o mundo de alguém. E é este lema que me tem sempre norteado. A missão que tenho neste momento no meu coração e que merece, por isso, toda a minha atenção é o Banco de Leite, em São Tomé e Príncipe. Há 11 anos tem sido o meu trabalho direto, juntamente com uma infinidade de pessoas de variadas idades. E tudo começou com a construção da Casa dos Pequeninos, uma estrutura de acolhimento de meninos órfãos. Lembro-me que nessa altura a Caritas Diocesana, responsável por esse orfanato, tinha leite para três semanas. Passei a mensagem e com a ajuda da imprensa conseguimos ter leite garantido para vários meses, até final de dezembro, proveniente das empresas leiteiras de São Miguel, nos Açores. São ajudas destas que nos permitem fazer os milagres da partilha. Mas não queremos parar por aqui. Pretendemos abrir em breve uma casa de acolhimento para idosos na ilha do Príncipe, “Casa Betânia”, que terá um letreiro a dizer «dos pobres, para os pobres». Porquê? Porque são os pobres que são solidários e estão a pagar a casa. Infelizmente, há muitos grandes em Portugal que prometeram e, no final de contas, recusaram-se a ajudar e fugiram cobardemente. Se metade dos que me prometeram ajuda o tivesse feito, eu já teria construído um Sheraton na ilha do Príncipe.

É convidado com regularidade para fazer palestas em escolas. O que é que transmite aos jovens e o que é que eles lhe perguntam?
A última escola em que estive foi a secundária Homem Cristo, em Aveiro. Sou muito avesso a dizer às pessoas o que têm que fazer. Prefiro mostrar o que há para fazer. Tive a felicidade de trabalhar sempre com gente jovem e cheguei, inclusive, a dar aulas de Moral no Vale da Amoreira e na Baixa da Banheira, na margem sul. Não era e não é uma disciplina obrigatória, mas tive o gosto de após três anos como professor na Baixa da Banheira ter terminado o ano letivo com 350 alunos. Com a particularidade de mais de 90 por cento dos meus alunos nem sequer frequentavam a Igreja ou a catequese. Dá-me um enorme gozo. O que é caraterístico nos jovens é a generosidade e a não acomodação. É preciso é fazer-lhes ver que há vida para além do ecrã do telemóvel e dos jogos de consola.

 

 

CARA DA NOTÍCIA

Intérprete no Vaticano

Fernando Ventura, franciscano capuchinho, nasceu na Senhora da Hora, em Matosinhos, a 23 de outubro de 1959, no mesmo dia de «Pelé, Hermínia Silva e do Padre Américo», como gosta de referir. Teólogo e biblista, foi professor de Ciências Religiosas no ISCRA em Aveiro. É intérprete na Comissão Teológica Internacional da Santa Sé. Colabora, como tradutor, com diversos organismos internacionais, como a Ordem dos Capuchinhos, a OFS e a Federação Bíblica Mundial. Dirige a revista Bíblica, com 60 anos de longevidade, onde assina artigos de aprofundamento teológico.
Autor do primeiro estudo sobre Maria no Islamismo, lançou o livro Roteiro de Leitura da Bíblia. É membro da EAPN - Rede Europeia de Luta Anti-pobreza, do Observatório para a Liberdade Religiosa ligado à Universidade Lusófona e da Comissão Consultiva Multi-Religiosa da mesma Universidade onde foi professor convidado e é ainda um dos membros fundadores da “Frente Cívica”. Ministra cursos e retiros, percorre o mundo, de convite em convite ou de conferência em conferência, como tradutor. É assíduo comentador de atualidade social e religiosa em vários canais televisivos. A rádio TSF escolheu-o como “figura do ano” em 2010.

 

 

Nuno Dias da Silva
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